OPINIÃO

A excelência e o financiamento das actividades de investigação nos Laboratórios do Estado

(texto para o português comum ao lado de quem estas coisas passam)

O contra-senso das excelências, ou a morte lenta dos LE.

Escrevi o título num impulso. Sei o que quero dizer, sei a quem quero dizer, e sei que não serei ouvido. Mas para quê escrever, então? E logo sobre a excelência que às vezes me arrepia, que tantas vezes nos definha, mas que todos veneram, e quase justamente, diga-se. Quer saber? Quero escrever porque me apetece. Se quiser, leia. Se não quiser, não leia. Mas vou escrever na mesma.

 

Saiba que falo dos LE (que são os Laboratórios do Estado), aquelas entidades que um dia nasceram para ajudar o estado (melhor dizendo, o governo) nas coisas que o estado (o governo) acha que sim (quando acha). O problema é que faz tempo que o governo não acha, e o pior é que nem sabe porquê. E o problema até nem seria grave se nós não fossemos, ou o país não fosse. Mas somos, e sentimos, e pensamos do alto da nossa douta condição de doutores. Ossos (tiques?) do ofício que aprendemos e que dolorosamente exercemos quando pensamos no país que é nosso e que não sabe de nós, se calhar porque é governado por quem anda distraído, e porque nós (reconheça-se) nos centrámos em nós (por prazer, ou sobrevivência, ou outra coisa qualquer, às tantas menos elevada quem sabe).

Mas nós somos (ou seríamos) importantes. Duvida? Bastaria que as pontes caíssem, que os sismos nos tremessem, que as aves nos engripassem, que as vacas nos enlouquecessem, que as radiações nos queimassem, que os peixes se afogassem, que o ar nos sufocasse, que as batatas e as couves apodrecessem, que os cavalos não cavalgassem, que as praias desaparecessem, as barragens derrocassem, … Quer que eu continue? Eu continuo, (um bocadinho apenas), que o governo (o nosso) não fosse.

Mas afinal o que é que isto tem a ver com as excelências? Vá lá eu explico.

Começo por lhe dizer que seguramente não sabia que não nos é dado dinheiro para zelarmos para que as pontes não caiam e os sismos não destruam, para que as aves não nos constipem e as vacas não nos enlouqueçam, para que as radiações nos respeitem e nos ajudem, para que os peixes nos sirvam, assim como as batatas e as couves e o vinho, (e tantas outras coisas). Sabia disso? Aposto que não sabia.

 

Sabe como conseguimos dinheiro para que aquelas coisas todas não nos aconteçam?

Eu digo-lhe. Submetendo projectos para financiamento, em paralelo com aqueles desesperados por saber o que faz um átomo de alumínio no meio de um cristal de silício, ou aqueles que entram em êxtase quando esbarram com uma partícula (pedaço de energia) que vive 0,000000000000001 do segundo (então se ninguém a suspeitava), ou aqueles que inventam revestimentos de extrema utilidade para motores de avião, ou que procuram formas limpas de se ser nuclear.

E não me interprete mal – todas essas coisas são muito importantes ou serão, especialmente para uma qualquer empresa provavelmente comunitária ou americana dentro de algum tempo, e por via disso para todos nós.

Não, o problema não é esse, até porque nós (os tais dos LE) também nos encantamos com “a bola colorida” de que o “sonho” do poeta fala, e sonhamos ou nos perdemos na procura de coisas novas no desejo de que um dia sejam úteis.

Não. O problema é a excelência (as excelências).

 

É que os senhores que decidem o financiamento dos tais projectos, olham para a excelência da ideia, para a excelência da forma de a concretizar, e para a excelência da equipa que se propõe realizá-la. E aqui é que tudo falha, porque aqueles que protegem as nossas pontes, as nossas batatas, os nossos peixes, as nossas radioterapias e raios-X, não têm o tempo suficiente para atingir a excelência dos que não têm essas responsabilidades (supostamente nacionais). E, por isso, e porque o dinheiro não chega para todos, os que trabalham em prol de todos ficam sem dinheiro para o fazer, porque o estado (o governo) não se preocupa com isso.

Diz quem manda: que mal vem ao mundo (o nosso mundo)?

Nada, digo eu. Pelo menos enquanto por cá as pontes não caírem, as radiações não queimarem, os peixes não se afogarem, o mar não transbordar, as barragens não ruírem, as aves não se constiparem, as vacas não enlouquecerem, etc., etc., etc.

Mas se acham mesmo que não vem mesmo mal ao mundo, porque não acabam já com os LE? É que, por este andar, eles vão acabar na mesma e sempre se poupavam uns euros.


Agora que desabafei, dou comigo a magicar o que será que é necessário para que quem manda perceba que a excelência nos LE só faz sentido se referida ao cumprimento de um objectivo (que até pode ser redondo). Por favor lembrem-se de que um excelente economista será muito provavelmente um lamentável futebolista, ou que um conjunto de excelentes (doutas mesmo) cabeças podem rechear uma instituição inútil, completamente inútil.

Pois é, quem me dera que quem mandasse exercesse o dever de saber o que é útil, e tivesse a vontade de cortar o inútil, e a sabedoria de dar os meios e de motivar os tais doutos para um desempenho excelente no cumprimento do que é útil. Quem sabe assim, por cá, as pontes nunca caíssem, as radiações nunca queimassem, os peixes nunca se afogassem, as barragens nunca ruíssem, as aves nunca nos constipassem, as vacas nunca …

 

António Nazareth Falcão, Março 2011

ver também sobre o tema a secção  "Laboratórios do Estado"

 

Devolver a independência à ciência e aos seus actores

Marie Françoise Courel

O combate não terminou

 O 6 de Maio[1] ter-nos-á reservado algumas surpresas. As primeiras declarações do novo governo animaram-nos, mas inquietou-nos assistir ao regresso a lugares de decisão daqueles que foram os promotores ou inspiradores das leis mais nefastas que atingiram a investigação e a Universidade [2].O nosso sistema universitário que foi um dos melhores do mundo, está à beira de se desmoronar.

 De Gaulle declarava em 1959: “Quando olhamos no seu conjunto esta combinação da investigação fundamental e dos que a ela se dedicam, da investigação aplicada e dos que a fazem, do Ensino Superior e dos que nele participam, enfim, de tudo o que é na prática conseguido a partir dela, reconhece-se uma harmonia[3].

Hoje é um conjunto de ruinas, Trata-se de um problema de fundo. As reformas, de há dez anos a esta parte, foram animadas por uma vontade de divisão. Opuseram as universidades aos organismos de investigação, obrigando-as a uma concorrência esterilizadora. Os governos, ao mesmo tempo que proclamavam a vontade de dar às universidades liberdade e responsabilidade, consagravam a sujeição da investigação e da Universidade aos interesses do capital. Apoiados no quadro legal estabelecido em 1945, os colegas puderam fazer reconhecer, através das lutas conduzidas, o respeito pelo princípio por que se rege a nossa profissão, seja qual for o ramo disciplinar: os nossos trabalhos como as nossas decisões são validados após um exame colectivo, contraditório, anónimo, transparente e independente de quaisquer considerações políticas. É isto que dá sentido à criação dos dois parlamentos nacionais da investigação e do ensino superior, o Comité Nacional da Investigação Científica (CoNRS) e o Conselho Nacional das Universidades (CNU), que validavam o recrutamento dos jovens investigadores e docentes-investigadores e acompanhavam o progresso da sua carreira.