{"id":12424,"date":"2025-11-24T11:13:27","date_gmt":"2025-11-24T11:13:27","guid":{"rendered":"https:\/\/otc.pt\/wp\/?p=12424"},"modified":"2025-11-24T11:15:19","modified_gmt":"2025-11-24T11:15:19","slug":"dia-nacional-da-cultura-cientifica-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/otc.pt\/wp\/2025\/11\/24\/dia-nacional-da-cultura-cientifica-2025\/","title":{"rendered":"Dia Nacional da Cultura Cient\u00edfica 2025"},"content":{"rendered":"\n\n\n<p><!--more--><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">\u201c<em>Em homenagem a R\u00f3mulo de Carvalho, s\u00edmbolo vivo de cultura cient\u00edfica na cultura portuguesa, proponho a data de hoje como Dia da Cultura Cient\u00edfica, momento privilegiado, todos os anos, de balan\u00e7o, de reflex\u00e3o e de ac\u00e7\u00e3o sobre o papel do conhecimento no nosso futuro.\u201d<br \/><\/em>Jos\u00e9 Mariano Gago, em artigo no jornal \u201cP\u00fablico\u201d, 24 de Novembro de 1996<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Nada mais apropriado que chamar hoje ao balan\u00e7o e \u00e0 reflex\u00e3o sobre o estado da ci\u00eancia em Portugal, as dificuldades ressentidas no dia-a-dia do exerc\u00edcio da profiss\u00e3o que escolheram, por uma larga maioria dos trabalhadores cient\u00edficos, sobretudo os mais jovens, mas tamb\u00e9m recordar que h\u00e1 sucessos que v\u00eam compensar o seu esfor\u00e7o e que s\u00e3o significativos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A prop\u00f3sito desta data reproduz-se abaixo o artigo de Frederico Carvalho publicado na Gazeta de F\u00edsica em Abril de 2011.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><span style=\"background-color: #ffffff; color: #0000ff;\"><strong><span style=\"font-size: 18pt;\">A interven\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica de R\u00f3mulo de<\/span><br \/><span style=\"font-size: 18pt;\">Carvalho no ensino da F\u00edsica e na<\/span><br \/><span style=\"font-size: 18pt;\">divulga\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico<\/span><br \/><\/strong><\/span><span style=\"font-size: 14pt;\">Frederico Carvalho<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Como \u00e9 geralmente conhecido nos meios que se interessam pelas quest\u00f5es do ensino em Portugal, R\u00f3mulo de Carvalho, foi, durante mais de 40 anos, professor do Ensino Liceal. De seu nome completo, R\u00f3mulo Vasco da Gama Carvalho, nasceu na freguesia da S\u00e9, em Lisboa, a 24 de Novembro de 1906, Ensinou em Lisboa, no Liceu de Lu\u00eds de Cam\u00f5es, de onde, depois de uma curta passagem pelo Liceu de Pedro Nunes, partiu para Coimbra e a\u00ed prosseguiu o seu magist\u00e9rio no Liceu ent\u00e3o chamado de D. Jo\u00e3o III. Por fim, no ano de 1957 regressou ao Pedro Nunes onde permaneceu at\u00e9 se aposentar em 1974. Faleceu, em Lisboa, a 19 de Fevereiro de 1997.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">R\u00f3mulo de Carvalho distinguiu-se por deixar uma obra polifacetada muito vasta, em correspond\u00eancia com a universalidade dos seus interesses de toda a vida. A compreens\u00e3o do mundo natural; o interesse pelo homem-indiv\u00edduo, parte da natureza, mas tamb\u00e9m pelos seus comportamentos sociais. R\u00f3mulo tinha oficialmente um profiss\u00e3o \u2014 a de professor do ensino secund\u00e1rio \u2014 resultado de uma escolha consciente, ao mesmo tempo racional e sentimental. Era, assim, no contexto burocr\u00e1tico da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o que ent\u00e3o se designava por \u201c<em>servidor do Estado<\/em>\u201d. Ambicionava ser, no entanto, e sobretudo, \u201c<em>servidor do pr\u00f3ximo<\/em>\u201d, e o seu pr\u00f3ximo mais pr\u00f3ximo, eram aqueles jovens adolescentes que despertavam para o mundo num passo da vida em que \u201c<em>era altura de se lhes sorrir e de se lhes transmitir as respostas que o adulto acumulou resumindo em si a experi\u00eancia secular da humanidade<\/em>\u201d. E acrescentava: \u201c<em>\u00c9 uma comunica\u00e7\u00e3o de amor que tem de antem\u00e3o garantida a sua aceita\u00e7\u00e3o, expressa nos olhos \u00e1vidos de quem a recebe.