Antolhos científicos: Aprender com as falências éticas dos Físicos Nazis

Operação Epsilon, uma peça de 2013 apresentada no Boston’s Central Square Theater, baseada em conversas entre os principais cientistas nucleares da Alemanha, sob vigilância dos Aliados numa propriedade em Inglaterra. Créditos: A. R. Sinclair Photography.

Por Talia Weiss, 3 de Julho de 2019

Os cientistas e engenheiros que hoje contribuem para os programas de modernização nuclear, ou que se dedicam a outras pesquisas ligadas à defesa, podem sentir que têm pouco em comum com os físicos que trabalhavam para o governo alemão durante a Segunda Guerra Mundial. O mesmo poderá ser dito de cientistas que hoje se dedicam ao desenvolvimento de certas tecnologias emergentes, como a inteligência artificial ou novas técnicas de engenharia genética, muito prometedoras, mas que podem também ser utilizadas para o mal. E a verdade é que aos investigadores que trabalham em tecnologias militares de ponta se colocam as mesmas questões que os físicos nucleares enfrentavam no Terceiro Reich: Como cientistas, como poderemos evitar tomar, ou tropeçar, em decisões que causarão mais danos do que benefícios? E quando é nossa a responsabilidade de questionar, contestar ou retirarmo-nos de um projecto de investigação?

As pressões que levam os cientistas a não dar atenção a essas questões são, compreensivelmente, mais fortes para aqueles que estão em início de carreira, e podem achar que não têm o estatuto (ou alternativas de emprego) que lhes permita rejeitar oportunidades interessantes de pesquisa. Como jovem cientista que procura estar consciente do seu impacto futuro, tenho um interesse pessoal nesta questão.

O “Clube do Urânio” da Alemanha nazi. A história dos físicos alemães do tempo da Segunda Guerra Mundial oferece-nos um exemplo forte de como cientistas de talento podem vir a trabalhar para um sistema imoral e contribuir para o seu avanço. Muitos dos físicos de primeira linha da Alemanha opuseram-se às políticas do regime nazi. Werner Heisenberg, um dos principais arquitectos da mecânica quântica, acreditava que a vitória de Hitler seria uma calamidade, e tanto Carl von Weizsäcker como Karl Wirtz (entre outros) viam a posse da arma atómica pelos nazis como uma perspectiva preocupante — o que transparece de conversas com colegasDe acordo com Heisenberg, até mesmo Walther Gerlach, cientista e patriota indefectível “apercebeu-se (por volta de 1945) dos crimes dos nazis e desaprovou-os”. 

No entanto, estes cientistas atómicos trabalharam activamente para o governo. Heisenberg e Kurt Diebner lideraram, cada um deles, uma equipa de físicos num esforço de guerra para tirar partido da energia produzida pela cisão nuclear — um processo que o seu colega Otto Hahn havia descoberto em 1938. Quase todos os principais físicos alemães trabalharam para esse programa secreto nazi, conhecido como o “Clube  do Urânio.”

Os objectivos exactos do programa nuclear eram obscuros. A possibilidade de que o Clube de Urânio pudesse vir a construir uma bomba atómica esteve certamente sobre a mesa e era reconhecido pelos seus membros desde o início. Em 1939, o físico Paul Harteck alertou o Ministério de Guerra nazi para as aplicações militares da cisão nuclear. Em uma conferência dias depois de Hitler ter invadido a Polónia, outros cientistas do Clube do Urânio dirigiram à comunidade dos físicos um pedido premente para trabalhar no desenvolvimento de uma bomba (de acordo com Harteck e Erich Bagge).

Alguns dos investigadores do programa trabalharam especificamente em tecnologias de enriquecimento de urânio que poderiam ter produzido combustível para uma arma. Na prática, no entanto, o Clube do Urânio dedicou-se sobretudo ao projecto de engenharia de um reactor nuclear, porque o objectivo de montar uma bomba foi considerado impraticável no curto prazo. O projecto fez progressos consideráveis para chegar ao seu “motor” (ou reactor), mas não obteve sucesso.

