Problemáticas da Ciência

 

Criatividade vs IA
Luís Moniz Pereira | TEDxFCTUNL*

O que é a criatividade e a relação com a Inteligência Artificial

Luís Moniz Pereira, membro dos Órgãos Sociais da OTC e um dos seus sócios mais antigos, é o investigador português com mais publicações científicas e projectos de Inteligência Artificial. Engenheiro Electrotécnico pelo IST, doutorou-se em Cibernética em 1974 pela U. Brunel, foi Research Fellow na U. Edimburgo e obteve em 1980 a Agregação em Inteligência Artificial pela UNL. Doutor honoris causa pela U. Dresden. Fellow do Comité Coordenador Europeu para a Inteligência Artificial. Presentemente é professor catedrático e investigador do "NOVA - Laboratory for Computer Science and Informatics" da UNL, aposentado, e membro do conselho científico do IMDEA, Madrid.

 

*This talk was given at a TEDx event using the TED conference format but independently organized by a local community. Learn more at https://www.ted.com/tedx

 Einstein (1924). Leonid Pasternak,Óleo sobre tela  © The Pasternak Trust (www.pasternak-trust.org)

A Academia Portuguesa
e a Teoria da Relatividade Generalizada
no período entre guerras

Augusto José dos Santos Fitas

1.Introdução  

No Portugal do período entre guerras, a Teoria da Relatividade, quer a Restrita quer a Geral (ou Generalizada), não passou despercebida e foi alvo de referência e de alguma reflexão. Da análise dos diferentes materiais produzidos percebe-se que a resposta da comunidade académica portuguesa se centrou, sobretudo, nos Matemáticos, especialmente nos praticantes da Física Matemática, e nos Astrónomos. Foi o grupo dos matemáticos e astrónomos, os primeiros a apresentar a nova teoria em programas de disciplinas universitárias e a desenvolver alguma, pouca, investigação, em torno de tópicos matemáticos relacionados com a Teoria da Relatividade Geral (TRG). Foi também no seio deste grupo que se assistiu à expressão pública de posições anti-relativistas.

LUZ E SOMBRA NUM JULGAMENTO CONTESTADO: O SISMO DE L’AQUILA*

 

Seis de Abril de 2009, 3 horas e 32 minutos da madrugada. A pequena cidade de L’Aquila, no centro de Itália é abalada por um sismo de magnitude 6,3 na escala aberta de Richter. Trezentas e oito pessoas perderam a vida. Grande parte do património edificado no coração medieval da cidade foi destruído.Contaram-se cerca de 1500 feridos. Para além das sequelas evidentes e dramáticas do abalo, uma outra se verificou que embora de diferente natureza merece especial atenção: a relação da comunidade científica com os poderes instituídos e a opinião pública. Esta relação envolve e deve ser vista no contexto da responsabilidade social dos cientistas.

Em 31 de Março, uma semana antes do desastre, reunira-se no local um grupo de quatro sismólogos membros dachamada “Comissão dos Grandes Riscos” (“Major Risk Committee”) que é um órgão de aconselhamento científico do governo de Itália.Juntaram-se-lhes dois outros peritos, e ainda um responsável e funcionários do Departamento de Protecção Civil. Na região tinha vindo a manifestar-se, ao longo de vários meses, a partir de Janeiro, uma sequência sísmica com sucessivos tremores de fraca magnitude que não era inesperada numa área de alta actividade sísmica como aquela em que se encontra a cidade de L’Aquila. A questão era saber se aquela actividade sísmica prenunciava a possível ocorrência de um abalo de grande magnitude. No fim da reunião,os cientistas que nela participaram, terão afirmado, segundo veio a público, que a actividade sísmica recente sugeria um aumento da probabilidade de ocorrência de um abalo de grande magnitude.Acrescentaram ainda, que não era possível qualquer previsão segura.

Outra conclusão não seria de esperar no actual estado da experiência e conhecimento científicos no domínio em questão.