<\/em>\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Deve dizer-se, com verdade, que R\u00f3mulo de Carvalho foi em primeiro lugar um educador e um divulgador de ci\u00eancia. N\u00e3o apenas divulgador de conhecimentos, de factos ou curiosidades cient\u00edficas (sem qualquer menosprezo por quem o faz) mas principalmente, estimulador da aprendizagem e da pr\u00e1tica do m\u00e9todo cient\u00edfico ou, se quisermos, do (\u201c<em>verdadeiro<\/em>\u201d) m\u00e9todo de estudar. \u201c<em>N\u00e3o devemos querer que a Natureza se componha segundo as nossas ideias; mas devemos acomodar as nossas ideias aos efeitos que observamos na Natureza. (\u2026) O fim do f\u00edsico \u00e9 descobrir a verdadeira causa dos efeitos naturais; e, para conseguir este fim, n\u00e3o deve fazer caso do que dizem os outros, sim do que mostra a experi\u00eancia<\/em>.\u201d (Lu\u00eds Ant\u00f3nio Verney, em <em>Verdadeiro M\u00e9todo de Estudar<\/em>, 1746). N\u00e3o \u00e9 por acaso que esta cita\u00e7\u00e3o, se acha no segundo dos <em>Cadernos de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica<\/em> de R\u00f3mulo de Carvalho, publicado vai para trinta anos. \u201c<em>\u00c9 preciso evitar, em ci\u00eancia, o jogo de palavras que podem dar a impress\u00e3o de que se adiantou ou resolveu alguma coisa quando afinal tudo ficou na mesma<\/em>\u201d, diz em outro desses seus Cadernos. \u201c<em>Cadernos<\/em>\u201d, obra j\u00e1 tardia do Mestre no que \u00e0 vertente do educador respeita, mas que s\u00e3o, em mosso entendimento, um dos expoentes da sua interven\u00e7\u00e3o formativa dirigida \u00e0 juventude, \u201c<em>destinados especialmente aos jovens estudantes dos 9 aos 15 anos<\/em>\u201d, nas suas pr\u00f3prias palavras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">N\u00e3o foi R\u00f3mulo de Carvalho um cientista na acep\u00e7\u00e3o comum deste termo, mas foi sem sombra de d\u00favida um \u201c<em>trabalhador cient\u00edfico<\/em>\u201d, designa\u00e7\u00e3o que encontra correspond\u00eancia na de \u201c<em>research worker<\/em>\u201d, na l\u00edngua inglesa, ou \u201c<em>travailleur scientifique<\/em>\u201d, em franc\u00eas. O seu trabalho em rela\u00e7\u00e3o directa com a sua actividade profissional situa-se no \u00e2mbito da pedagogia, e da did\u00e1ctica, no seio daquela.<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Diz-nos o Professor: \u201c<em>No \u00e2mbito da minha actividade docente dedicava-me a dois vastos ramos da Ci\u00eancia: a F\u00edsica e a Qu\u00edmica. Embora a ambos desse igual aten\u00e7\u00e3o sentia, no in\u00edcio da minha carreira, desde os bancos da Universidade, um gosto particular em explorar a hist\u00f3ria da Qu\u00edmica, em descobrir os pormenores dos seus progressos ao longo dos s\u00e9culos<\/em>.\u201d E acrescenta: \u201c<em>Pensei mesmo em redigir uma extensa obra em que esses progressos surgissem encadeados, desde os prim\u00f3rdios atrav\u00e9s da Alquimia at\u00e9 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de Lavoisier e seus contempor\u00e2neos.<\/em>\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A este projecto ambicioso ficaram a dever-se as suas primeiras obras de investiga\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, ambas publicadas na 1\u00aa Sec\u00e7\u00e3o da Biblioteca Cosmos \u2014 Ci\u00eancias e T\u00e9cnicas\u2014 Filosofia e Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia: \u201c<em>A Ci\u00eancia Herm\u00e9tica<\/em>\u201d (1947) e \u201c<em>O Embalsamamento Eg\u00edpcio<\/em>\u201d (1948). Filosofia \u00e9 certamente designa\u00e7\u00e3o apropriada para o trecho que respigo de \u201c<em>A Ci\u00eancia Herm\u00e9tica<\/em>\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>: \u201c<em>Momento a momento se muda o aspecto das coisas. Sem sentirmos, tudo quanto era transforma-se no que \u00e9. Em cada instante est\u00e1 presente o passado e o futuro de todas as coisas.<\/em>\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O presente \u00e9 constru\u00eddo sobre o passado. Na Ci\u00eancia como na vida. \u201c (\u2026) <em>em todos os tempos houve homens que observaram a Natureza e que, pouco a pouco, deram resposta \u00e0s suas interroga\u00e7\u00f5es. O que ent\u00e3o foram descobrindo comunicaram aos seus filhos, e os filhos aos netos, e os netos aos bisnetos, ou por boca ou por escrito, e assim pelos tempos fora. Cada gera\u00e7\u00e3o de homens que aparece no Mundo tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o tudo quanto os homens antes deles pensaram e descobriram. Podem at\u00e9 os novos repensar o que os seus antepassados j\u00e1 tinham pensado e acharem que estavam erradas as respostas que eles deram. Ent\u00e3o procurar\u00e3o dar respostas melhores, e assim sucessivamente<\/em>\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-12420 size-mh-magazine-content\" style=\"color: initial;\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-1-678x381.jpg\" alt=\"\" width=\"678\" height=\"381\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">Capa do \u201cCaderno de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica\u201d n.