{"id":2248,"date":"2015-11-26T15:58:30","date_gmt":"2015-11-26T15:58:30","guid":{"rendered":"https:\/\/otc.pt\/wp\/2015\/11\/26\/ca\/"},"modified":"2021-11-16T16:19:45","modified_gmt":"2021-11-16T16:19:45","slug":"ca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/otc.pt\/wp\/2015\/11\/26\/ca\/","title":{"rendered":"CI\u00caNCIA E ARTE"},"content":{"rendered":"<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 24pt; color: #0000ff;\"><strong><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 21pt;\">R\u00f3mulo de Carvalho<\/span><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 11pt; font-family: Calibri, sans-serif;\">In <i>Palestra, Revista de Pedagogia e Cultura<\/i>, n\u00ba1, Lisboa, 1958<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--> \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">\u00c9 f\u00e1cil averiguar que nas \u00faltimas d\u00e9cadas decorrentes bastante se tem avan\u00e7ado na compreens\u00e3o do significado social da Arte. \u00c9 claro que n\u00e3o nos referimos \u00e0 escolha de motivos sociais para sua express\u00e3o em forma art\u00edstica mas a disposi\u00e7\u00e3o benevolente do p\u00fablico em se esfor\u00e7ar por acreditar que o artista n\u00e3o \u00e9 um ornamento da sociedade mas um dos seus elementos imprescind\u00edveis, com uma fun\u00e7\u00e3o a cumprir, definida e indispens\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Numa aprecia\u00e7\u00e3o superficial deste tema talvez parecesse que j\u00e1 houve tempo em que o artista teve maior conceito social do que hoje e que, sendo assim, a sua valoriza\u00e7\u00e3o teria vindo a declinar, desse apogeu, at\u00e9 aos tempos modernos. Certamente j\u00e1 o artista teve privil\u00e9gios que hoje n\u00e3o aufere, teve o favor dos reis e de todos os grandes da Terra, encheu as arcas de benesses e a fronte de gl\u00f3ria. Era ent\u00e3o um deslumbrante ornamento, mas julgamos que nunca ningu\u00e9m pensara, como agora, que a sua actividade fosse necess\u00e1ria como factor de progresso.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Em nosso sentimento (e o tema \u00e9 para discuss\u00e3o) o artista e o cientista s\u00e3o dois destinos paralelos embora em fases d\u00edspares da sua evolu\u00e7\u00e3o. Ambos desempenham na sociedade o mesmo papel de construtores, de descobridores, de definidores: um, do mundo de dentro; outro, do mundo de fora.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px 0px 0px 20px; float: right;\" src=\"images\/Rmulo%20lendo-short.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" \/><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Precisemos melhor a quest\u00e3o. N\u00e3o estamos apenas a afirmar (o que certamente teria o aplauso geral) que o artista e o cientista s\u00e3o pessoas igualmente estim\u00e1veis, merecedoras do mesmo respeito e ambos imprescind\u00edveis numa sociedade. Estamos a querer exprimir mais do que isso, que um e outro ocupam lugares de igual necessidade, que aqueles mundos de dentro e de fora s\u00e3o de transcend\u00eancia equivalente, que ambos esses mundos exigem a permanente busca, a orientada investiga\u00e7\u00e3o que, em nossos dias, \u00e9 considerada apenas apan\u00e1gio da Ci\u00eancia. Quando dizemos que o cientista e o artista s\u00e3o destinos paralelos queremos ampliar ainda e dizer que a Ci\u00eancia e a Arte decorrem segundo linhas paralelas, o que nos parece mais claro para fazer entender o que pretendemos.