{"id":3881,"date":"2019-02-09T19:17:17","date_gmt":"2019-02-09T19:17:17","guid":{"rendered":"https:\/\/otc.pt\/wp\/?p=3881"},"modified":"2020-01-17T11:33:06","modified_gmt":"2020-01-17T11:33:06","slug":"ensaio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/otc.pt\/wp\/2019\/02\/09\/ensaio\/","title":{"rendered":"ENSAIO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 16pt;\"><strong><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Frederico Carvalho<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #0000ff; font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 18pt;\"><strong>Contribui\u00e7\u00e3o para uma reflex\u00e3o colectiva sobre cultura cient\u00edfica e responsabilidade social dos trabalhadores cient\u00edficos<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 16pt;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>Maria Lisboa<\/em> foi o nome de baptismo da m\u00e1quina gigantesca constru\u00edda para brocar as entranhas da terra, usada que foi na abertura de t\u00faneis do metro da nossa cidade<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Imaginem o espanto e o temor com que os antepassados dos lisboetas que por aqui andaram h\u00e1 uns s\u00e9culos atr\u00e1s olhariam para um tal engenho. E que pensamentos suscitaria uma tal m\u00e1quina a um Newton ou a um Galileu? Que diriam esses homens cuja intelig\u00eancia abriu as portas a profundas transforma\u00e7\u00f5es da sociedade e do mundo ao assistir ao espect\u00e1culo majestoso da descolagem de um Boeing 747? Ou da ascens\u00e3o de um foguet\u00e3o Ariane?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Que prod\u00edgios de organiza\u00e7\u00e3o e de coordena\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os e recursos materiais, envolvendo verdadeiros ex\u00e9rcitos de trabalhadores, n\u00e3o est\u00e3o por detr\u00e1s dessas e de outras realiza\u00e7\u00f5es humanas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Realiza\u00e7\u00f5es que se sucedem e se ultrapassam a si pr\u00f3prias num infind\u00e1vel processo de aperfei\u00e7oamento e inova\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que se acumula, conserva e transmite, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, <em>o conhecimento da Natureza<\/em>, feito de m\u00faltiplos conhecimentos e da experi\u00eancia da sua aplica\u00e7\u00e3o. Conhecimentos que se organizam como pedras de um grande edif\u00edcio, em que tudo tem a ver com tudo: o edif\u00edcio da ci\u00eancia, em permanente constru\u00e7\u00e3o, edif\u00edcio cuja coes\u00e3o decorre da argamassa especial que \u00e9 <strong>o m\u00e9todo cient\u00edfico<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">H\u00e1 na ci\u00eancia (porque n\u00e3o chamar-lhe filosofia natural?) duas componentes: o conhecimento, por um lado, e, por outro, o percurso intelectual que a ele conduz. Por outras palavras: h\u00e1 um patrim\u00f3nio de conhecimentos e h\u00e1 um processo de aferi\u00e7\u00e3o e de descoberta de novas regularidades na Natureza. O processo \u00e9 o m\u00e9todo cient\u00edfico, m\u00e9todo de aplica\u00e7\u00e3o geral \u00e0 vida, e que envolve:<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">a observa\u00e7\u00e3o e a interpreta\u00e7\u00e3o de fen\u00f3menos naturais;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es de causalidade;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">a previs\u00e3o e a verifica\u00e7\u00e3o da previs\u00e3o.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A descoberta do m\u00e9todo cient\u00edfico e da experimenta\u00e7\u00e3o como instrumento privilegiado para chegar ao conhecimento e a sua aceita\u00e7\u00e3o progressiva por parte das elites, \u00e9 um passo de extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia na evolu\u00e7\u00e3o da Humanidade, que se desenha gradualmente a partir da segunda metade do s\u00e9culo 16. Entretanto, o homem culto de h\u00e1 cinco s\u00e9culos e o homem culto dos nossos dias, n\u00e3o s\u00e3o efectivamente o mesmo homem \u2014 pensam de maneira diferente e v\u00eam o mundo de maneira diferente. E, necessariamente, t\u00eam uma diferente rela\u00e7\u00e3o com a Natureza. Com id\u00eantica convic\u00e7\u00e3o mas consequ\u00eancias distintas, quer para o mundo natural quer para a pr\u00f3pria sociedade humana:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>&#8221; (\u2026)<\/em><\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>Onde Sancho v\u00ea moinhos<\/em><\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>D. Quixote v\u00ea gigantes.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>V\u00ea moinhos? S\u00e3o moinhos.<\/em><\/span><br \/><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>V\u00ea gigantes? S\u00e3o gigantes<\/em><em>.