 

Galilée devant le Saint-Office au Vatican, óleo de ROBERT-FLEURY Joseph Nicolas (1847)

“E pur si muove”ou Galileu perante o Tribunal da Santa Inquisição

José Calçada*

Nada mais sinto do que um grande cansaço. Ou um eco de um grande silêncio dentro de mim. Como se a minha pele me isolasse do burburinho gesticulante e acastanhado que quase sufoca este anfiteatro. Olho-me como se eu fosse outro, os meus olhos e o meu cérebro fora de mim mesmo, e vejo-me, e vejo o meu corpo, oferecido àqueles seis semicírculos concêntricos de homens, e envolto numa cascata de argumentos com que pensam afogá-lo. Já não sei se com esta minha habilidade estou a fugir de mim mesmo, e a pretender salvar-me, e a ocultar-me o medo que cada vez mais vai tomando conta de mim – ou se com ela quero afirmar a coragem última de saber que aqueles homens não me encaram senão como um pretexto para o que não podem deixar de fazer. Já não sei se é este desdobramento que me cansa ou se é o cansaço que a ele inevitavelmente me conduz. Olho-me, e olho estes homens, e este anfiteatro, e a luz que a tudo e todos torna sombrios – do mesmo modo como tenho vindo a olhar a Lua e Júpiter com o meu telescópio. E, o que não é ironia menor, já não consigo olhar de outro modo. Trata-se de um vício, e, como viciado, a lucidez não pode ser senão uma das formas da condenação. Não imaginam como gostaria de possuir a coragem de Giordano e como me aterroriza poder vir a acabar como ele. Há trinta e três anos que todos os dias tenho medo. Trinta e três órbitas de medo em torno do Sol. Talvez por isso a habituação, talvez por isso o apenas cansaço de hoje, talvez por isso o mesmo medo que hoje me tranquiliza – o medo antigo, familiar, quase fraterno. Também é verdade que me não tenho vindo a sentir muito bem de há uns meses para cá, e, ao contrário das recomendações dos meus médicos, estes últimos dias têm sido de constante intranquilidade e constrangimento. Sinto que a longa viagem desde Florença também contribuiu para me fragilizar, nesta Primavera tímida e ainda fria. Nos meus olhos ressurge-me aquela névoa que uma ou outra vez já me havia levado a limpar cuidadosamente as lentes dos meus telescópios, e ressurge-me mais e mais vezes, e em intervalos cada vez mais curtos, e preocupa-me. É da pressão a que tenho estado submetido, dizem-me os médicos. Sentir-me-ei melhor, dizem-me, quando tudo houver terminado. Talvez tenham razão. Embora, em boa verdade, tudo dependa do modo como as coisas terminarem. O cientista, que sou, e o homem, que sou – como vou ser capaz de os conciliar? Giordano não me deixou muitas respostas. Pelo menos aquelas respostas que hoje, aqui, neste anfiteatro, me poderiam ser de algum modo úteis. Úteis a um acossado. Porque é precisamente assim que eu me sinto: acossado. Acossado por mim. Não por estes cardeais, não por estes bispos, não por estes teólogos, não por estes filósofos. Nem por este Papa Urbano, incapaz de compreender que só a verdade nos aproxima de Deus, e que cada parcela de verdade adquirida pelo homem é uma parcela de Deus que em nós habita. Pobre Urbano, que tão mal O representa… Chego a pensar se a fortaleza das minhas convicções não me terá colocado na fronteira do pecado mortal do orgulho, ou se me terá já feito atravessar essa linha, e se, assim, não estarei aqui a ser julgado por Deus sob pretextos em que Ele faz estes homens acreditar. Mas orgulhoso, eu? Eu – que tenho passado a vida num permanente jogo-do-gato-e-do-rato, de avanços e de recuos, de convicções e de conveniências, de explosões e de silêncios?... De coragens e de medos. Mas os medos marcam-nos mais profundamente. A coragem é-nos sempre – como dizer?... – exterior. À coragem, mostramo-la. Aos medos, guardamo-los. As coragens são feitas de vozes, de actos, e partilhamo-las; os medos, construímo-los com silêncios, com omissões, e só a nós mesmos nos têm por companhia. Como poderia assim ter escrito a Kepler aquela segunda carta que – várias vezes escrita, outras tantas rasgada, nunca enviada – finalmente ele de mim nunca receberia? É que, muitas vezes, o inferno são os outros. E com os outros o construímos. Eles, o nosso, quando nos detestam; nós, o deles, quando os amamos. Kepler nunca me perdoou, e eu amo a verdade que nele há, e, como Pedro a Jesus, aqui estou eu neste anfiteatro pronto para o negar, e até mais do que três vezes, e não é preciso que algum galo cante, basta-me a coragem de parecer cobarde aos olhos do mundo. Isso me basta – agora, aqui, talvez porque nada me resta, talvez porque me é a última coragem possível. Oh, Morus, Morus, tu bem sabias que a tua ilha é aquela que está para além do horizonte – e bem nos avisaste que o que nos faz