\u00ba 2, \u201cA experi\u00eancia cient\u00edfica\u201d (1979).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Ao longo da vida, R\u00f3mulo de Carvalho elaborou numerosos comp\u00eandios e outras obras destinadas ao ensino sempre com o rigor que o caracterizava, mas tamb\u00e9m com o carinho que se adivinha ao l\u00ea-los. Nota-se nesse trabalho uma inclina\u00e7\u00e3o para as mat\u00e9rias da Qu\u00edmica mas a F\u00edsica n\u00e3o est\u00e1 ausente do seu pensamento e da sua obra, longe disso. Os \u201c<em>Cadernos<\/em>\u201d, que j\u00e1 cit\u00e1mos mais de uma vez, \u201c(\u2026) <em>estes bel\u00edssimos cadernos, de que gostei muit<\/em>o (\u2026)\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a> s\u00e3o um exemplo disso mesmo. \u201c<em>De todas as ci\u00eancias interessa-nos falar de uma que se chama F\u00edsica, \u00e0 qual s\u00e3o dedicados os cadernos desta colec\u00e7\u00e3o<\/em>.\u201d Ao referir-se \u00e0 \u201c<em>F\u00edsica<\/em>\u201d dos nossos dias, enumera um conjunto vasto de ci\u00eancias, da Zoologia \u00e0 Astronomia. Para dizer \u201c<em>que todas estas ci\u00eancias precisam de informa\u00e7\u00f5es que s\u00f3 os f\u00edsicos lhes podem dar.<\/em>\u201d O Caderno com o n\u00famero 6 \u00e9 dedicado \u00e0 Energia, prevenindo o autor que \u201c<em>deve ser lido sem pressas<\/em>\u201d porque do bom entendimento dos conceitos expostos \u201c<em>depende a compreens\u00e3o de todas as ci\u00eancias<\/em>.\u201d E tem o cuidado de alertar, logo a abrir o Caderno, para o seguinte: \u201c<em>Os conceitos cient\u00edficos nas suas express\u00f5es rigorosas, s\u00f3 podem ser adquiridos depois de certo amadurecimento do esp\u00edrito de quem os estuda. Os que se iniciam na Ci\u00eancia n\u00e3o devem ser for\u00e7ados nas escolas, \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de frases cujo significado concreto n\u00e3o podem ainda alcan\u00e7ar e, segundo o que nos parece, o mais que se dever\u00e1 procurar conseguir desses principiantes, enquanto principiantes, \u00e9 que saibam enquadrar os termos cient\u00edficos em express\u00f5es orais ou escritas, em condi\u00e7\u00f5es de n\u00e3o ofenderem a Ci\u00eancia.<\/em>\u201d<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Julgo oportuno trazer aqui uma refer\u00eancia ao in\u00edcio do relacionamento de R\u00f3mulo de Carvalho com a <em>Gazeta de F\u00edsica,<\/em> citando as suas pr\u00f3prias palavras<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a> : \u201c<em>Em 1946 o Departamento de F\u00edsica da Faculdade de Ci\u00eancias de Lisboa convidou-me para fazer parte da direc\u00e7\u00e3o de uma revista que se propunha publicar, o que realmente representava uma distin\u00e7\u00e3o que agradeci e aceitei<\/em>.\u201d<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Para tanto ter\u00e1 contribu\u00eddo certamente, conforme adiante refere, o facto de \u201c<em>a sec\u00e7\u00e3o de F\u00edsica de ent\u00e3o, da Faculdade, (se distinguir) pelo seu labor cient\u00edfico, e nos seus laborat\u00f3rios trabalharem pessoas de qualidade cujo expoente m\u00e1ximo foi Manuel Valadares<\/em>\u201d pouco mais tarde demitido do seu cargo docente por \u201c<em>manifestar ideias opostas \u00e0s do Governo ditatorial de Salazar<\/em>\u201d. R\u00f3mulo de Carvalho conservou-se na direc\u00e7\u00e3o da Gazeta durante 28 anos, desligando-se dela por vontade pr\u00f3pria em 1974. \u201c<em>Nela publiquei<\/em> \u2014 informa \u2014 <em>diversos trabalhos apropriados \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">O primeiro texto cient\u00edfico de R\u00f3mulo de Carvalho que nos chegou \u00e0s m\u00e3os data da sua passagem como estudante de licenciatura na Faculdade de Ci\u00eancias da Universidade do Porto, onde se formou em \u201cCi\u00eancias F\u00edsico-Qu\u00edmicas\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>. Trata-se de um manuscrito de 30 p\u00e1ginas, datado de Maio de 1930, com o t\u00edtulo \u201c<em>Da interpreta\u00e7\u00e3o dos valores obtidos pela experi\u00eancia na determina\u00e7\u00e3o dos calores espec\u00edficos ao longo da escala das temperaturas<\/em>\u201d. Como Moreira de Ara\u00fajo apropriadamente refere numa breve introdu\u00e7\u00e3o ao trabalho em quest\u00e3o, n\u00e3o se trata de \u201c<em>uma \u201c<\/em>publica\u00e7\u00e3o<em>\u201d; apenas de um estudo de mat\u00e9ria n\u00e3o versada nas aulas de \u201cAc\u00fastica, \u00d3ptica e Calor<\/em>\u201d, recorrendo a livros certamente indicados pelo professor.