&#8221;<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A interioriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cient\u00edfico \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do saber pensar, no sentido de <em>pensar em conformidade com as leis da natureza<\/em>. E saber pensar \u00e9 indispens\u00e1vel para fazer progredir o patrim\u00f3nio de conhecimentos da humanidade, enfrentar tanto os grandes desafios do futuro como os pequenos desafios do quotidiano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Nesta \u00e9poca em que as for\u00e7as produtivas atingiram um n\u00edvel de desenvolvimento qualitativo e quantitativo tal que a ac\u00e7\u00e3o humana de transforma\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 suscept\u00edvel de alterar equil\u00edbrios naturais \u00e0 escala do planeta, redobra a import\u00e2ncia do saber pensar correctamente e de que a capacidade de assim pensar se alargue progressivamente de modo a abranger as grandes massas. O papel da escola que pratique a aprendizagem cient\u00edfica e o m\u00e9todo cient\u00edfico \u00e9, aqui, fundamental, mas importa lembrar que a efic\u00e1cia da escola depende da exist\u00eancia de professores convenientemente formados e de um apoio social adequado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Uma reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da cultura cient\u00edfica das massas e sobre as formas de a desenvolver \u00e9 hoje uma necessidade num mundo em acelerada transforma\u00e7\u00e3o, determinada pelos impactes da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica que marcou o s\u00e9culo passado, e a sua gest\u00e3o pelo capitalismo desenvolvido. A compreens\u00e3o do que est\u00e1 ou pode estar em jogo nas aplica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e nos diferentes comportamentos sociais, dificilmente pode ser atingida sem o desenvolvimento da cultura cient\u00edfica. Essa compreens\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m mais dif\u00edcil nas sociedades menos activas do ponto de vista da cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, designadamente naquelas que, no fundamental, se limitam a importar os novos produtos tecnol\u00f3gicos por falta de experi\u00eancia de trabalho cient\u00edfico e de meios para o realizar. Assim, a par do desenvolvimento da cultura cient\u00edfica e do ensino das ci\u00eancias, importa desenvolver as capacidades de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de desenvolvimento tecnol\u00f3gico e os centros onde podem ser praticados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Os impactes da aplica\u00e7\u00e3o de tecnologias novas ou da aplica\u00e7\u00e3o de tecnologias j\u00e1 conhecidas mas em muito maior escala do que anteriormente, de forma impensada e com manuten\u00e7\u00e3o, nas novas condi\u00e7\u00f5es, de comportamentos sociais estabelecidos, marcam o dia-a-dia das sociedades humanas sem que, em muitos casos, as massas se apercebam verdadeiramente das origens e consequ\u00eancias desses impactes e das condi\u00e7\u00f5es que os determinam.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">H\u00e1 quest\u00f5es que, embora na ordem do dia, s\u00e3o, ainda, para muitos, long\u00ednquas ou misteriosas, ou ambas as coisas, e, por esse motivo, n\u00e3o determinam um esfor\u00e7o de an\u00e1lise nem altera\u00e7\u00f5es de comportamentos, fazendo recear que a consci\u00eancia da sua import\u00e2ncia e a sua correcta compreens\u00e3o possam acabar por chegar com perigoso atraso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas; empobrecimento da camada de ozono protector; as fontes de energia utilizadas e utiliz\u00e1veis e as perspectivas de evolu\u00e7\u00e3o do consumo energ\u00e9tico mundial; a polui\u00e7\u00e3o global e acelerada do planeta, incluindo a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, dos solos, da atmosfera e da biosfera; os problemas da desfloresta\u00e7\u00e3o, do abastecimento de \u00e1gua \u00e0s popula\u00e7\u00f5es e da diminui\u00e7\u00e3o das terras ar\u00e1veis; a desertifica\u00e7\u00e3o do mundo rural e o crescimento urbano incontrolado, designadamente, nos pa\u00edses mais pobres; a dissemina\u00e7\u00e3o de alimentos geneticamente modificados; os progressos na sequencia\u00e7\u00e3o do genoma humano; o registo de patentes de organismos vivos, genes e organismos geneticamente modificados; a perda de efic\u00e1cia dos antibi\u00f3ticos e dos herbicidas; os problemas da sida e da droga.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Eis algumas das situa\u00e7\u00f5es e problemas que, requerendo uma abordagem cient\u00edfica, simultaneamente espec\u00edfica e integrada, a ser feita por especialistas competentes, s\u00f3 poder\u00e3o ter solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, a encontrar pela via de uma tomada de consci\u00eancia das massas, suficientemente informadas e preparadas no plano da cultura cient\u00edfica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Informa\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o que devem ser consideradas como um pressuposto do funcionamento da pr\u00f3pria democracia, entendida como democracia participativa. A cultura cient\u00edfica n\u00e3o pode deixar de ser encarada como parte integrante e inalien\u00e1vel da cultura. Hoje ser\u00e3o mais s\u00e9rias do que j\u00e1 foram as consequ\u00eancias da marginaliza\u00e7\u00e3o do conhecimento e do m\u00e9todo cient\u00edficos na forma\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os. Mais s\u00e9rias, quando se coloca a necessidade de compreender n\u00e3o os mecanismos, por exemplo, de uma