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\">\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\">\u00a0<span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Consultando a Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia encontramos primeiro o Homem como um descobridor isolado, entretido numa busca que s\u00f3 a ele interessa, e de que outros vir\u00e3o a aproveitar-se quando lhe descobrirem a utilidade. O investigador cient\u00edfico \u00e9 ent\u00e3o um sonhador, um \u00abmaduro\u00bb e um in\u00fatil no aspecto social. Quando muito acha-se-lhe gra\u00e7a e aprecia-se-lhe a persist\u00eancia com que trabalha. Numa segunda fase passa o cientista a ser um homem que conv\u00e9m auxiliar e consultar. \u00c9 uma pessoa que tem ideias e as suas ideias conduzem, \u00e0s vezes, a fins utilit\u00e1rios que tomam a vida melhor. A sociedade disp\u00f5e-se a dar aten\u00e7\u00e3o ao cientista, a aceit\u00e1-lo, a respeit\u00e1-lo e a esperar dele coisas \u00fateis. Na fase actual, que \u00e9 a terceira deste quadro, o cientista torna-se um homem imprescind\u00edvel, o homem que \u00e9 necess\u00e1rio colocar em condi\u00e7\u00f5es de se lhe facilitarem as tarefas. A sociedade j\u00e1 n\u00e3o se resigna a esperar que o cientista surja na pessoa de um estudante mais prometedor mas deseja que a mocidade seja estimulada, que as voca\u00e7\u00f5es sejam acordadas, para que os cientistas se multipliquem e d\u00eaem conta das mil imposi\u00e7\u00f5es da vida moderna. Os governos das na\u00e7\u00f5es clamam que os cientistas n\u00e3o chegam e pagam-nos a peso de ouro para os terem ao seu servi\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Assim evoluiu o cientista de \u00absonhador\u00bb a \u00abhomem que merece aten\u00e7\u00e3o\u00bb e daqui a \u00abelemento imprescind\u00edvel para o progresso da sociedade\u00bb.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Comparando esta linha evolutiva com a do artista encontramos este, em nossos dias, na situa\u00e7\u00e3o daquela segunda fase, ainda sa\u00eddo de fresco da fase de \u00absonhador\u00bb. Agora \u00e9, socialmente, um \u00abhomem que merece aten\u00e7\u00e3o\u00bb. A terceira fase vir\u00e1 a seu tempo, longinquamente decerto, mas estamos convencidos (e suportamos o risco de t\u00e3o dispa\u00ad ratada afirma\u00e7\u00e3o) que um dia os Governos fomentar\u00e3o apressadamente o surto das voca\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e clamar\u00e3o a necessidade urgente de mais poetas, de mais pintores, de mais escultores, de mais compositores musicais, para o progresso das suas na\u00e7\u00f5es, exactamente como hoje se pedem avidamente f\u00edsicos para satisfa\u00e7\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es nucleares.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">N\u00e3o nos parece caso muito assombroso este desfasamento entre os est\u00e1dios evolutivos da Ci\u00eancia e da Arte. E sabido que o Homem, intrincada e complexa rede de elementos v\u00e1rios num s\u00f3, e (\u00e0 maneira de um feixe de luz solar de apar\u00eancia tao simples mas desdobr\u00e1vel em m\u00faltiplas radia\u00e7\u00f5es vis\u00edveis e invis\u00edveis) um feixe de sensibilidades que aguarda o prisma que o h\u00e1-de desdobrar, aquele mesmo luminoso feixe que Fernando Pessoa desdobrou nos seus t\u00e3o discutidos heter\u00f3nimos. No mesmo homem uns elementos dormem, outros labutam, outros comentam, outros observam, todos em graus de evolu\u00e7\u00e3o diferentes, sujeitos a desfasamentos t\u00e3o flagrantes e inesperados que chegam a tornar desesperado o acto de conhecer algu\u00e9m. Surpreende a atitude de uma mesma criatura perante os problemas v\u00e1rios da exist\u00eancia e se defronte de um se mostra da mais aguda sensibilidade, de\u00ad fronte de outros pode portar-se como o mais insens\u00edvel dos viventes. Em cada um o homem-cientista, o homem-t\u00e9cnico, o homem-pol\u00edtico, o homem-religioso, o homem-artista, e quantos mais, vivem na serena ignor\u00e2ncia uns dos outros, alheios em si mesmos, evoluindo separadamente como se fossem representantes de \u00e9pocas hist\u00f3ricas distintas. No mesmo homem pode encontrar-se a mentalidade de um cientista do s\u00e9culo XX reunida \u00e0 mentalidade de um pol\u00edtico do seculo XIX, de um ret\u00f3rico do s\u00e9culo XVIII, de um moralista do seculo XVII, etc. Tal indiv\u00edduo (e parecem-nos frequentes estes exemplos) evoluiu muito diferentemente nos m\u00faltiplos aspectos que ao mesmo homem s\u00e3o dados conseguindo&#8211;se at\u00e9 aliar a brutalidade primitiva \u00e0 mais requintada civiliza\u00e7\u00e3o moderna.