\u201d Referimos este texto pois a sua natureza pela tem\u00e1tica e inten\u00e7\u00e3o o torna de algum modo excepcional sen\u00e3o \u00fanico, no contexto do esp\u00f3lio do autor. Aborda quest\u00f5es da relatividade de Einstein e da teoria dos quanta, com a clareza expositiva e eleg\u00e2ncia formal que \u00e9 uma caracter\u00edstica permanente da obra de R\u00f3mulo de Carvalho. Entretanto carece de ser lido e interpretado \u00e0 luz da \u00e9poca e das circunst\u00e2ncias em que nasceu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">S\u00e3o do mesmo per\u00edodo, mas sem liga\u00e7\u00e3o com o anterior estudo, os <em>Poemas Cristalogr\u00e1ficos<\/em>, na designa\u00e7\u00e3o feliz que se deve a Moreira de Ara\u00fajo. A\u00ed est\u00e1 R\u00f3mulo, estudante no Porto, a p\u00f4r em inesperados versos, conhecidas propriedades geom\u00e9tricas da mat\u00e9ria cristalina que assim ganha um encanto adicional:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>\u00a0<\/em><strong><em>Lei da const\u00e2ncia dos \u00e2ngulos<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>\u00a0<\/em><em>Sabemos j\u00e1 que a cristaliza\u00e7\u00e3o<br \/><\/em><em>Com certas condi\u00e7\u00f5es tem de contar,<br \/><\/em><em>Vindo sempre o cristal, depois dessa opera\u00e7\u00e3o<br \/><\/em><em>Com um formato um pouco irregular.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>\u00a0<\/em><em>Mas o destino destes bons cristais,<br \/><\/em><em>certas vezes tamb\u00e9m muito os ajuda<br \/><\/em><em>e se o aspecto se mudou demais<br \/><\/em><em>h\u00e1 neles uma coisa que n\u00e3o muda.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>\u00a0<\/em><em>S\u00e3o os valores dos \u00e2ngulos achados,<br \/><\/em><em>p\u2019ra \u00e0s faces dos cristais considerados.<br \/><\/em><em>\u00c9 daqui que deriva e tem muita import\u00e2ncia,<br \/><\/em><em><u>dos \u00e2ngulos<\/u><\/em><em> a fiel <u>lei da const\u00e2ncia<\/u>:<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>\u00a0<\/em><em><u>Para uma certa temperatura<br \/><\/u><\/em><em><u>os \u00e2ngulos entre faces semelhantes<br \/><\/u><\/em><em><u>em todos os cristais de an\u00e1loga estrutura,<br \/><\/u><\/em><em><u>t\u00eam valores concordantes<\/u><\/em><em>.<\/em><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>\u00a0Os comp\u00eandios escolares<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">R\u00f3mulo de Carvalho desenvolveu ao longo da sua vida profissional como docente do ensino liceal uma vasta e muito prof\u00edcua actividade de elabora\u00e7\u00e3o de comp\u00eandios e outros textos dirigidos \u00e0 juventude estudantil. Atrav\u00e9s dela se tornou conhecido e apreciado por v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de estudantes que disso lhe deram ali\u00e1s frequente testemunho durante e ap\u00f3s \u2014 mesmo muitos anos ap\u00f3s \u2014 a respectiva passagem pelos bancos da escola, circunst\u00e2ncia que refere com evidente alegria nas suas \u201cMem\u00f3rias\u201d.<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Alguns desses comp\u00eandios vingaram na travessia do duvidoso processo estabelecido com vista \u00e0 selec\u00e7\u00e3o do chamado \u201c<em>livro \u00fanico<\/em>\u201d que vigorou durante muitos anos no per\u00edodo do Estado Novo. Outros ficaram pelo caminho irremediavelmente reprovados por relatores de compet\u00eancia e independ\u00eancia discut\u00edveis. Semelhantes odisseias, embora em circunst\u00e2ncias, com causas e por raz\u00f5es de outras ordens, suportou tamb\u00e9m o Mestre \u00e0 volta da publica\u00e7\u00e3o de certos trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2014 outra das \u00e1reas em que se notabilizou. O caso mais not\u00e1vel ter\u00e1 sido o da publica\u00e7\u00e3o do not\u00e1vel estudo sobre o Gabinete de F\u00edsica Pombalino que viu a luz do dia quinze anos ap\u00f3s a conclus\u00e3o do manuscrito, dos quais quatro passados na tipografia! A este caso se refere nas \u201cMem\u00f3rias\u201d como \u201c<em>os caminhos tortuosos para conseguir a esperan\u00e7a de ver publicado o meu estudo sobre o Gabinete de F\u00edsica