CIÊNCIA E ARTE

Rómulo de Carvalho

In Palestra, Revista de Pedagogia e Cultura, nº1, Lisboa, 1958

É fácil averiguar que nas últimas décadas decorrentes bastante se tem avançado na compreensão do significado social da Arte. É claro que não nos referimos à escolha de motivos sociais para sua expressão em forma artística mas a disposição benevolente do público em se esforçar por acreditar que o artista não é um ornamento da sociedade mas um dos seus elementos imprescindíveis, com uma função a cumprir, definida e indispensável.

Numa apreciação superficial deste tema talvez parecesse que já houve tempo em que o artista teve maior conceito social do que hoje e que, sendo assim, a sua valorização teria vindo a declinar, desse apogeu, até aos tempos modernos. Certamente já o artista teve privilégios que hoje não aufere, teve o favor dos reis e de todos os grandes da Terra, encheu as arcas de benesses e a fronte de glória. Era então um deslumbrante ornamento, mas julgamos que nunca ninguém pensara, como agora, que a sua actividade fosse necessária como factor de progresso.

Em nosso sentimento (e o tema e para discussão) o artista e o cientista são dois destinos paralelos embora em fases díspares da sua evolução. Ambos desempenham na sociedade o mesmo papel de construtores, de descobridores, de definidores: um, do mundo de dentro; outro, do mundo de fora.

Precisemos melhor a questão. Não estamos apenas a afirmar (o que certamente teria o aplauso geral) que o artista e o cientista são pessoas igualmente estimáveis, merecedoras do mesmo respeito e ambos imprescindíveis numa sociedade. Estamos a querer exprimir mais do que isso, que um e outro ocupam lugares de igual necessidade, que aqueles mundos de dentro e de fora são de transcendência equivalente, que ambos esses mundos exigem a permanente busca, a orientada investigação que, em nossos dias, é considerada apenas apanágio da Ciência. Quando dizemos que o cientista e o artista são destinos paralelos queremos ampliar ainda e dizer que a Ciência e a Arte decorrem segundo linhas paralelas, o que nos parece mais claro para fazer entender o que pretendemos.

 

vieira

 

Padre António Vieira (1608-1697)

António Vieira, religioso jesuíta e grande mestre da Oratória, destacou-se como missionário em terras brasileiras, onde se ergeu em defesa dos direitos humanos dos povos indígenas condenando a sua exploração e escravização. Opôs-se à perseguição dos chamados “cristãos-novos” pela Inquisição, manifestou-se em defesa dos judeus e pela abolição da escravatura. Olhado com reserva pela Inquisição, cuja acção considerava nefasta ao equilíbrio da sociedade portuguesa, conseguiu o feito único de obter do Papa a suspensão da sua actividade em Portugal e no seu império durante sete anos (1675-81).

O “Sermão do bom ladrão” é um texto de crítica social e política que fustiga os comportamentos abusivos e predadores dos poderosos na sociedade portuguesa. Assim, como faz notar António Vieira, melhor se prestaria o Sermão a pregação na Capela Real vizinha do centro do poder do que na Misericórdia de Lisboa onde teve lugar nesse ano, já distante mas ao mesmo tempo tão próximo, de 1655.

 

"Science sans conscience n'est que ruine de l'âme"
François Rabelais (1484-1533)

("Ciência sem consciência mais não é que ruína da alma")

 

By DocteurCosmos (Own work) [GFDL,via Wikimedia Commons]

 NOAM CHOMSKY, o homem e a obra

A propósito de um filme de Michel Gondry (2013):

“Is The Man Who Is Tall Happy? An Animated Conversation with Noam Chomsky”[1]

 

 

Notas de um homem que é alto e que é feliz e que está feliz por causa do Chomsky que o século nos trouxe, que o Gondry filmou e que os Branco entrevistaram[2]

João Veloso

Universidade do Porto

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Noam Chomsky é um dos meus heróis vivos (e quando digo “vivos”, não o digo apenas por Chomsky ainda estar biologicamente vivo, mas principalmente pela força inspiradora do seu contributo simplesmente grandioso para a linguística, para a ciência – e para a humanidade). Como costumo dizer aos meus alunos, devíamos ter um busto dele em cada aula (vou dizendo isto à medida que vou apresentando outros nomes, e, às tantas, as minhas aulas, se esse desejo se realizasse, iam-se transformando num mausoléu, ou, se preferirem, numa galeria de super-heróis).

Para um linguista, não deixa de ser reconfortante pensar que um dos intelectuais dos séculos XX e XXI, um dos nomes mais influentes e respeitados do nosso tempo – um dos gurus de hoje! –, é, precisamente, um linguista. A página do MIT dá como certo que Chomsky é, com Freud, Hegel, Marx, Lenine, Shakespeare, Aristóteles, a Bíblia, Platão e Cícero, um dos nomes mais citados de sempre. É caso para dizermos: um linguista em boa companhia e a fazer-nos boa companhia!

 

 

“It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; Inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.”

(Extracted from: Charles Darwin, “On Natural Selection”, Penguin Books, Great Ideas (2004))

 



MÁRIO RUIVO
In memoriam

Vulto maior da comunidade científica e da nossa intelectualidade, Mário Ruivo, deixou-nos, aos 89 anos.

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