{"id":4929,"date":"2019-08-07T12:08:49","date_gmt":"2019-08-07T11:08:49","guid":{"rendered":"https:\/\/otc.pt\/wp\/?p=4929"},"modified":"2020-01-17T11:18:07","modified_gmt":"2020-01-17T11:18:07","slug":"antolhos-cientificos-aprender-com-as-falencias-eticas-dos-fisicos-nazis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/otc.pt\/wp\/2019\/08\/07\/antolhos-cientificos-aprender-com-as-falencias-eticas-dos-fisicos-nazis\/","title":{"rendered":"Antolhos cient\u00edficos: Aprender com as fal\u00eancias \u00e9ticas dos F\u00edsicos Nazis"},"content":{"rendered":"\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Por Talia Weiss, 3 de Julho de 2019<\/strong><\/span><a href=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/2019\/07\/25\/scientific-blinders-learning-from-the-moral-failings-of-nazi-physicists\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2900 alignright\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/england-2906827_640-e1525209824996-1.png\" alt=\"\" width=\"42\" height=\"22,5\" \/><\/a><!--more--><\/p>\n<table style=\"height: 225px; width: 100%; border-style: none; border-collapse: collapse;\">\n<tbody>\n<tr style=\"border-style: none; height: 0px;\">\n<td style=\"border-style: none; width: 40%; height: 225px; text-align: left; vertical-align: top;\">\n<table style=\"width: 115%; border-collapse: collapse; border-style: none;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"width: 100%; border-style: none; text-align: right; vertical-align: top;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Os cientistas e engenheiros que hoje contribuem para os programas de moderniza\u00e7\u00e3o nuclear, ou que se dedicam a outras pesquisas ligadas \u00e0 defesa, podem sentir que t\u00eam pouco em comum com os f\u00edsicos que trabalhavam para o governo alem\u00e3o durante a Segunda Guerra Mundial. O mesmo poder\u00e1 ser dito de cientistas que hoje se dedicam ao desenvolvimento de certas tecnologias emergentes, como a intelig\u00eancia artificial ou novas t\u00e9cnicas de engenharia gen\u00e9tica, muito prometedoras, mas que podem tamb\u00e9m ser utilizadas para o mal. E a verdade \u00e9 que aos investigadores que trabalham em tecnologias militares de ponta se colocam as mesmas quest\u00f5es que os f\u00edsicos nucleares enfrentavam no Terceiro Reich: Como cientistas, como poderemos evitar tomar, ou trope\u00e7ar, em decis\u00f5es que causar\u00e3o mais danos do que benef\u00edcios? E quando \u00e9 nossa a responsabilidade de questionar, contestar ou retirarmo-nos de um projecto de investiga\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">As press\u00f5es que levam os cientistas a n\u00e3o dar aten\u00e7\u00e3o a essas quest\u00f5es s\u00e3o, compreensivelmente, mais fortes para aqueles que est\u00e3o em in\u00edcio de carreira, e podem achar que n\u00e3o t\u00eam o estatuto (ou alternativas de emprego) que lhes permita rejeitar oportunidades interessantes de pesquisa. Como jovem cientista que procura estar consciente do seu impacto futuro, tenho um interesse pessoal nesta quest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\"><strong>O &#8220;Clube do Ur\u00e2nio&#8221; da Alemanha nazi<\/strong>. A hist\u00f3ria dos f\u00edsicos alem\u00e3es do tempo da Segunda Guerra Mundial oferece-nos um exemplo forte de como cientistas de talento podem vir a trabalhar para um sistema imoral e contribuir para o seu avan\u00e7o. Muitos dos f\u00edsicos de primeira linha da Alemanha opuseram-se \u00e0s pol\u00edticas do regime nazi. <\/span><a style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\" href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/Heisenberg_s_War.html?id=E9DaAAAAMAAJ\">Werner Heisenberg<\/a><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\">, um dos principais arquitectos da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, acreditava que a vit\u00f3ria de Hitler seria uma calamidade, e tanto Carl von Weizs\u00e4cker como Karl Wirtz (entre outros) viam a posse da arma at\u00f3mica pelos nazis como uma perspectiva preocupante \u2014 o que transparece de <\/span><a style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\" href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/Operation_Epsilon.html?id=pzNjntMMq-oC\">conversas com colegas<\/a><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\">.