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Toda a gente reconhece, no dia-a-dia da exist\u00eancia, a verdade desta afirma\u00e7\u00e3o. Quando se assiste a qualquer cena pouco edificante e se comenta que \u00abparece imposs\u00edvel que num pa\u00eds civilizado\u00bb essa cena possa ter lugar, est\u00e1-se precisamente a comentar este desfasamento entre as v\u00e1rias evolu\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Um exemplo. Seria inadmiss\u00edvel, e asperamente censurado, que, dentro das possibilidades da T\u00e9cnica moderna, a nossa capital n\u00e3o possu\u00edsse carros el\u00e9ctricos. Contudo, ao assistirmos, \u00e0 hora de maior tr\u00e2nsito, \u00e0 maneira truculenta como a popula\u00e7\u00e3o se acotovela, se comprime, luta e at\u00e9 se agride, para conquistar lugar nos mesmos el\u00e9ctricos, somos levados a reconhecer que, no aspecto c\u00edvico, o atraso dessa mesma popula\u00e7\u00e3o \u00e9 flagrante. Os respons\u00e1veis que entendem, sem hesita\u00e7\u00e3o, que a nossa capital deve possuir uma rede de carros el\u00e9ctricos, nunca sentiram o imperativo de organizar o modo de nos servirmos deles porque esse imperativo s\u00f3 pode ser ditado numa fase da evolu\u00e7\u00e3o do homem-c\u00edvico que ainda n\u00e3o foi atingida.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Outro exemplo: ser\u00e1 incr\u00edvel que, suponhamos, um bacteriologista cuspa no ch\u00e3o? E muito cr\u00edvel. O bacteriologista, como profissional, sabe da exist\u00eancia dos microorganismos, conhece-lhes os perigos e est\u00e1 em dia com a ci\u00eancia a que se dedica. Contudo, como homem-social, pode viver completamente desinteressado do mal que, porventura, poder\u00e1 vir a causar a outros cuspindo no ch\u00e3o. E cuspir\u00e1.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Parecem-nos estes desfasamentos mais do que evidentes. Pois n\u00e3o vivemos n\u00f3s numa \u00e9poca na qual, ao mesmo tempo em que se lan\u00e7am bombas sobre popula\u00e7\u00f5es indefesas no meio das quais se encontram milhares de crian\u00e7as, se movimentam, por outro lado, todos os recursos da Ci\u00eancia, numa bela conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os alheia a fronteiras, para salvar uma outra an\u00f3nima crian\u00e7a que precisa de um determinado medicamento o qual chega de longe, de milhares de quil\u00f3metros, num avi\u00e3o de jacto?<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">O desfasamento entre a Ci\u00eancia e a Moral \u00e9 um tema de conversa frequente. Sirva o paralelismo para se entender o que queremos dizer: que existe semelhante desfasamento no que respeita a Arte.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Toda a gl\u00f3ria do progresso humano reside nas conquistas da Ci\u00eancia e da T\u00e9cnica mas, em muitos outros planos de actua\u00e7\u00e3o, o atraso \u00e9 evidente. Na Moral, na Filosofia, no Direito, etc., a evolu\u00e7\u00e3o tem sido extremamente lenta a tal ponto que ainda actualmente se recorre, com frequ\u00eancia, a paradigmas das Antiguidades grega e Romana para exemplos edificantes de Moral, de Filosofia ou de Direito. Entretanto ningu\u00e9m se lembraria de recorrer hoje \u00e0 F\u00edsica de Arist\u00f3teles como paradigma da F\u00edsica, o que alias ainda n\u00e3o h\u00e1 muito tempo se fazia. A pr\u00f3pria Geometria de Euclides, que t\u00e3o fecundos servi\u00e7os prestou \u00e0 Humanidade, j\u00e1 \u00e9 totalmente inv\u00e1lida em certos campos da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u00c9 claro que poderia objectar-se que a Filosofia grega, por exemplo, n\u00e3o foi superada, e continua a ser norma v\u00e1lida de pensamento em muitos aspectos, porque atingiu um n\u00edvel extremamente elevado, o que realmente nada significa sem sabermos o que