ENERGIA: RECURSOS ENERGÉTICOS

EXPLORAÇÃO DE COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS NÃO CONVENCIONAIS


 
No mundo conturbado em que vivemos — instável, e em transição para um futuro não claramente definido, cujos contornos é difícil antever com segurança — levantam-se questões de natureza global de que importa tomar consciência para que se torne possível a procura de soluções viáveis e socialmente aceitáveis. Tais soluções só poderão encontrar-se percorrendo os caminhos que a ciência e as tecnologias nos oferecem e vão abrindo à nossa frente. Há que escolher os caminhos porque nem todos levam a bom porto.

A energia é uma dessas questões de incidência global. Como o são, o acesso à água ou a produção de alimentos. Vendo bem, todos eles estão ligados entre si, mais estreitamente nuns casos, menos em outros. Está na nossa vocação de associação de Trabalhadores Científicos que se querem socialmente responsáveis chamar a atenção para estas questões e trazê-las para a boca de cena. Trabalhá-las e divulgá-las. No dealbar do século XXI, nos dias de hoje, a maior contribuição para satisfazer os consumos de energia do mundo é dada pelos combustíveis fósseis: petróleo, carvão e gás natural. Estas três fontes em conjunto satisfazem mais de 80% do consumo total, sendo que o petróleo vem à cabeça, com cerca de 34% desse consumo, seguido pelo carvão, com 27%, e do gás, com cerca de 21%.

 

A questão de saber como pode evoluir no futuro a disponibilidade de recursos fósseis é decisiva para orientar as políticas energéticas e, designadamente, os montantes e os objectivos dos investimentos que importa fazer, na ciência fundamental e aplicada, e no desenvolvimento tecnológico, para poder vir a suprir adequadamente as necessidades futuras de energia das sociedades humanas. É hoje consensual entre os especialistas que se ocupam destas matérias que a disponibilidade de recursos energéticos fósseis economicamente recuperáveis por exploração de jazidas existentes na crusta terrestre, é limitada, antevendo-se, sobretudo no que respeita ao petróleo mas também no que respeita ao gás, que não seja possível manter por muito mais décadas os ritmos de extracção que vêm sendo praticados. Assume assim uma importância particular a procura de novas jazidas e novos processos de extracção, naturalmente, adaptados às condições físicas e geológicas das jazidas a explorar. No interior da crusta terrestre, onde se verificam condições favoráveis a tal, formaram-se reservatórios naturais retendo volumes importantes de hidrocarbonetos líquidos e gasosos. É possível trazê-los à superfície perfurando o solo de forma a criar um canal de fuga que permite o escape desses combustíveis fósseis. Estes ascendem naturalmente à superfície por efeito da diferença entre a pressão a que estão sujeitos no reservatório e a pressão atmosférica. Os combustíveis fósseis obtidos desta forma dizem-se “convencionais”.

Os combustíveis fósseis não convencionais são menos acessíveis, apresentando-se em jazidas de outros tipos e natureza, requerendo para a sua extracção outros processos e tecnologias próprias. Estas são em geral pouco “amigas” do ambiente, com efeitos destrutivos e poluentes significativos, nocivos para a saúde humana e animal, e são susceptíveis de inviabilizar ou causar prejuízo a outras actividades na região em que se processa a actividade extractiva. Não quer isto dizer que os impactos negativos associados à extracção de combustíveis fósseis ditos “convencionais”, quer sobre o meio ambiente quer, também, sobre a saúde das populações, e, directamente, sobre a saúde dos trabalhadores que nela participam, sejam desprezáveis ou inexistentes. Designadamente e sobretudo em situações de acidente que ocorrem por desrespeito de normas de segurança, por vezes deliberado, ou erro humano, as consequências podem ser muito sérias. Importa recordar o caso da explosão e subsequente afundamento da plataforma Deep Water Horizon, ocorrido em 2010 no Golfo do México, que é considerado ter sido o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos da América.

Entretanto, no que toca à exploração de jazidas de petróleo e gás não convencionais, o caso mais flagrante em que se verificam os problemas atrás referidos e que, por isso, motiva forte oposição de comunidades vizinhas e anima movimentos de protesto em diversos países, é o do processo de extracção designado por fracturação, em inglês, “fracking”. A técnica da fracturação é usada para a extracção de recursos de petróleo e gás não convencionais, de difícil acessibilidade, contidos em rochas compactas que apresentam baixa porosidade e baixa permeabilidade. Para aceder aos hidrocarbonetos (líquidos ou gasosos) retidos e imobilizados nessas formações rochosas, a profundidades que podem atingir 3000 metros, e fazê-los chegar à superfície, é necessário fracturar as rochas onde estão retidos abrindo fissuras que permitam o seu escoamento e ascensão numa tubagem instalada num furo previamente aberto no solo. Para fracturar a rocha é injectada no tubo água a alta pressão. Diversos produtos químicos são adicionados a essa água, por razões técnicas, e também areia que ajuda a manter abertas as fissuras criadas na rocha. A tubagem que é introduzida no furo perfurado tem a forma de um L, em que o troço terminal corre horizontalmente no subsolo. Este troço é perfurado de forma a permitir a entrada para o seu interior do líquido ou gás combustível que se quer extrair.