Pombalino<\/em>\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os seus comp\u00eandios escolares distinguiam-se na apresenta\u00e7\u00e3o e forma expositiva de outros com que de algum modo concorriam. Em v\u00e1rios casos obtiveram consider\u00e1vel sucesso e tiveram longa vida \u00fatil. Refira-se nomeadamente o Guia de Trabalhos Pr\u00e1ticos de Qu\u00edmica para o 3\u00ba Ciclo dos liceus, usado entre 1950 e 1974 com mais de uma dezena de edi\u00e7\u00f5es e 80 mil exemplares; o Comp\u00eandio de Qu\u00edmica para o 3\u00ba ciclo, que vigorou como livro \u00fanico entre 1951 e 1955. Um outro comp\u00eandio de grande qualidade, j\u00e1 posterior \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o que impusera o \u201d<em>livro \u00fanico<\/em>\u201d, foi \u201cCi\u00eancias da Natureza\u201d, comp\u00eandio destinado ao rec\u00e9m-criado Ciclo Preparat\u00f3rio do Ensino Secund\u00e1rio, obra em dois volumes publicados em 1968 e 1969.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A respeito desta obra inovadora no plano did\u00e1ctico e da raz\u00e3o que o decidiu a escrev\u00ea-la, aceitando, depois de uma primeira recusa, a solicita\u00e7\u00e3o nesse sentido que o editor Jo\u00e3o S\u00e1 da Costa lhe dirigira, diz o Autor nas suas \u201cMem\u00f3rias\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>:<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">\u201c(\u2026) <em>comecei a sentir interesse por experimentar um sector did\u00e1ctico com que ainda n\u00e3o tivera muito contacto<\/em>, <em>dos 10 anos de idade<\/em>,<em> e disse que sim. N\u00e3o me arrependi. Foi uma experi\u00eancia muito s\u00e9ria, muito agrad\u00e1vel e muito positiva, cheia de dificuldades que me soube bem superar.<br \/><\/em><em>Imaginei organizar um comp\u00eandio onde tudo fosse adquirido atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o e da experimenta\u00e7\u00e3o, servindo-me de um rapazinho da mesma idade daqueles a quem o livro se destinava, cuja pessoa estivesse sempre presente nas p\u00e1ginas do comp\u00eandio, observando e experimentando aquilo que pretendia comunicar. O rapazinho iria acompanhando o meu projecto e eu iria corrigindo todas as dificuldades que nele encontrasse adaptando assim toda a execu\u00e7\u00e3o proposta no texto, \u00e0 idade normal do aluno.<\/em>\u201d<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">\u201c<em>O livro exigiria<\/em>\u201d como faz notar \u201c<em>abundante documenta\u00e7\u00e3o ilustrativa, tanto desenhada como fotogr\u00e1fica.<\/em>\u201d E assim se fez.<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Iria seguir-se-lhe um segundo volume que deveria obrigatoriamente abranger outras \u00e1reas cient\u00edficas. Volto a citar:<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">\u201c<em>O gosto que tive na redac\u00e7\u00e3o e na montagem destas Ci\u00eancias da Natureza para o 1\u00ba ano do Ciclo Preparat\u00f3rio, conduziu-me \u00e0 decis\u00e3o de me ocupar tamb\u00e9m do 2\u00ba ano das mesmas Ci\u00eancias, embora a\u00ed, para mim, a situa\u00e7\u00e3o fosse mais dif\u00edcil. O programa do 1\u00ba ano incidia sobre temas de Cosmografia, F\u00edsica e Qu\u00edmica, portanto dentro de assuntos em que me sentia mais \u00e0 vontade. O 2\u00ba ano ocupava-se de no\u00e7\u00f5es de Zoologia, de Bot\u00e2nica e de Mineralogia e Geologia, assuntos de que normalmente n\u00e3o me ocupava. Entretanto n\u00e3o estava de tal modo ignorante deles que n\u00e3o me fosse permitido abalan\u00e7ar-me \u00e0 redac\u00e7\u00e3o do Comp\u00eandio.<br \/><\/em><em>Comecei a escrev\u00ea-lo em Novembro de 68 e terminei-o em Mar\u00e7o do ano seguinte. Os m\u00e9todos de trabalho foram os mesmos dos do 1\u00ba ano.<br \/><\/em><em>L\u00e1 aparece o Pedro<\/em> (o rapazinho referido acima) <em>muito s\u00e9rio e cauteloso, realizando as experi\u00eancias, e em todo o livro abundam espl\u00eandidas fotografias, parte delas obtidas na Faculdade de Ci\u00eancias com a aquiesc\u00eancia de alguns dos seus professores que me atenderam cordialmente.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Estas \u201cCi\u00eancias da Natureza\u201d tiveram assinal\u00e1vel sucesso, com particular destaque para o Comp\u00eandio destinado ao 1\u00ba ano das Ci\u00eancias da Natureza, que teve 12 edi\u00e7\u00f5es e vendeu 378 000 exemplares!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">R\u00f3mulo de Carvalho iniciara em 1949, um pouco antes da sua ida para Coimbra aquela que nos diz ter sido \u201c(\u2026) <em>uma das tarefas mais agrad\u00e1veis da <\/em>(sua)<em> vida: a da redac\u00e7\u00e3o de livros escolares.