navegar é sempre o que está para além do horizonte. Sei hoje – e a Morus o devo, e depois dele ao lúcido Giordano, e muito antes de ambos ao antiquíssimo Lucrécio – que para a construção da nossa utopia pode ser excessivo o volume do nosso quarto e pequena a infinitude do universo. Ainda hoje me acontece a vertigem do dia em que, da natureza das coisas, Lucrécio me revelou que “qualquer que seja o lugar onde nos encontremos, o universo se estende a partir daí igualmente em todas as direcções, sem limites”. Saberão isto estes teólogos que me olham e sobre mim falam? (Sim, presumo que é sobre mim que falam…). Saberão cada um deles – uns aqui ao meu lado, que quase os cheiro, outros naquela fila lá em cima, naquele canto sombreado, e estou certo que dormitam, e mesmo aquele ali, ao lado do escrivão, e que zela para que cada uma das minhas palavras não escape, e Urbano, que, ali no centro, no centro de tudo se julga – saberão que ocupam, cada um, um lugar a partir do qual o universo se estende igualmente em todas as direcções, sem limites? Ah, Lucrécio, meu companheiro, que agora, junto de todos os deuses em que não acreditavas, tão igual e infinitamente distante de todas as coisas como eu, mas muito mais próximo de mim do que todos estes velhos que aqui julgam poder tocar-me com um esticar de braços – como deves rir-te, tu, grande céptico de todas as utopias, esplêndido utópico de todos os cepticismos. Bem sabes como Vicenzio, meu pai, te apreciava, e assim me ensinou a “levantar questões livremente, dando respostas sem qualquer adulação da autoridade, como é próprio dos que buscam realmente a verdade”. Era assim que ele, Vicenzio, meu pai, me falava, nas tardes quentes dos campos de Florença. Afastávamo-nos da cidade, subíamos por vinhedos as colinas da outra margem do Arno, e víamo-la cheia de torres tão estranhamente perpendiculares aos olhos de um pisano, e o meu pai ensinava-me alaúde à sombra esguia dos ciprestes toscanos, astronómicos e naturais relógios de sol, e talvez por isso me falava também de números, e de ângulos, e só voltávamos a casa quando a neblina subia do rio e tornava imprecisos os limites da semiesfera do Duomo, e as ameias, cortadas horizontalmente dos seus alicerces pela bruma, pareciam levitar acima da cidade. Passávamos os ourives e joalheiros da Ponte Vecchio, e logo depois, antes da Piazza della Signoria, os tendeiros corriam os taipais e recolhiam as lonas das lojas, no ar o cheiro dos cravinhos e das pimentas que nos traziam ainda os portugueses e já os holandeses e novamente os venezianos e genoveses, e o som macio das peças de seda a serem sabiamente enroladas e arrumadas nas prateleiras. Hoje, aqui, na tua terna amargura quotidiana, no distanciamento que sempre me impunhas, no modo como abruptamente me repelias depois de me apertares nos teus braços, no quase medo que tentavas esconder-me enquanto me descobrias a liberdade – como te amo, Vicenzio, meu pai, e como os teus terrores são agora os meus, e como claramente vejo que, no entanto, não poderia ser outra a foz do rio que eu sou. Antes dos meus olhos, foram os teus que para mim viram a verdade dolorosa do Habacuc de Donatello, ou a melancolia da Vénus de Botticelli, e foram as tuas mãos que me levaram a acariciar a liquidez brônzea que o Ghiberti nos deixou na Porta do Paraíso do baptistério de São João. Agora, neste anfiteatro, no meio do zumbido dos outros e deste meu cansaço que mo não deixa ouvir, sei que foi o meu pai quem me construiu este caminho, como se alguma vez alguém em sonhos lhe houvesse anunciado a inevitabilidade do sacrifício do seu filho para a salvação dos homens. Oh, como me sinto seu irmão nesta dor tranquila da verdade… Estou vazio de mim mesmo, posso assim negar-me coerentemente, posso mostrar-lhes e demonstrar-lhes o vazio de Kepler, e de Copérnico, e mesmo daquele velho que eles julgam estar a interrogar – e faço exactamente isto, e tento fazê-lo com a convicta hesitação de quem não pode aparecer-lhes suspeitosamente com uma opinião nova, e logo tão lesta e tão segura. Há um grande silêncio, há riscos de luz congelados e oblíquos nas frestas, o oxigénio tem a rarefacção das grandes altitudes, e Urbano, o Papa, olha-me para além dos meus olhos, faz com a cabeça uma lentíssima rotação de quase noventa graus, olha o escrivão, olha o Grande Inquisidor, e há uma voz apontada àquele velho que julgam ser eu, e que lhe diz “Culpado és, Galileu, e condenado à reclusão na tua casa dos arredores de Florença até que a morte, deste escândalo te liberte” – e é então que eu me deixo deslizar definitivamente pelo plano inclinado da minha vida em direcção à História que, Deus o queira!, um dia me absolverá.