m\u00e1quina a vapor mas os mecanismos da vida sobre a Terra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Vale a pena recordar aqui Bento de Jesus Cara\u00e7a, o militante da cultura e professor de matem\u00e1tica, exemplo extraordin\u00e1rio do que \u00e9 o exerc\u00edcio persistente da responsabilidade social do Trabalhador Cient\u00edfico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">\u00a0\u201c <em>(\u2026) o cultivo e progresso da ci\u00eancia, bem como a sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 vida corrente da sociedade, h\u00e3o-de ser sempre obra de grupos especializados \u2013 prospectores e realizadores; chamemos-lhes elites, se assim o quiserem \u2013 existem e existir\u00e3o, como existem e existir\u00e3o as elites de outras profiss\u00f5es e actividades.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>Mas o que n\u00e3o deve nem pode ser monop\u00f3lio de uma elite, \u00e9 a cultura; essa tem de reivindicar-se para a colectividade inteira, porque s\u00f3 com ela pode a humanidade tomar consci\u00eancia de si pr\u00f3pria, ditando a todo o momento a tonalidade geral da orienta\u00e7\u00e3o \u00e0s elites parciais<\/em>.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">(<em>in<\/em> \u201c<em>A cultura integral do indiv\u00edduo<\/em>\u201d)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">\u201c <em>(\u2026) cultura e liberdade identificam-se \u2013 sem cultura n\u00e3o pode haver liberdade, sem liberdade n\u00e3o pode haver cultura.<\/em>\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">(<em>in<\/em> \u201c<em>As Universidades populares e a Cultura<\/em>\u201d)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Nas sociedades onde o n\u00edvel cultural cient\u00edfico \u00e9 mais baixo e onde se verifica maior atraso nas estruturas e actividades de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e desenvolvimento tecnol\u00f3gico, \u00e9 mais dif\u00edcil percorrer com seguran\u00e7a o caminho que deve conduzir da necess\u00e1ria an\u00e1lise, no plano cient\u00edfico, das situa\u00e7\u00f5es concretas a resolver, at\u00e9 \u00e0 escolha, no plano pol\u00edtico e social, das solu\u00e7\u00f5es mais adequadas, a praticar. O parecer de comiss\u00f5es cient\u00edficas especializadas, em tais circunst\u00e2ncias, arrisca-se a assentar unicamente em compila\u00e7\u00f5es de conhecimentos e descri\u00e7\u00f5es de experi\u00eancias alheias, nem sempre facilmente interpret\u00e1veis e adapt\u00e1veis \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais espec\u00edficas em que o problema se coloca, e sobre as quais \u00e9 dif\u00edcil fazer ju\u00edzos cr\u00edticos por falta de experi\u00eancia pr\u00f3pria de trabalho sobre os temas em an\u00e1lise. Ao mesmo tempo, por for\u00e7a da pequenez e deficiente organiza\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica local, \u00e9 quase imposs\u00edvel o debate contradit\u00f3rio interno a que os pareceres de tais comiss\u00f5es deveriam ser sujeitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 16pt;\"><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 1. Ci\u00eancia e Tecnologia<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">O conhecimento cient\u00edfico permite e muitas vezes tem apenas em vista, compreender o mundo<\/span><a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><span style=\"font-size: 14pt;\">[4]<\/span><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">, explicar o funcionamento da natureza. Compreens\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o que constituem o fundamento mais s\u00f3lido de todo o esfor\u00e7o tendente a tirar partido dos fen\u00f3menos e mecanismos naturais, esfor\u00e7o que deve ser feito a favor da esp\u00e9cie e com a consci\u00eancia cada vez mais clara de que, o que for feito <em>a favor da esp\u00e9cie<\/em> ter\u00e1 de favorecer tamb\u00e9m a manuten\u00e7\u00e3o dos equil\u00edbrios naturais, e, assim, ser\u00e1 tamb\u00e9m <em>a favor da Natureza<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Se o conhecimento cient\u00edfico em si \u00e9 descomprometido, e, nesse sentido \u00e9 neutro \u2013 n\u00e3o \u00e9 bom nem mau \u2013 j\u00e1 o percurso que leva at\u00e9 ele pode n\u00e3o o ser como n\u00e3o o s\u00e3o tamb\u00e9m as suas aplica\u00e7\u00f5es. Entretanto, o grau de comprometimento da tecnologia ou de um produto tecnol\u00f3gico \u00e9 muito vari\u00e1vel.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Importa notar que os problemas \u00e9ticos ligados \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia decorrem da circunst\u00e2ncia de os seus efeitos serem resultado de uma actividade humana e n\u00e3o de processos naturais. H\u00e1, assim, a consci\u00eancia de que n\u00e3o s\u00e3o inevit\u00e1veis mas antes o resultado de op\u00e7\u00f5es decididas por algu\u00e9m ou por determinados grupos de interesses, necessariamente, com consequ\u00eancias mais ou menos profundas, no plano social, nomeadamente, sobre as condi\u00e7\u00f5es materiais de vida, sobre o meio ambiente, etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Em determinados momentos e em determinados contextos, dependendo tamb\u00e9m da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sociais, a investiga\u00e7\u00e3o de determinados dom\u00ednios cient\u00edficos pode gerar efeitos perversos (por exemplo, no dom\u00ednio da biologia, a sequencia\u00e7\u00e3o do genoma humano e sua interpreta\u00e7\u00e3o).