<\/em>\u201d E acrescenta: \u201c<em>Mais agrad\u00e1veis e mais compensadoras economicamente pois foi da\u00ed, pelos anos fora, que recolhi os dinheiros suficientes para viver com o desafogo que o vencimento de professor nunca me permitiria.\u201d <\/em>Com efeito R\u00f3mulo era pessoa de parcos recursos econ\u00f3micos. Oriundo de uma fam\u00edlia pequeno-burguesa \u2014 o pai e os tios eram modestos funcion\u00e1rios dos Correios e Tel\u00e9grafos \u2014 desde jovem aprendera a acomodar-se aos dif\u00edceis equil\u00edbrios de um or\u00e7amento familiar limitado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Os seus Comp\u00eandios escolares (e as m\u00faltiplas outras obras que publicou) foram, entretanto, e sobretudo, uma fonte permanente de satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima e um ve\u00edculo privilegiado daquele que nos diz ter sido o seu objectivo de vida: ser \u00fatil aos outros. <em>\u201cFoi muito bom ter-me entregado ao ensino. Se foi bom para eles <\/em>(refere-se aos seus alunos)<em>, foi muito mais para mim. Deram-me a presun\u00e7\u00e3o de lhes ser \u00fatil, e de ter sido \u00fatil a algu\u00e9m, e isso foi sempre o m\u00f3bil da minha exist\u00eancia.\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><strong>[xi]<\/strong><\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Acerca do Comp\u00eandio de F\u00edsica para o 2\u00ba Ciclo do Ensino Liceal, de R\u00f3mulo de Carvalho, irremediavelmente reprovado no concurso de \u201clivro \u00fanico\u201d a que concorreu, diz o Mestre nas suas \u201cMem\u00f3rias\u201d, o seguinte<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a>:<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><em>\u201cTamb\u00e9m nesses tempos de \u201clivros \u00fanicos\u201d, n\u00e3o sei j\u00e1 exactamente em que ano, me dispus a ocupar os \u00f3cios <\/em>(?!)<em> com a redac\u00e7\u00e3o de outro Comp\u00eandio, mas agora de F\u00edsica, para o 2\u00ba ciclo dos liceus. Trabalhei nele afincadamente durante largos meses pois a tarefa era demorada por envolver tr\u00eas anos de curso, e penosa por, al\u00e9m do longo texto, exigir ilustra\u00e7\u00e3o abundante, em grande parte fotogr\u00e1fica.<br \/><\/em><em>Foi um trabalho ingrato, cansativo e in\u00fatil. N\u00e3o conservei os pap\u00e9is relacionados com o assunto, nem sequer o texto do livro, (\u2026) \u201d<\/em>.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_12421\" aria-describedby=\"caption-attachment-12421\" style=\"width: 229px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12421 size-medium\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-2-229x300.jpg\" alt=\"\" width=\"229\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-2-229x300.jpg 229w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-2-781x1024.jpg 781w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-2-768x1007.jpg 768w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-2.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 229px) 100vw, 229px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12421\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">A primeiras 9 ilustra\u00e7\u00f5es do manuscrito das \u201cLi\u00e7\u00f5es de F\u00edsica<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">Experimental para o 2\u00ba Ciclo dos Liceus\u201d de R\u00f3mulo de Carvalho<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Por felicidade, os \u201dpap\u00e9is\u201d conservaram-se, e \u00e9 poss\u00edvel encontr\u00e1-los no Arquivo Hist\u00f3rico do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Possuo um exemplar que me foi generosamente cedido pela Direc\u00e7\u00e3o do Arquivo, j\u00e1 que ao Autor era exigida a apresenta\u00e7\u00e3o da obra em tr\u00eas exemplares. O Comp\u00eandio foi entregue em dois volumes: um volume de texto com 331 folhas A4 dactilografadas, e um volume contendo as gravuras que deveriam posteriormente aparecer integradas no texto, no seu lugar pr\u00f3prio, se e quando a obra fosse editada. As gravuras, desenhos, na sua maior parte, mas tamb\u00e9m fotografias, s\u00e3o em n\u00famero de 577, cada uma acompanhada de apropriada legenda explicativa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">R\u00f3mulo deu \u00e0 obra o t\u00edtulo de \u201cLi\u00e7\u00f5es de F\u00edsica Experimental para o 2\u00ba Ciclo dos Liceus\u201d. Tratar-se-ia hoje do 7\u00ba, 8\u00ba e 9\u00ba anos de escolaridade. O manuscrito est\u00e1 datado de 1958.