*Ensaio sobre o Processo de Galileu Galilei apresentado na Conferência Comemorativa dos 25 Anos da Confederação Portuguesa de Quadros Técnicos e Científicos, 31 de Maio de 2013, auditório do STFPSN, Porto

José Calçada é  Presidente da Direcção do Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino

 

Algumas Reflexões
sobre
«Português, língua de Ciência»[1

Augusto José dos Santos Fitas

Um convite inesperado por parte de colegas do Departamento de Línguas e Literatura da Universidade de Évora coloca-me aqui com a função de reflectir convosco sobre o tema que consta no programa desta conferência, «Português, Língua de Ciência». É uma tarefa ingrata que me esforçarei por cumprir, embora tenha a impressão que pouco adiantarei sobre o que já se tem escrito e dito, isto é, arrisco-me a trilhar caminhos já pisados… Pecarei por certo por alguma falta de originalidade, mas não pecarei por manter o silêncio de «aos costumes responder nada».

 É meu dever, em primeiro lugar e a abrir a minha intervenção, agradecer à comissão organizadora o convite que me foi dirigido e fazer uma breve declaração de interesses que se relaciona com uma singularidade da minha vida académica: sou um físico que trabalhou em áreas da física matemática aplicadas ao estudos das propriedades do nosso planeta, um astro que, tal como escreveu o poeta, «rola pelos espaços / à razão de trinta quilómetros por segundo» (foi nesta área que desenvolvi grande parte da minha carreira científica), contudo, enquanto físico, alimentei sempre uma paixão forte e irreprimível por uma outra actividade do conhecimento, de início marginal porque era difícil com ela alimentar uma carreira académica, a «História das Ideias em Física», disciplina que constitui uma espécie de ponto de encontro da História, da Filosofia, da Física e da Matemática. Foi à «História das Ideias em Física» que dediquei a minha actividade científica no último decénio da minha actividade académica. Sou portanto um exemplar académico que experimentou as Ciências e as Humanidades, em particular na História e na Filosofia e que, pour cause, viveu situações bem distintas na sua relação com a língua usada na comunicação da investigação que desenvolveu.

E passo de imediato ao meu primeiro tema de reflexão.

Science and the research profession in a crisis-ridden global world

Frederico G. Carvalho

(Intervenção no Simpósio da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, Paris, Fevereiro 2009)

 

 

Abstract

The present paper deals with the inevitability of chaos originating in the blind pursuit of the goals of the profit driven so-called “free market economy”. The adequacy of the formal democracy championed by the major western powers to cope with the problems facing mankind and achieve a materially sustainable and socially acceptable future is questioned.The need is stressed for a strong public sector to extend and develop education for all as well as to invest in R&D oriented towards the common good in an environment that promotes the attractiveness of scientific careers.

 

Introduction

 For a number of years public opinion especially in the so-called industrialized nations has regularly been confronted with the idea of the importance and necessity of developing human resources in science and technology and increasing expenditure in R&D.

Without further investigation of the how and why of that importance and necessity it is probably safe to consider that the idea is capable of generating a broad consensus in society. Things will look different as soon as one begins to enquire about the ways, means and ends of the scientific endeavour present and future.

From the point of view of the transnational corporations and their supporting financial capital superstructure, the main argument for investing in S&T is the need to “remain competitive in global terms”. Competitiveness however is a religion that demands human sacrifices.

Scientific workers are an indispensable tool to achieve the goal of “remaining competitive”. In fact, “without researchers there is no science in Europe”, says with remarkable insight Janez Potočnik, European Commissioner for Science and Research adding that “(…) wherever they work, (researchers should be) treated with the respect and esteem they deserve.”[1] Are they indeed?

Competitiveness and economic growth (growth without any qualification) stand as top policy priorities again and again emphasized in official statements issued by the many different bodies that propagate the views of the dominant ruling circles.

Quoting former Commissioner Philippe Busquin[2], “Europe needs more research if it is to consolidate economic recovery and enhance long-term competitiveness”.