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passar\u00e1 com certeza pela tentativa de proibir o desenvolvimento de trabalho de investiga\u00e7\u00e3o nesses dom\u00ednios mas antes pela cria\u00e7\u00e3o (certamente demorada mas incontorn\u00e1vel) de mecanismos sociais que n\u00e3o permitam a aplica\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico em preju\u00edzo do interesse geral<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Tais mecanismos surgir\u00e3o naturalmente num contexto de democracia participativa com uma opini\u00e3o p\u00fablica devidamente formada e informada. Entretanto, h\u00e1 aqui um campo de ac\u00e7\u00e3o importante para movimentos sociais conscientes da problem\u00e1tica envolvida &#8211; partidos pol\u00edticos, sindicatos, grupos ecologistas, e outros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 16pt;\">\u00a0 \u00a0 2. As condi\u00e7\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e do desenvolvimento tecnol\u00f3gico<\/span><\/span><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b><\/b>As condi\u00e7\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e do desenvolvimento tecnol\u00f3gico evolu\u00edram drasticamente no decurso do s\u00e9culo 20 e essa evolu\u00e7\u00e3o prossegue nos nossos dias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Olhando para o passado, mais distante, pode afirmar-se que a tecnologia sem base cient\u00edfica precedeu a ci\u00eancia. Mesmo no s\u00e9culo passado, a tecnologia, com impacte no dia-a-dia das popula\u00e7\u00f5es, avan\u00e7ou em v\u00e1rios dom\u00ednios sem o suporte da ci\u00eancia. Em \u00e9pocas mais distantes, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e a inova\u00e7\u00e3o assentavam no conhecimento emp\u00edrico, e progrediam por processos de tentativa e de erro (as grandes pir\u00e2mides; as catedrais medievais; a ab\u00f3boda do Mosteiro da Batalha que Afonso Domingues conjurou; o aqueduto das \u00e1guas livres; a m\u00e1quina a vapor de James Watt; a l\u00e2mpada el\u00e9ctrica de Thomas Edison). A ci\u00eancia inspirava-se muito mais nas realiza\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, pr\u00e1ticas, do que estas eram inspiradas por aquela.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Entretanto, o conhecimento emp\u00edrico, n\u00e3o teorizado, \u00e9 de dif\u00edcil conserva\u00e7\u00e3o e de dif\u00edcil reconstitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 um conhecimento fr\u00e1gil por natureza, muito dependente dos homens que o assimilam, organizam e transportam, e, por isso mesmo, n\u00e3o propicia ritmos elevados de desenvolvimento do conhecimento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A tecnologia sempre foi um auxiliar precioso e um factor de acelera\u00e7\u00e3o do progresso cient\u00edfico. Assim foi com a primeira luneta de Galileu que lhe chegou de art\u00edfices holandeses em 1609. Todavia, a rela\u00e7\u00e3o de fertiliza\u00e7\u00e3o ia sobretudo no sentido tecnologia-ci\u00eancia. No s\u00e9culo passado, s\u00e9culo e mais claramente desde os anos 50, a ci\u00eancia aparece como suporte da tecnologia, a rela\u00e7\u00e3o torna-se biun\u00edvoca e essa \u00e9 uma caracter\u00edstica da chamada <strong>revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica<\/strong>. A inova\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento tecnol\u00f3gico imp\u00f5em-se como principal motiva\u00e7\u00e3o social do trabalho cient\u00edfico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Do s\u00e1bio, encerrado na sua <em>oficina de ci\u00eancia<\/em>, passou-se \u00e0 <em>f\u00e1brica de conhecimentos<\/em>. Do pr\u00edncipe-mecenas que se queria ilustrar, \u00e0 grande empresa multinacional, com milhares de investigadores assalariados a trabalhar no aperfei\u00e7oamento e no desenvolvimento de novos produtos e processos para o sucesso quando n\u00e3o a sobreviv\u00eancia econ\u00f3mica da empresa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">As consequ\u00eancias sociais s\u00e3o imensas. Aumenta a especializa\u00e7\u00e3o a ponto de os trabalhadores cient\u00edficos por vezes n\u00e3o distinguirem a finalidade \u00faltima do seu trabalho, de cujo produto s\u00e3o desapossados como acontece na maior parte das profiss\u00f5es produtivas. Os investimentos s\u00e3o colossais, o que torna dif\u00edcil a quem est\u00e1 de fora, a recupera\u00e7\u00e3o de atrasos, e aumenta o risco de exclus\u00e3o de pessoas e grupos sociais inteiros. A aquisi\u00e7\u00e3o de novos conhecimentos processa-se a um ritmo crescente, assentando as novas descobertas em conhecimentos e capacidades anteriormente adquiridos. H\u00e1 um impacte directo e cada vez mais imediato sobre a produ\u00e7\u00e3o de riqueza, com a particularidade de o tempo de vida dos processos produtivos e dos objectos criados, diminuir constantemente. A modifica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida dos processos