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Numa breve nota dirigida aos relatores, o Mestre informa que \u201c<em>os desenhos foram executados por mim, o que justifica as suas insufici\u00eancias (\u2026) <\/em>\u201d e, mais \u00e0 frente: \u201c<em>as fotografias tamb\u00e9m foram, na quase totalidade, tiradas por mim, mas parece-me que, pelo menos em grande n\u00famero de casos, est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de permitirem uma boa reprodu\u00e7\u00e3o <\/em>(\u2026) \u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-12445 size-full\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-3-e-4.png\" alt=\"\" width=\"623\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-3-e-4.png 623w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Figura-3-e-4-300x145.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 623px) 100vw, 623px\" \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">(\u00e0 esquerda) M\u00e1quina de Atwood (pormenores desenhados por R\u00f3mulo de Carvalho)<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">(\u00e0 direita) Esquema explicativo do funcionamento do motor de explos\u00e3o (desenhos de R\u00f3mulo de Carvalho)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Duas notas sobre esta obra. A primeira observa\u00e7\u00e3o: a de que est\u00e1 magistralmente redigida e organizada do ponto de vista da pedagogia e da did\u00e1ctica; a segunda observa\u00e7\u00e3o, que se aplica a toda a sua obra did\u00e1ctica mas tamb\u00e9m \u00e0 obra de investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, \u00e9 a constante preocupa\u00e7\u00e3o de R\u00f3mulo de Carvalho em relevar os valores nacionais, dos homens e das coisas, sem cair no paneg\u00edrico falsamente patri\u00f3tico. Era um Homem da nossa terra, capaz de um olhar cr\u00edtico \u00e0 sua volta, livre de preconceitos e de esp\u00edrito de par\u00f3quia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">A obra de que fal\u00e1mos e que, como dissemos, foi irremediavelmente reprovada na altura, seria ainda hoje lida com grande proveito pela juventude escolar que se quisesse iniciar na F\u00edsica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Em todas as obras que escreveu, publicadas ou n\u00e3o, em especial, como \u00e9 natural, nos livros escolares, mas tamb\u00e9m em obras de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o prop\u00f3sito formativo e a mensagem pedag\u00f3gica est\u00e3o sempre presentes. Mesmo em trabalhos que se diria mais eruditos, a cada passo se revela a inten\u00e7\u00e3o de formar e n\u00e3o apenas de informar o eventual leitor.<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Tenho em particular apre\u00e7o uma pequena obra, em dois volumes, \u201cProblemas de F\u00edsica\u201d para o ent\u00e3o chamado \u201cCurso Complementar dos Liceus\u201d (na altura o 6\u00ba e o 7\u00ba ano) editados pela Livraria Atl\u00e2ntida de Coimbra em 1959 e 1960. O primeiro desses dois volumes, apresenta a abrir uma extensa introdu\u00e7\u00e3o de quase 50 p\u00e1ginas \u2014 \u201c<em>Acerca da Resolu\u00e7\u00e3o de Problemas de F\u00edsica<\/em>\u201d. Nessa introdu\u00e7\u00e3o, R\u00f3mulo de Carvalho alarga-se em considera\u00e7\u00f5es muito judiciosas sobre o que significa bem resolver problemas de F\u00edsica. F\u00e1-lo tendo em conta, naturalmente, a bagagem de conhecimentos correspondente ao n\u00edvel de escolaridade ao qual se dirige mas ascende a n\u00edvel qualitativamente muito superior e de muito mais vasto alcance no que toca \u00e0 metodologia e \u00e0 did\u00e1ctica. \u00c9 assim que enuncia as 5 \u201c<em>habilita\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d que, \u201c<em>na sua maneira de ver<\/em>\u201d, s\u00e3o necess\u00e1rias para bem resolver um problema de F\u00edsica. A quarta dessas, \u00e9: \u201c<em>saber efectuar as opera\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas que constam da express\u00e3o matem\u00e1tica utilizada na resolu\u00e7\u00e3o do problema, para a obten\u00e7\u00e3o do valor num\u00e9rico da inc\u00f3gnita.