Os objectivos exactos do programa nuclear eram obscuros. A possibilidade de que o Clube de Urânio pudesse vir a construir uma bomba atómica esteve certamente sobre a mesa e era reconhecido pelos seus membros desde o início. Em 1939, o físico Paul Harteck alertou o Ministério de Guerra nazi para as aplicações militares da cisão nuclear. Em uma conferência dias depois de Hitler ter invadido a Polónia, outros cientistas do Clube do Urânio dirigiram à comunidade dos físicos um pedido premente para trabalhar no desenvolvimento de uma bomba (de acordo com Harteck e Erich Bagge).

Alguns dos investigadores do programa trabalharam especificamente em tecnologias de enriquecimento de urânio que poderiam ter produzido combustível para uma arma. Na prática, no entanto, o Clube do Urânio dedicou-se sobretudo ao projecto de engenharia de um reactor nuclear, porque o objectivo de montar uma bomba foi considerado impraticável no curto prazo. O projecto fez progressos consideráveis para chegar ao seu “motor” (ou reactor), mas não obteve sucesso.

Abril de 1945, soldados aliados desmantelam a pilha nuclear experimental em Haigerloch, onde cientistas alemães tentaram construir um reactor. Crédito: Mickey Thurgood / Exército dos EUA.

A construção do reactor: um empreendimento político. Apesar dos escrúpulos morais que o regime nazi levantava, os físicos alemães, em larga medida, não conseguiram recusar-se a trabalhar para o governo — Hahn e Max von Laue foram excepções notáveis. (Hahn estava marginalmente envolvido no projecto, sendo o seu grau de envolvimento objecto de debate entre os historiadores.) Mas uma vez que os investigadores estavam concentrados na construção de um reactor, não de uma bomba, será aceitável desculpar as suas acções como parte de um esforço puramente científico?

Uma tal justificação tem algumas falhas graves. Por um lado, trabalhar no seio do sistema nazi era automaticamente um acto político, porque representava um apoio ao regime. Além disso, os físicos do Clube do Urânio estavam cientes de que o esforço de guerra nazi poderia lucrar com a energia fornecida por um reactor secreto. Gerlach disse aos colegas que havia assegurado às autoridades nazis: “Na minha opinião, um político que disponha de um tal dispositivo pode conseguir o que quiser”.

Os cientistas também entenderam que o reactor produziria resíduos que poderiam ser reprocessados para obter plutónio — na estimativa de Diebner, em quantidade suficiente para produzir uma bomba nuclear dentro de dois anos. Heisenberg e Harteck já tinham trabalhado em projectos de bombas. Se os nazis tivessem triunfado na Segunda Guerra Mundial, provavelmente teriam tempo para construir uma arma nuclear — usando o conhecimento e os materiais produzidos pelo Clube de Urânio — a usar contra inimigos de Hitler num conflito posterior. O programa nuclear alemão era, portanto, não apenas um empreendimento científico, mas também político.

O que levou esses cientistas atómicos a trabalhar na energia nuclear para um regime maldito? Os investigadores pareciam quase exclusivamente concentrados no seu objectivo científico — fazer avançar a física alemã. Trabalhar para os nazis deu-lhes uma oportunidade para o fazer. Esse zelo técnico e inovador parece tê-los cegado a considerações éticas.

De facto, quando estava a tornar-se claro que a Alemanha nazi perderia a Segunda Guerra Mundial, os pesquisadores do Clube do Urânio não mostravam sinais de resignação, mas, ao contrário, trabalharam ainda mais. Isso indica até que ponto esses cientistas agiram como se a sua única responsabilidade fosse a de promover a física alemã.

Uma conversa reveladora. Para entender as mentalidades de dez principais físicos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, os historiadores podem observar as suas reacções à notícia de que os Estados Unidos haviam aperfeiçoado um engenho nuclear e o lançaram sobre Hiroshima em 6 de Agosto de 1945. (Nessa altura, as forças aliadas tinham capturado oito cientistas alemães que trabalharam no projecto nuclear nazi, bem como Hahn e von Laue, e mantinham-nos em detenção numa mansão inglesa chamada Farm Hall, onde as suas conversas eram secretamente gravadas.) Naquela noite de Agosto, chocados com o bombardeamento atómico, os físicos reflectiam sobre suas próprias decisões.