produtivos e o aumento de volume da produ\u00e7\u00e3o t\u00eam efeitos desestabilizadores sobre a sociedade e o meio ambiente<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, tornando cada vez mais imperiosa a necessidade de criar mecanismos e dispositivos sociais que previnam e se oponham \u00e0queles efeitos mais do que os remedeiem. Ao mesmo tempo, a falta de recuo para a correcta avalia\u00e7\u00e3o das implica\u00e7\u00f5es das novas tecnologias, decorrente da rapidez das transforma\u00e7\u00f5es dos processos produtivos, constitui uma dificuldade suplementar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 16pt;\"><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 3. A Ci\u00eancia, os Cidad\u00e3os e o Poder<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Tempos houve em que o conhecimento cient\u00edfico era visto com maus olhos pelos poderes estabelecidos que nele viam n\u00e3o um factor de consolida\u00e7\u00e3o do poder mas algo suscept\u00edvel de o p\u00f4r em causa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Durante muito tempo, assimilou-se inoc\u00eancia \u00e0 ignor\u00e2ncia e valorizou-se esta positivamente. Veja-se a condena\u00e7\u00e3o b\u00edblica da ci\u00eancia: Ad\u00e3o e Eva caem em desgra\u00e7a quando, provado o fruto da \u00c1rvore da Ci\u00eancia, abrem os olhos sobre o mundo e sobre si pr\u00f3prios. Efectivamente viam, mas n\u00e3o reparavam \u2013 \u201cse podes olhar v\u00ea, se podes ver repara\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Os detentores do poder sempre temeram que o acesso ao conhecimento por parte dos explorados e exclu\u00eddos, pudesse p\u00f4r em causa esse poder. Entreabrem a porta do Saber permitindo que seja atingido, apenas, o grau de conhecimento indispens\u00e1vel ao bom desempenho das fun\u00e7\u00f5es que atribuem aos trabalhadores ao seu servi\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A este prop\u00f3sito, \u00e9 elucidativo transcrever algumas passagens do livro &#8220;<em>A Hist\u00f3ria do Ensino em Portugal<\/em>&#8221; de R\u00f3mulo de Carvalho, do cap\u00edtulo &#8220;<em>A pol\u00edtica de ensino da Ditadura Nacional<\/em>&#8220;<\/span><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><span style=\"font-size: 14pt;\">[8]<\/span><\/a><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: 14pt;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">&#8220;Merecedora de aprecia\u00e7\u00e3o \u00e9 a maneira como passou a ser discutido o caso do analfabetismo nacional logo ap\u00f3s o 28 de Maio. A velha quest\u00e3o, mais uma vez equacionada, enquadrar-se-ia agora num ponto de vista eminentemente elitista. Na \u00f3ptica dos defensores de um Estado autorit\u00e1rio mantido por grupos privilegiados, tornava-se leg\u00edtimo perguntar antes de se admitir qualquer solu\u00e7\u00e3o para o problema do analfabetismo, se, realmente, interessaria extingui-lo, ou se n\u00e3o seria prefer\u00edvel manter o povo na ignor\u00e2ncia pois dela decorrem a sua docilidade, a sua mod\u00e9stia, a sua paci\u00eancia, a sua resigna\u00e7\u00e3o. Em 1927 a escritora Virg\u00ednia de Castro e Almeida, considerando que existiam ent\u00e3o em Portugal 75% de analfabetos, dizia, no jornal <em>O S\u00e9culo<\/em>, que &#8220;<em>A parte mais linda, mais forte e mais saud\u00e1vel da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos<\/em>&#8220;. Em alus\u00e3o aos rurais que aprenderam as primeiras letras, pergunta a escritora, e responde: &#8220;<em>Que vantagens foram buscar \u00e0 escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam \u00e0 enxada<\/em>&#8220;<\/span><span style=\"font-size: 14pt;\"><a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>.\u00a0<\/span><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Jo\u00e3o Ameal, escritor e historiador muito cotado na \u00e9poca, deixou escrito: &#8220;<em>Portugal n\u00e3o necessita de escolas, (\u2026) Ensinar a ler \u00e9 corromper o atavismo da ra\u00e7a (\u2026)<\/em> &#8220;&#8221; Alfredo Pimenta, investigador da Hist\u00f3ria de Portugal, declarava, pela mesma altura, no jornal <em>A Voz<\/em>, que &#8220;<em>Ensinar o povo portugu\u00eas a ler e a escrever para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panflet\u00e1rios sem escr\u00fapulos (\u2026) \u00e9 inadmiss\u00edvel.<\/em>&#8220;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A alternativa a manter o povo totalmente afastado da escola era ensinar a ler, sim, &#8220;<em>mas s\u00f3 (\u2026) deixar ler aquilo que o Estado achasse conveniente, n\u00e3o apenas como crian\u00e7as na escola, mas depois como adultos, pela vida fora, at\u00e9 \u00e0 hora da morte<\/em>&#8220;<\/span><span style=\"font-size: 14pt;\"><a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/span><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"> Foi esta via, a da censura omnipresente e da tentativa de controlo dos esp\u00edritos que Salazar seguiu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Afastadas estas posi\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas por for\u00e7a do pr\u00f3prio desenvolvimento dos processos produtivos, elas aparecem substitu\u00eddas por outras que pretendem conciliar