A extracção de combustíveis fósseis por “fracturação” de formações rochosas, dita “fracturação hidráulica”, é um processo extensivo, posto que a densidade do recurso é muito baixa, exigindo múltiplas perfurações, próximas entre si, e sobre uma muito vasta área, para que seja possível fazer um aproveitamento significativo dos hidrocarbonetos retidos na formação rochosa. Daí a necessidade de grandes investimentos. Quer dizer, trata-se de uma indústria capital-intensiva, agravada pela circunstância de a vida útil de um poço ou furo aberto ser relativamente curta. Quer dizer que a produção de cada furo decresce rapidamente no tempo obrigando à abertura sucessiva de novos poços para que a produção se mantenha. A extracção de petróleo ou gás por fracturação de formações rochosas é assim muito mais cara do que a extracção em poços em que são usadas técnicas convencionais.

Quando se verifica uma baixa significativa dos preços dos combustíveis fósseis— petróleo bruto ou crude, e do gás natural— a abertura de novos poços de exploração tende a tornar-se economicamente inviável. Nos EUA, onde a exploração de recursos por esta via tem tido um desenvolvimento galopante nos últimos anos, o número de poços em que é usada a técnica da fracturação é superior a um milhão. A área dos solos ocupados pelos campos de fracturação atinge milhões de hectares. Entretanto, em Novembro de 2014, os pedidos de autorização para novas furações caiu mais de 40%, ao mesmo tempo que foi encerrada a exploração de um número significativo de poços. Quando e se o petróleo estiver novamente em alta a situação, naturalmente, poderá alterar-se.

Os movimentos de cidadãos e associações que se opõem à fracturação hidráulica reforçam-se e tendem a proliferar à medida que progride a tomada de consciência dos efeitos ambientais negativos da técnica e dos prejuízos para a saúde pública que lhe estão associados. O volume de água injectado num único furo ascende a algumas dezenas de milhar de metros cúbicos. Essa água, por razão da carga poluente que transporta, acaba por ser perdida na sua quase totalidade, ao contrário do que acontece com a água usada em outras actividades produtivas ou serviços, seja na agricultura seja para usos domésticos e saneamento. Esta questão adquire particular importância em áreas sujeitas a stress hídrico e outras sujeitas a secas periódicas. A maior parte dos furos abertos nos EUA, em particular, situa-se em áreas onde há escassez de água. As questões com impacto ambiental e na saúde pública que se crê serem mais relevantes, no domínio que nos interessa aqui, têm a ver com a da contaminação dos lençóis freáticos e da água potável; a transformação de terras férteis em lixeiras industriais; a poluição do ar com compostos orgânicos voláteis incluindo o benzeno a que se associam efeitos cancerígenos. A água que corre nas canalizações domésticas das habitações situadas na proximidade de furos de extracção arrasta metano para o interior das casas. Finalmente verifica-se a ocorrência de actividade sísmica induzida nas zonas vizinhas por efeito da fracturação extensiva produzida pela injecção de água a alta pressão nos furos criados para a exploração das formações rochosas subterrâneas que contêm os combustíveis fósseis que se procura extrair. Alguns destes efeitos negativos, não todos, podem ser atenuados ou mesmo eliminados mediante alterações dos processos técnicos e práticas, adoptados para a extracção. No entanto, se isso implicar maiores custos de extracção é duvidosa a sua adopção espontânea pela indústria extractiva. É pouco provável que a situação se altere significativamente na ausência de um controlo público eficaz por parte das entidades responsáveis que só poderá aliás ter lugar se essas entidades se libertarem da pressão dos interesses económicos em jogo.

De acordo com Rui Namorado Rosa*, “os combustíveis fósseis continuam sendo fundamentais ao funcionamento da economia, mas seguindo uma trajectória geológica de recursos progressivamente menos concentrados e menos acessíveis, a custos económicos e ambientais progressivamente mais pesados. A racionalização e redução de consumos, e o criterioso recurso a outras fontes de energia e a inovadoras tecnologias de captura, conversão, armazenamento e utilização de energia continuam na ordem do dia.” Esta afirmação lê-se na conclusão de uma análise amplamente documentada da questão energética com que nos defrontamos, centrada na disponibilidade futura de recursos de hidrocarbonetos fósseis, convencionais e não convencionais. O trabalho elaborado por Rui Namorado Rosa para a OTC pode ser lido aqui.

*Rui NamoradoRosa, associado nº 6 da OTC, é professor catedrático jubilado da Universidade de Évora, e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Organização dos Trabalhadores Científicos.