vir\u00e1 depois de n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">A Medicina, por exemplo, tem evolucionado t\u00e3o lentamente que continua a haver legi\u00f5es de criaturas que recorrem a curandeiros e bruxas, mesmo na capital e entre pessoas de elevados recursos econ\u00f3micos. O facto n\u00e3o se pode atribuir s\u00f3 a ignor\u00e2ncia de quem a ela recorre mas a estoutro facto de que os curandeiros \u00e0s vezes curam e os m\u00e9dicos \u00e0s vezes n\u00e3o curam. A Medicina est\u00e1 dependente do conhecimento do Homem, f\u00edsico e ps\u00edquico, e muitas melhorias de que tem gozado devem-se aos progressos da Qu\u00edmica e aos das variad\u00edssimas t\u00e9cnicas de que depende.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">No campo da Arte o desfasamento \u00e9 tamb\u00e9m not\u00e1vel. O p\u00fablico continua a exigir que o artista lhe apresente coisas f\u00e1ceis, dir\u00edamos bonitas, agrad\u00e1veis aos olhos ou aos ouvidos, de imediata recep\u00e7\u00e3o sensorial, que lhe forne\u00e7a, sem o menor esfor\u00e7o, a sensa\u00e7\u00e3o de descanso e de esquecimento, que, na apar\u00eancia, s\u00e3o os mais desej\u00e1veis lenitivos da vida. O cinema, arte popular por excel\u00eancia, \u00e9 bem uma pedra de toque. O grande p\u00fablico detesta as fitas de tese, desinteressa-se das superiores interpreta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o repara no pormenor que comove e chega a soltar gargalhadas em actos de flagrante e confrangedora trag\u00e9dia, quando o natural e humano seria chorar. E incontest\u00e1vel, que a finalidade do cinema n\u00e3o \u00e9 divertir afastando o individuo dos problemas humanos, embora seja esta a opini\u00e3o de um n\u00famero esmagador de indiv\u00edduos. Se o n\u00famero tivesse valor para tais opini\u00f5es ent\u00e3o o cinema seria para divertir, a poesia um processo de alcan\u00e7ar pernas de galinha corada (como j\u00e1 foi), a pintura seria a arte de copiar a Natureza, etc., etc. Mas quem manda \u00e9 a minoria. Sentir \u00e9 um privil\u00e9gio.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">\u00c9 frequente encontrar homens de fina sensibilidade, esclarecidos e atentos aos problemas universais, que permanecem at\u00f3nitos em presen\u00e7a de certas obras de arte modernas. N\u00e3o ficam indiferentes porque s\u00e3o esclarecidos mas ficam at\u00f3nitos porque n\u00e3o \u00abentendem\u00bb.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">\u00c9 extremamente curiosa, elucidativa para o nosso fim em vista esta preocupa\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida honesta, de querer \u00abentender\u00bb a obra de arte \u00e0 primeira observa\u00e7\u00e3o feita (mormente a pintura e a escultura) e repudi\u00e1-la por n\u00e3o a ter conseguido entender. Chamando \u00e0 li\u00e7a a quest\u00e3o da Ci\u00eancia (cuja linha de evolu\u00e7\u00e3o \u2015 repetimos \u2015 nos parece paralela \u00e0 da Arte, embora desfasada) \u00e9 interessante verificar que ningu\u00e9m hoje se preocupa com o \u00abentendimento\u00bb dessa mesma Ci\u00eancia nem lhe exige express\u00e3o f\u00e1cil. Perante os quadros da Ci\u00eancia moderna n\u00e3o passa pela cabe\u00e7a de ningu\u00e9m o exigir-lhe que seja compreens\u00edvel, exig\u00eancia que se estabelece, por exemplo, para as obras de pintura moderna. Aceita-se (porque a fase da evolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 mais avan\u00e7ada do que a da Arte) que \u00e9 da pr\u00f3pria natureza da Ci\u00eancia s\u00f3 ser acess\u00edvel a alguns, aos iniciados, e aceita-se assim com resigna\u00e7\u00e3o, sem que o apreciador se sinta diminu\u00eddo no seu valor humano ou no seu orgulho de entendedor. Ora a Ci\u00eancia e, na verdade, incompreens\u00edvel, as suas conclus\u00f5es s\u00e3o impostas e n\u00e3o entendidas, a despeito de, como sucede na Matem\u00e1tica, ser poss\u00edvel demonstrar o que se afirma. Teremos de reparar, entretanto, que demonstrar