a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores com as exig\u00eancias culturais indispens\u00e1veis ao bom desempenho das suas fun\u00e7\u00f5es. O objectivo \u00e9 dispor da ci\u00eancia e dos cientistas, comprovadamente \u00fateis e mesmo indispens\u00e1veis ao desenvolvimento do sistema de explora\u00e7\u00e3o, ao sabor dos interesses dos centros de poder econ\u00f3mico, aplicando-lhes uma canga leve mas eficaz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 <span style=\"font-size: 16pt;\">4. Responsabilidade social dos cientistas<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Nos nossos dias h\u00e1 certamente sentimentos diversos das pessoas em rela\u00e7\u00e3o aos cientistas e outros especialistas. Mas parece certo que mesmo em pa\u00edses menos desenvolvidos, existe respeito pela capacidade t\u00e9cnica e cient\u00edfica desses profissionais e consci\u00eancia da sua import\u00e2ncia social. Isto parece indubit\u00e1vel no que respeita a professores, m\u00e9dicos, engenheiros e a muitos outros. Outra coisa \u00e9 a forma como \u00e9 visto o comportamento social desses profissionais ou de parte deles, nomeadamente quando se manifestam tend\u00eancias corporativas que a opini\u00e3o p\u00fablica considera ileg\u00edtimas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o parece que a opini\u00e3o p\u00fablica seja favor\u00e1vel e muito menos coloque como orienta\u00e7\u00e3o a seguir pelo Estado, a redu\u00e7\u00e3o dos recursos afectos \u00e0s actividades de ci\u00eancia e tecnologia. Seria interessante promover uma <strong>sondagem<\/strong> em Portugal para averiguar o que as pessoas pensam sobre a ci\u00eancia e sobre a necessidade de aumentar os recursos que lhe s\u00e3o dedicados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">No que respeita \u00e0s actividades de ci\u00eancia e tecnologia, como em outros dom\u00ednios, as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 afecta\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos, nomeadamente, financeiros, prov\u00eam normalmente do interior dos Governos e n\u00e3o da press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica. Quanto aos grupos que representam interesses privados, a press\u00e3o, nos pa\u00edses desenvolvidos, tanto pode ir num sentido como no outro, em fun\u00e7\u00e3o da natureza dos conhecimentos a adquirir pelo trabalho cient\u00edfico, natureza de que dependem as modalidades da respectiva apropria\u00e7\u00e3o, p\u00fablica ou privada. E, mesmo assim, o que est\u00e1 a\u00ed em causa n\u00e3o \u00e9 tanto o montante dos fundos investidos mas os dom\u00ednios em que s\u00e3o investidos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Entretanto, os recursos e, em particular, os recursos p\u00fablicos, afectos \u00e0s actividades de investiga\u00e7\u00e3o e desenvolvimento tecnol\u00f3gico, representam, mesmo nos pa\u00edses desenvolvidos, uma frac\u00e7\u00e3o muito reduzida da despesa p\u00fablica total, pelo que h\u00e1 que olhar para esses recursos n\u00e3o como potencial fonte de poupan\u00e7a, que nunca seria significativa ainda que fossem reduzidos a zero, mas antes como um investimento de alta produtividade social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Por vezes, a opini\u00e3o p\u00fablica pode exigir demais aos cientistas. Nomeadamente, pode confundir a compet\u00eancia para dar pareceres t\u00e9cnicos com a legitimidade para tomar decis\u00f5es pol\u00edtico-econ\u00f3micas (veja-se o caso da co-incinera\u00e7\u00e3o). As decis\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o dos pol\u00edticos, e \u00e9 a eles que cabe optar entre solu\u00e7\u00f5es ou vias alternativas, uma vez devidamente informados. E isto \u00e9 o mesmo que dizer que as decis\u00f5es pol\u00edticas cabem aos cidad\u00e3os &#8211; de novo, devidamente informados &#8211; agindo na sua capacidade de detentores \u00faltimos do poder no quadro democr\u00e1tico. De uma democracia que se deseja muito mais participativa do que \u00e9 presentemente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">No que respeita a decis\u00f5es pol\u00edticas e \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o para a gest\u00e3o social, os cientistas s\u00e3o cidad\u00e3os como os outros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Como trabalhadores assalariados, n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pela orienta\u00e7\u00e3o nem t\u00eam controlo sobre a utiliza\u00e7\u00e3o dos resultados da ci\u00eancia. A utiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica e de organiza\u00e7\u00e3o social. A melhor garantia de defesa contra utiliza\u00e7\u00f5es indevidas e perigosas \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma democracia participativa protagonizada por cidad\u00e3os cultos, informados e socialmente conscientes. E \u00e9 com essa perspectiva e nesse sentido que os trabalhadores cient\u00edficos devem intervir na sociedade, ao lado de outros cidad\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">No geral, o cientista encontra-se em situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito diferente da dos seus concidad\u00e3os n\u00e3o cientistas, quando se trata de estabelecer grandes