Gerlach perguntou aos seus colegas: “Para que fim estávamos a trabalhar?”

Hahn respondeu: “Para construir um dispositivo, para produzir elementos, calcular o peso dos átomos, ter um espectrógrafo de massa e elementos radioactivos que substituíssem o rádio”.

Essa troca de ideias é impressionante por duas razões: primeiro, a ênfase de Hahn em objectivos técnicos — ele não faz nenhuma menção ao Partido Nazi, ao público alemão ou à guerra — mostra-se estreitamente focado no progresso científico. Em segundo lugar, a pergunta de Gerlach exemplifica como, na Farm Hall, a questão do que era certo e do que era errado parecia emergir pela primeira vez — como se os físicos nunca a tivessem abordado durante anos de trabalho em conjunto.

A propriedade Farm Hall em Inglaterra, onde físicos alemães de alto nível capturados durante a Segunda Guerra Mundial discutiram as implicações morais do bombardeio de Hiroshima. Crédito: Arquivos Nacionais

As palavras dos prisioneiros do Clube do Urânio no Farm Hall revelam o intenso desejo de sucesso científico. Quando o grupo ouve na rádio um anúncio oficial descrevendo o bombardeamento de Hiroshima, reage com frenesim, todos a falar ao mesmo tempo, para entender que escolhas técnicas permitiram que os Aliados tivessem sucesso onde eles tinham falhado. Heisenberg, Diebner, Harteck, Wirtz, Weizsäcker e outros, colocaram-se um rosário de perguntas: teriam os americanos usado urânio ou plutónio como combustível? Se fosse o caso do primeiro teriam enriquecido urânio com centrífugas? Usando difusão gasosa? Espectrógrafos de massa? Usando processos fotoquímicos? Quanto material foi necessário para desencadear uma reacção em cadeia explosiva? Horas mais tarde, a meio da noite, Gerlach ainda reflectia: “Realmente gostaria de saber como é que eles o fizeram.”

Os físicos alemães fixaram-se na ciência por detrás do avanço técnico nuclear porque temiam que a sua própria falta de criatividade pudesse explicar por que razão os americanos tinham avançado muito para além deles. Ao produzir urânio utilizável em armas, Harteck ponderou: “Se eles o fizeram usando espectrógrafos de massa, não podemos ser culpados. Nós não poderíamos fazer isso. Mas se eles fizeram isso usando um qualquer estratagema, isso incomodar-me-ia.” Heisenberg tinha uma preocupação semelhante. Observou: “No caso das invenções, as surpresas só podem realmente acontecer com pessoas que não tivessem tido nada a ver com o tema. É um pouco estranho [que nos pudesse ter escapado alguma coisa] depois de termos estado a trabalhar no assunto durante cinco anos.”

Confusão moral. Na Farm Hall, a primeira reacção dos físicos à reportagem de Hiroshima foi uma discussão científica, mas a sua segunda resposta foi política. Os cientistas atómicos alemães pareciam perceber, talvez pela primeira vez, que uma grande confusão moral envolvia o seu trabalho.

À medida que a noite avançava, mais e mais perguntas sobre justiça e ética ocorreram aos físicos: as armas atómicas são inerentemente desumanas e nunca deveriam ser usadas? Se os alemães tivessem adquirido tais armas, qual seria o destino do mundo? O que significa o verdadeiro patriotismo na Alemanha nazi — trabalhar para o sucesso do regime ou para a sua derrota? Os cientistas exprimiram surpresa e perplexidade com as opiniões de colegas seus, e as suas próprias opiniões evoluíram por vezes de um momento para o outro. As opiniões dispersas e volúveis registadas nas transcrições da Farm Hall mostram que, nos cinco anos do programa nuclear nazi, os físicos alemães provavelmente não conseguiram dar uma resposta satisfatória a essas questões críticas.

Ao fugirem a pensar para além do projecto que tinham à sua frente, esses investigadores agiram como se a lealdade a uma disciplina científica tornasse irrelevante a sua lealdade aos nazis. Se, em 1939, se tivessem preocupado seriamente com as questões que acabaram por debater em Farm Hall, esses físicos poderiam ter tomado decisões diferentes. Talvez muitos se tivessem afastado completamente do projecto nuclear, como fez Hahn, ou pronunciado abertamente contra ele, como fez von Laue.