n\u00e3o \u00e9 tornar claro nem entend\u00edvel um conhecimento cient\u00edfico; \u00e9 apenas o desenrolar de uma t\u00e9cnica que se destina a enquadrar um certo conceito num plano hist\u00f3rico de aquisi\u00e7\u00f5es perfeitamente articuladas entre si, que n\u00e3o ferem a l\u00f3gica na sua articula\u00e7\u00e3o, e que, pela fluidez com que decorrem umas das outras, nos d\u00e3o a impress\u00e3o de que conduzem a coisas acess\u00edveis ao nosso entendimento. Cremos, contudo, que n\u00e3o s\u00e3o para fazer entender. J\u00e1 Louis de Broglie, num livro c\u00e9lebre, receia que o fim da F\u00edsica, seja a impossibilidade de traduzir os conceitos abstractos em esquemas concretos. Entretanto c\u00e1 nos vamos arranjando supondo uns electr\u00f5es que se movem em labirintos orbit\u00e1rios em redor de n\u00facleos, necessidade urgente para iludir a nossa incompreens\u00e3o e nos supormos em condi\u00e7\u00f5es de entender os mist\u00e9rios que revolvemos. Mas a verdade e que \u00e9 s\u00f3 por interm\u00e9dio de semelhantes ingenuidades que edificamos o aparato da nossa pseudo-compreens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Afirma-nos a Teoria da Relatividade que uma velocidade n\u00e3o pode ultrapassar aquele limite vertiginoso dos trezentos mil quil\u00f3metros por segundo das ondas electromagn\u00e9ticas no vazio. Quem entende que a Natureza ou a T\u00e9cnica se oponham \u00e0 possibilidade de uma velocidade exceder um dado valor, por maior que seja? Ningu\u00e9m. A massa de um corpo, essa grandeza que j\u00e1 foi uma constante f\u00edsica para cada corpo qualquer que fosse o seu estado de repouso ou de movimento, \u00e9 vari\u00e1vel com a sua velocidade. Aumenta quando a velocidade aumenta; diminui quando a velocidade diminui. Quem entende isto? Ningu\u00e9m. O Universo est\u00e1 em expans\u00e3o. N\u00e3o tem limites definidos. Respira. \u00c9 um ser vivo. \u00c9 um cora\u00e7\u00e3o que pulsa. Quem entende isto? Ningu\u00e9m. A gravita\u00e7\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de uma deforma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o-tempo (o que impede que o Universo seja euclidiano), deforma\u00e7\u00e3o essa que se propaga com a velocidade da luz. E o oceano dos positr\u00f5es de Dirac?<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Ningu\u00e9m entende estas coisas embora se repitam nos livros, nas confer\u00eancias, nas salas de aula, com toda a naturalidade, e dela se parta, como verdades entend\u00edveis, s\u00f3 porque o decorrer da demonstra\u00e7\u00e3o da dial\u00e9ctica a elas nos conduz. Mas ai do pintor que estampe na tela uma linha ou uma cor que se afaste do mundo imediatamente sens\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">\u00c9 claro que a Ci\u00eancia enveredou por aquela bela, larga e luminosa estrada que conduziu \u00e0 Relatividade, \u00e0 Mec\u00e2nica Qu\u00e2ntica e \u00e0 Mec\u00e2nica Ondulat6ria, inculpadamente, sem inten\u00e7\u00e3o reservada. Limitou-se a deixar-se prosseguir, o que s\u00f3 poderia ter-se passado como se passou e nunca de outro modo. A interpreta\u00e7\u00e3o da Natureza j\u00e1 n\u00e3o cabe nos moldes cl\u00e1ssicos que obrigavam Kelvin a exigir uma representa\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica para todas as concep\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. A Ci\u00eancia foi por ali como um curso de \u00e1gua vai pelo seu leito. Era o \u00fanico caminho poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">E a Arte? E a pintura moderna? N\u00e3o teria sido ela obrigada a seguir tamb\u00e9m o curso do seu leito, percorrendo um caminho que era o \u00fanico poss\u00edvel dentro das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas em que se desenrolou? Ou ser\u00e1 admiss\u00edvel o absurdo de a pintura se ter \u00abtransviado\u00bb? Ser\u00e1 cr\u00edvel aceitar-se que uns tantos homens, em todo o mundo, telepaticamente combinados, resolveram