orienta\u00e7\u00f5es do trabalho cient\u00edfico e determinar a aplica\u00e7\u00e3o dos resultados da ci\u00eancia. Os cientistas, em regra, s\u00e3o apenas <em>pontualmente competentes<\/em>, isto \u00e9, competentes num dom\u00ednio restrito de especialidade mas n\u00e3o em outros dom\u00ednios nem no conjunto de especialidades que \u00e9 sempre necess\u00e1rio abarcar quando se avaliam e tomam decis\u00f5es sobre projectos concretos com impacte econ\u00f3mico e social (a constru\u00e7\u00e3o de uma barragem, ou de um aeroporto ou a instala\u00e7\u00e3o de um aterro sanit\u00e1rio). S\u00e3o os cidad\u00e3os que devem tomar posi\u00e7\u00e3o, da melhor forma que souberem e puderem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Vem a prop\u00f3sito referir uma nota de Bento de Jesus Cara\u00e7a, a uma passagem da por n\u00f3s j\u00e1 referida confer\u00eancia &#8220;<em>A cultura integral do indiv\u00edduo<\/em>&#8220;, proferida em 1933. A nota intitula-se \u201c<em>o problema do maquinismo<\/em>&#8220;<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>. Diz Bento Cara\u00e7a: &#8220;<em>O processo da m\u00e1quina e da sua ac\u00e7\u00e3o na vida social contempor\u00e2nea, tem sido feito, nos \u00faltimos anos, muitas vezes, e com diferentes orienta\u00e7\u00f5es. H\u00e1 quem a acuse dos maiores males de que actualmente enferma a civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; o desemprego, a superprodu\u00e7\u00e3o, o automatismo do homem, e h\u00e1 quem leve a delicadeza da sua sensibilidade ao ponto de se cobrir de suores frios \u00e0 ideia do que seria um mundo regido p\u00e9la m\u00e1quina, estandardizado, frio e sem poesia. O tema \u00e9 evidentemente daqueles que se prestam \u00e0 fantasia\u2026<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Mas de um estudo s\u00e9rio dele ressaltam dois factos fundamentais:<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">1\u00ba- A exist\u00eancia da m\u00e1quina na vida de hoje \u00e9 um facto contra o qual n\u00e3o h\u00e1 que fantasiar nem lamuriar. Ela veio a introduzir-se lentamente, ganhando pouco a pouco novos campos e j\u00e1 agora n\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel o desenvolvimento normal da vida dos povos sem ela; mais, ela est\u00e1 destinada a tomar nesse desenvolvimento uma parte cada vez maior.<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><em>2\u00ba- Os males n\u00e3o est\u00e3o na m\u00e1quina mas na desigualdade de distribui\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios que ela produz. O mal n\u00e3o est\u00e1 em que se reduza de 100 a 5 o n\u00famero de horas necess\u00e1rio para a fabrica\u00e7\u00e3o de dado produto, mas sim em que o benef\u00edcio correspondente seja reservado a uma minoria, escravizando a essa m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o a maioria. Quer dizer, o problema fundamental \u00e9, n\u00e3o um problema de t\u00e9cnica, mas um problema de moral social. E n\u00e3o \u00e9 aos t\u00e9cnicos que se pode entregar a sua resolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 a homens.<\/em>&#8220;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">N\u00e3o \u00e9 pois na qualidade de t\u00e9cnicos ou de cientistas mas na qualidade de cidad\u00e3os, que podem e devem intervir os homens e mulheres empenhados em resolver o problema de moral social que coloca a utiliza\u00e7\u00e3o do maquinismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Os cientistas partilham com os outros cidad\u00e3os obriga\u00e7\u00f5es sociais mas, entretanto, t\u00eam a responsabilidade especial que lhes adv\u00e9m do conhecimento especializado sobre o funcionamento da natureza, conhecimento a que a maioria n\u00e3o tem acesso. T\u00eam o dever de dar conhecimento p\u00fablico das implica\u00e7\u00f5es do seu trabalho, nomeadamente, das respectivas aplica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e do seu grau de confian\u00e7a (por exemplo, as consequ\u00eancias da dissemina\u00e7\u00e3o de organismos geneticamente modificados ou do funcionamento das centrais nucleares). Isto nem sempre \u00e9 f\u00e1cil quando se quer alertar para situa\u00e7\u00f5es lesivas do interesse geral associadas ou n\u00e3o a fen\u00f3menos de corrup\u00e7\u00e3o ou de fraude. H\u00e1 lugar para decis\u00f5es dif\u00edceis face a empregadores, incluindo o pr\u00f3prio Estado mas h\u00e1 que procurar n\u00e3o ser um mero instrumento acr\u00edtico desses empregadores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Por outro lado, nem sempre as responsabilidades correntes dos cientistas e t\u00e9cnicos lhes permitem aceder \u00e0 informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para poder prever e pronunciar-se sobre as consequ\u00eancias do seu trabalho, sociais e outras. Por isso, importa colocar como reivindica\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter sindical a integra\u00e7\u00e3o formal, em termos contratuais ou estatut\u00e1rios (estatuto do trabalhador cient\u00edfico), do direito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es (designadamente de tempo) e aos meios necess\u00e1rios (designadamente, de acesso a documenta\u00e7\u00e3o) para poder levar a efeito