Enfrentando as consequências da investigação hoje. Hoje, olhar para o Clube do Urânio serve para nos lembrar a nós cientistas de como é fácil concentrar-se em questões técnicas e evitar considerar aspectos morais. Isto é especialmente verdadeiro quando as questões morais são desconcertantes, quando qualquer impacto negativo parece distante, e quando a ciência é apaixonante.

Tradicionalmente espera-se dos cientistas um papel limitado: realizar trabalho de investigação e desenvolvimento, dar aconselhamento sobre problemas técnicos e ignorar a política.

Quase todos os físicos nucleares alemães optaram por assumir esse papel. Mas, como a história nos lembra, os investigadores não podem divorciar das implicações políticas de seu trabalho.

O caso dos físicos alemães revela até onde a tendência para dar prioridade à ciência nos pode levar. Sugere que esse tipo de cumplicidade pode acontecer novamente — e sem dúvida acontece, em alguma medida, constantemente. Por exemplo, engenheiros que desenvolvem sistemas de rastreio ou de reconhecimento facial podem estar a criar ferramentas que regimes repressivos venham a adquirir com a intenção de espiar e suprimir dissidentes. Consequentemente, esses investigadores têm a obrigação certa de ponderar o seu papel e o impacto do seu trabalho.

O meu recente estudo pessoal das transcrições de Farm Hall levou-me a considerar essa questão ao ponderar as minhas próprias opções de carreira. Ao ler anúncios de emprego para jovens físicos, notei que em muitos casos se poderiam levantar questões éticas (embora haja que fazer um debate sobre se sim ou não se deverão rejeitar tais trabalhos). Estão nesse caso ofertas de emprego que incluam, por exemplo, trabalhar como engenheiro desenvolvendo tecnologia para drones militares ou trabalhar na manutenção e desenvolvimento do arsenal nuclear dos EUA.

Alguns cientistas, especialmente aqueles cujo peso profissional é limitado, podem objectar: “Se eu não aceitar esse trabalho, alguém o fará — então a minha decisão não tem nenhum impacto moral real”. A meu ver, uma reflexão séria sobre o contexto social de um posto de trabalho como investigador pode levar um ou uma cientista a aceitar o lugar — mas chamando a si a responsabilidade de ajudar a restringir inovações impensadas no trabalho, levantando questões sobre se cada característica técnica que possa ser acrescentada deve, de facto, ser implementada. (O mesmo é válido para saber se certas linhas de investigação devem ser prosseguidas e certos resultados publicados.) Acresce que, em casos em que para um grupo de investigadores a melhor atitude possa ser a de recusar liminarmente um domínio de investigação ou um empregador, uma decisão pessoal de não-aceitação de uma posição moralmente duvidosa pode levar amigos e colegas a reavaliar a natureza das suas próprias responsabilidades. Escolhas individuais podem propagar-se como uma onda. Uma pergunta que cada um de nós cientistas deve colocar-se é: “Quero contribuir para uma cultura de complacência ou de questionamento?”

Olhando para o futuro, os cientistas não deveriam ter que esperar por algum cataclismo de origem humana (mesmo um muito menos devastador do que os bombardeamentos atómicos de 1945) para interiorizar e confrontar-se com as implicações morais do nosso trabalho. O desafio para cada um de nós, ao avançar, é perguntarmo-nos e perguntar uns aos outros: “Para que fim estamos a trabalhar?” desejavelmente muito mais cedo no decurso de um processo de pesquisa do que o fez o alemão Walther Gerlach.

Palavras-chave: Alemanha nazi, Segunda Guerra Mundial

Tópicos: Risco Nuclear, Armas Nucleares, Vozes do Amanhã

 

O presente artigo foi originalmente publicado no Bulletin of the Atomic Scientists, em 3 de Julho de 2019

(https://thebulletin.org/2019/07/scientific-blinders/#sf_form_salesforce_w2l_lead_1)

A OTC agradece ao Bulletin of the Atomic Scientists a amável autorização para esta republicação em português (tradução OTC)

 

 

 

 

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