exprimir-se de um modo diferente s\u00f3 para ser diferente? N\u00e3o ser\u00e1 viol\u00eancia exigir-se que o poeta ou o pintor, esses que buscam interpretar um mundo de complei\u00e7\u00e3o transcendente, que inclui o mundo dos f\u00edsicos e mais um outro, imponder\u00e1vel e insuspeitado, estejam sujeitos a imposi\u00e7\u00e3o de serem f\u00e1ceis, imediatamente entend\u00edveis? A Arte, como a Ci\u00eancia, saiu dos quadros da compreens\u00e3o f\u00e1cil e imediata, o que n\u00e3o impede que numa e noutra n\u00e3o continuem a verificar-se express\u00f5es da mais total acessibilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">A educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da mocidade escolar e, de certo modo um entrave ao desenvolvimento da sua capacidade de recep\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Parecem-nos dois os mais agudos aspectos desse entrave: o culto da \u00abevid\u00eancia\u00bb como frequente recurso did\u00e1ctico e o emprego da demonstra\u00e7\u00e3o como via de compreens\u00e3o. Um e outro prejudicam a boa compostura mental do individuo em presen\u00e7a da obra de Arte moderna.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">No que respeita ao primeiro aspecto \u00e9 realmente um processo geral (e inevit\u00e1vel quase, por espont\u00e2neo) o recurso \u00e0 evid\u00eancia do aluno para facilitar a tarefa do mestre em transmitir conhecimentos. Dirigida a pergunta ao aluno, sobre o assunto ainda n\u00e3o estudado, espera-se que ele, aproveitando a natural evid\u00eancia, responda acertadamente \u00e0 pergunta feita. O processo seria louv\u00e1vel se, realmente, a evid\u00eancia fosse garantia de verdade, o que n\u00e3o sucede. Bastaria perguntar ao aluno se \u00e9 o Sol que se move em tomo da Terra ou esta em redor daquele para que o rapaz, se nunca tivesse ouvido ou lido a exposi\u00e7\u00e3o do assunto, recorresse \u00e0 evid\u00eancia para afirmar ser o Sol que se move em tomo da Terra. Quando, no ensino liceal, chega a vez de se falar sobre a queda dos graves e o professor pergunta a qualquer aluno se acha que uma pedra de cem quilos cai com maior velocidade do que uma de um quilo, logo o aluno lhe responde, convencido, que sim senhor, que a de cem quilos cai mas depressa. \u00c9 sempre um motivo de espanto ouvir-se afirmar que ambas caem com a mesma velocidade. Como casos destes s\u00e3o frequentes toma-se conden\u00e1vel o recurso \u00e0 evid\u00eancia como processo de ensino e parece-nos de necessidade urgente convencer os estudantes de que sempre que h\u00e1 coincid\u00eancia entre o que sup\u00f5em e o que realmente sucede, isso n\u00e3o resulta de qualquer excel\u00eancia da nossa capacidade de supor mas apenas de uma assaz feliz coincid\u00eancia sem o menor significado cient\u00edfico.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">O segundo dos aspectos do ensino da Ci\u00eancia a que nos referimos como sendo prejudicial ao desenvolvimento da recep\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 o emprego da demonstra\u00e7\u00e3o como via de compreens\u00e3o. Parece-nos fora de d\u00favida que as demonstra\u00e7\u00f5es n\u00e3o conduzem \u00e0 compreens\u00e3o do assunto a que se referem mas apenas, como j\u00e1 dissemos, a reconhecer o bom funcionamento da aparelhagem t\u00e9cnica empregada no processo. Demos um exemplo comezinho, dentro tamb\u00e9m do \u00e2mbito do ensino liceal.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Estudada a potencia\u00e7\u00e3o na Matem\u00e1tica elementar trata-se de ensinar aos alunos o valor num\u00e9rico de uma pot\u00eancia de expoente zero. Quanto valer\u00e1, por exemplo, 5 levantado ao expoente zero? O aluno que sabe que o expoente indica o n\u00famero de vezes que o valor da base se deve multiplicar por si mesmo, pensa, sem qualquer sombra de d\u00favida, que 5 levantado a zero \u00e9 igual a zero pois aquilo significa que o n\u00famero 5 se multiplica por si pr6prio zero vezes, ou seja vez nenhuma, o que dar\u00e1 zero. O professor, por\u00e9m, demonstra-lhe que n\u00e3o \u00e9 assim; que 5 levantado a zero (como ali\u00e1s qualquer outro n\u00famero levantado a esse mesmo expoente) \u00e9 igual \u00e1 unidade. Os alunos seguem a demonstra\u00e7\u00e3o, reconhecem-na impec\u00e1vel, sorriem pelo inesperado do resultado, e quando o professor lhe pergunta \u00abperceberam?