<\/em>\u201d Sobre esta \u201c<em>quarta habilita\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d discorre a seguir ao longo de quase 30 p\u00e1ginas. Logo de entrada faz notar o seguinte: \u201c<em>Efectuar uma opera\u00e7\u00e3o num\u00e9rica em F\u00edsica n\u00e3o \u00e9 o mesmo que efectu\u00e1-la em Matem\u00e1tica. \u00c9 necess\u00e1rio e urgente, que os estudantes de F\u00edsica saibam isto, que saibam que a Matem\u00e1tica opera com n\u00fameros e que a F\u00edsica opera com valores de grandezas. Esta simples restri\u00e7\u00e3o modifica, por completo, n\u00e3o s\u00f3 a atitude de esp\u00edrito de quem efectua a opera\u00e7\u00e3o como o pr\u00f3prio resultado num\u00e9rico da opera\u00e7\u00e3o. Em F\u00edsica n\u00e3o se soma, n\u00e3o se subtrai, n\u00e3o se multiplica, n\u00e3o se divide da mesma maneira do que em Matem\u00e1tica. Os m\u00e9todos usados t\u00eam as suas regras especiais, devidamente fundamentadas. A ignor\u00e2ncia ou o desprezo, destas regras conduz a disparatad\u00edssimas consequ\u00eancias e inutiliza uma das possibilidades de maior valor educativo do ensino da F\u00edsica.<\/em>\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">Aqui ficam alguns elementos \u2014 muito mais haveria a dizer \u2014 que podem ajudar a avaliar a dimens\u00e3o e o m\u00e9rito da contribui\u00e7\u00e3o de R\u00f3mulo de Carvalho para o ensino das ci\u00eancias experimentais em Portugal no decurso do s\u00e9culo passado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">17 de Julho de 2011<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><strong>Nota OTC<\/strong>: <em>o presente artigo foi originalmente publicado na Gazeta de F\u00edsica, <\/em><span style=\"color: #000000;\"><em><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.spf.pt\/magazines\/GFIS\/107\">Volume 34, N 2<\/a><\/em><\/span><em><span style=\"color: #000000;\">,<\/span> 2011,pp.2-8, e, posteriormente, republicado na obra \u201cHist\u00f3rias da F\u00edsica em Portugal no S\u00e9culo XX\u201d, Teresa Pe\u00f1a e Gon\u00e7alo Figueira (eds.), Gradiva, 2015<br \/><\/em>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> <em>In<\/em> \u201cMem\u00f3rias\u201d, p.176, Ed. Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian (2010)<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> <em>In <\/em>\u201cMem\u00f3rias\u201d, p. 244<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> <em>In <\/em>\u201cA Ci\u00eancia Herm\u00e9tica\u201d<em>, <\/em>Biblioteca Cosmos, Vol. n\u00ba118, p. 15, Ed. Cosmos (1947)<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> In Caderno de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica n\u00ba1, Ed. S\u00e1 da Costa (1979)<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> <em>In<\/em> \u201cMem\u00f3rias\u201d, p.351. Os \u201cCadernos de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica\u201d, em n\u00famero de 18, foram reeditados, num volume \u00fanico, por \u201cRel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua Editores\u201d em 2004<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> <em>In <\/em>\u201cMem\u00f3rias\u201d, pp. 243-44<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> Ver \u201cR\u00f3mulo de Carvalho na Universidade do Porto, 1928-1931\u201d, da autoria de Jos\u00e9 Moreira de Ara\u00fajo. Ed. Universidade do Porto (Dez. 2006) (Ap\u00eandice 4)<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> <em>Id<\/em>. Ap\u00eandice 3<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> <em>In <\/em>\u201cMem\u00f3rias\u201d, p. 245 e seguintes.<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> <em>In <\/em>\u201cMem\u00f3rias\u201d, p. 283-84<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> <em>In <\/em>\u201cMem\u00f3rias\u201d, p. 204<\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 12pt;\"><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> <em>In <\/em>\u201cMem\u00f3rias\u201d, p. 229<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":12419,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,7,160,134,49],"tags":[157,70,57,75],"class_list":{"0":"post-12424","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-sc-soc","8":"category-figcult","9":"category-pres","10":"category-texdoc","11":"category-vultos-ciencia-portugal","12":"tag-educacao-e-ensino","13":"tag-featured","14":"tag-portugues","15":"tag-valores-eticos"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12424"}],"version-history":[{"count":35,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12424\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12637,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12424\/revisions\/12637"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}