o estudo das consequ\u00eancias do trabalho em que se est\u00e1 envolvido. Assim se poder\u00e1 mais facilmente ir al\u00e9m de afirma\u00e7\u00f5es de ordem geral bem-intencionadas mas insuficientemente fundamentadas para poderem servir de suporte eficaz a uma ac\u00e7\u00e3o c\u00edvica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">\u25ca\u25ca\u25ca<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Eis um conjunto de reflex\u00f5es que se apresentam como contribui\u00e7\u00e3o para um debate que \u00e9 hoje urgente e que \u00e9 dif\u00edcil, pela complexidade e abrang\u00eancia das quest\u00f5es que nele se colocam. Talvez mesmo v\u00e1rios debates, dirigidos a quest\u00f5es espec\u00edficas abordadas na presente exposi\u00e7\u00e3o, distintas embora interligadas, todas convergindo na mesma quest\u00e3o geral: &#8220;cultura cient\u00edfica e responsabilidade social dos trabalhadores cient\u00edficos&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3898 size-large\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Rabelais-1024x310.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Rabelais-1024x310.jpg 1024w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Rabelais-300x91.jpg 300w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Rabelais-768x233.jpg 768w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Rabelais.jpg 1166w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No texto n\u00e3o \u00e9 adoptado o <\/em>Acordo<em> Ortogr\u00e1fico de 1990<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>N.B. Este artigo foi publicado na Revista \u201cV\u00e9rtice\u201d, n\u00ba188, Julho-Setembro 2018, pp.115-127<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> <em>\u201c1994-In\u00edcio do percurso da tuneladora nominada \u201cMaria Lisboa\u201d, supertoupeira que perfura e consolida em simult\u00e2neo as terras deixando constru\u00eddas as paredes e removendo, tamb\u00e9m, as terras. Foi considerada a grande estrela das obras do empreendimento da Baixa.\u201d <\/em>(<a href=\"https:\/\/www.metrolisboa.pt\/institucional\/1994\/02\/21\/1994\/\">https:\/\/www.metrolisboa.pt\/institucional\/1994\/02\/21\/1994\/<\/a>)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> A prop\u00f3sito: a ind\u00fastria, ind\u00fastria pesada e ind\u00fastria ligeira, que constr\u00f3i as Marias Lisboa, os Boeing 747 e os foguet\u00f5es Ariane \u2014 e os computadores e os telem\u00f3veis e os sat\u00e9lites de telecomunica\u00e7\u00f5es\u2014 \u00e9 hoje e continuar\u00e1 a ser no futuro, necessariamente, um dos pilares da economia mundial. Na sociedade moderna, n\u00e3o haver\u00e1 tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 abastecimento energ\u00e9tico, n\u00e3o haver\u00e1 investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sem suporte industrial.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Ant\u00f3nio Gede\u00e3o &#8220;Impress\u00e3o digital&#8221; in <em>Movimento Perp\u00e9tuo<\/em> (1956)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Designadamente, o mundo f\u00edsico, cujos limites n\u00e3o s\u00e3o por todos entendidos da mesma maneira<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Pense-se, por exemplo, no motor el\u00e9ctrico e na bomba at\u00f3mica<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> A defesa do interesse geral n\u00e3o exclui, antes pressup\u00f5e, o acautelamento de interesses de diferentes minorias<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>Basta lembrar, no plano social, os problemas da obsolesc\u00eancia da m\u00e3o-de-obra e a exclus\u00e3o social; no plano do meio ambiente, a quebra de equil\u00edbrios naturais associados ao efeito de estufa, ao buraco do ozono ou aos efeitos da dissemina\u00e7\u00e3o de OGM\u2019s<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> R\u00f3mulo de Carvalho, &#8220;Hist\u00f3ria do Ensino em Portugal, desde a funda\u00e7\u00e3o da nacionalidade ao fim do regime de Salazar-Caetano&#8221;, Ed. Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1986<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Citado da obra de Filomena M\u00f3nica, Educa\u00e7\u00e3o e Sociedade no Portugal de Salazar, Lisboa, 1978<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> R\u00f3mulo de Carvalho, op.cit.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> A nota surge na publica\u00e7\u00e3o, em 1939, do texto de &#8220;A cultura integral do indiv\u00edduo&#8221;, em segunda edi\u00e7\u00e3o, em cadernos da &#8220;Seara Nova&#8221;<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Frederico Carvalho<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":3891,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[153,15,8,30],"tags":[77,57,75],"class_list":{"0":"post-3881","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ensa","8":"category-etica","9":"category-filosofia","10":"category-opi","11":"tag-ciencia-e-sociedade","12":"tag-portugues","13":"tag-valores-eticos"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3881"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6179,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881\/revisions\/6179"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}