\u00bb todos respondem \u00abpercebemos\u00bb. Ora o que \u00e9 que eles teriam percebido? Que um n\u00famero multiplicado por si mesmo zero vezes \u00e9 igual \u00e0 unidade? Certamente que n\u00e3o. O que eles perceberam foi a legitimidade da aplica\u00e7\u00e3o das regras j\u00e1 estabelecidas, e anteriormente asseguradas, a cada um dos passos da demonstra\u00e7\u00e3o, a sua justa articula\u00e7\u00e3o, a sua fundamenta\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel. Contudo (e \u00e9 este o perigoso erro educacional) os alunos ficaram convencidos de que alcan\u00e7aram a compreens\u00e3o do resultado.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">O anterior aspecto que cit\u00e1mos, o recurso \u00e0 evid\u00eancia, faz perigar o sentimento art\u00edstico porque o jovem aceita o que v\u00ea como garantia de verdade e se n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que tenha a cara verde, o auto-retrato de Van Gogh e um disparate. O segundo aspecto de se crer convictamente que se entende o que se demonstra e que a demonstra\u00e7\u00e3o e um selo de garantia de verdade \u00e9 outro perigo porque desvaloriza o que n\u00e3o \u00e9 demonstr\u00e1vel e uma obra de arte n\u00e3o tem demonstra\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">Estes perigos do ensino cient\u00edfico aliados \u00e0 quase aus\u00eancia do ensino art\u00edstico nas nossas escolas, desequilibram fortemente a educa\u00e7\u00e3o da mocidade. Felizmente h\u00e1 uma Natureza que se encarrega de corrigir muitos males e \u00e9 exactamente na juventude que vamos encontrar os mais entusiastas admiradores da Arte moderna. Isto explica-se porque na atmosfera, al\u00e9m das sabidas percentagens de oxig\u00e9nio e de azoto, e de outras varias coisas identific\u00e1veis pelas suas constantes f\u00edsicas, h\u00e1 um fluido imponder\u00e1vel que penetra em todos os interst\u00edcios, que enche os olhos e os pulm\u00f5es, uma coisa indefinida que flutua e cuja antena \u00e9 a juventude. Ela n\u00e3o sabe o que \u00e9, mas sente-o. Porque tudo forma um todo e a Arte moderna \u00e9 a consubstancia\u00e7\u00e3o de tudo quanto por a\u00ed pulsa e ressoa, do tubo fluorescente que ilumina a cidade, da torre que destila o petr\u00f3leo, do c\u00e9rebro electr\u00f3nico que deriva e integra, do helic\u00f3ptero que paira, do homem que experimenta o escafandro que o levar\u00e1 aos outros planetas.<\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\"><img decoding=\"async\" style=\"margin: 0px; float: left;\" src=\"images\/RC-site%20OTC.JPG\" alt=\"\" width=\"650\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-right: 0.2pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;\"><span style=\"font-size: 14pt; font-family: Arial, sans-serif;\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>R\u00f3mulo de Carvalho In Palestra, Revista de Pedagogia e Cultura, n\u00ba1, Lisboa, 1958<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":5485,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[153,8],"tags":[70,57],"class_list":{"0":"post-2248","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ensa","8":"category-filosofia","9":"tag-featured","10":"tag-portugues"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2248","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2248"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2248\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8673,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2248\/revisions\/8673"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}