\u00a0<\/span>De acordo com Heisenberg, at\u00e9 mesmo Walther Gerlach, cientista e patriota indefect\u00edvel &#8220;apercebeu-se (<em>por volta de 1945<\/em>) dos crimes dos nazis e desaprovou-os&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\">No entanto, estes cientistas at\u00f3micos trabalharam activamente para o governo. Heisenberg e Kurt Diebner lideraram, cada um deles, uma equipa de f\u00edsicos num<\/span><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\">\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/Physics_and_National_Socialism.html?id=xbZDAAAAQBAJ\">esfor\u00e7o de guerra<\/a><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\"> para tirar partido da energia produzida pela cis\u00e3o nuclear \u2014 um processo que o seu colega Otto Hahn havia descoberto em 1938. Quase todos os principais f\u00edsicos alem\u00e3es trabalharam para esse programa secreto nazi, conhecido como o &#8220;<\/span><a href=\"https:\/\/www.atomicheritage.org\/history\/german-atomic-bomb-project\">Clube\u00a0 do Ur\u00e2nio<\/a><span style=\"font-family: inherit; font-weight: inherit;\">.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Os objectivos exactos do programa nuclear eram obscuros. A possibilidade de que o Clube de Ur\u00e2nio pudesse vir a construir uma bomba at\u00f3mica esteve certamente sobre a mesa e era reconhecido pelos seus membros desde o in\u00edcio. Em 1939, o f\u00edsico Paul Harteck alertou o Minist\u00e9rio de Guerra nazi para as aplica\u00e7\u00f5es militares da cis\u00e3o nuclear. Em uma confer\u00eancia dias depois de Hitler ter invadido a Pol\u00f3nia, outros cientistas do Clube do Ur\u00e2nio dirigiram \u00e0 comunidade dos f\u00edsicos um pedido premente para trabalhar no desenvolvimento de uma bomba (de acordo com Harteck e Erich Bagge).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Alguns dos investigadores do programa trabalharam especificamente em tecnologias de enriquecimento de ur\u00e2nio que poderiam ter produzido combust\u00edvel para uma arma. Na pr\u00e1tica, no entanto, o Clube do Ur\u00e2nio dedicou-se sobretudo ao projecto de engenharia de um reactor nuclear, porque o objectivo de montar uma bomba foi considerado impratic\u00e1vel no curto prazo. O projecto fez progressos consider\u00e1veis para chegar ao seu \u201cmotor\u201d (ou reactor), mas n\u00e3o obteve sucesso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Os objectivos exactos do programa nuclear eram obscuros. A possibilidade de que o Clube de Ur\u00e2nio pudesse vir a construir uma bomba at\u00f3mica esteve certamente sobre a mesa e era reconhecido pelos seus membros desde o in\u00edcio. Em 1939, o f\u00edsico Paul Harteck <a href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/Uncertainty.html?id=ttP1wJFO1IkC\">alertou o Minist\u00e9rio de Guerra nazi<\/a> para as aplica\u00e7\u00f5es militares da cis\u00e3o nuclear. Em uma confer\u00eancia dias depois de Hitler ter invadido a Pol\u00f3nia, outros cientistas do Clube do Ur\u00e2nio dirigiram \u00e0 comunidade dos f\u00edsicos um pedido premente para trabalhar no desenvolvimento de uma bomba (de acordo com Harteck e Erich Bagge).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Alguns dos investigadores do programa trabalharam especificamente em tecnologias de enriquecimento de ur\u00e2nio que poderiam ter produzido combust\u00edvel para uma arma. Na pr\u00e1tica, no entanto, o Clube do Ur\u00e2nio dedicou-se sobretudo ao projecto de engenharia de um reactor nuclear, porque o objectivo de montar uma bomba foi considerado impratic\u00e1vel no curto prazo. O projecto fez progressos consider\u00e1veis para chegar ao seu \u201cmotor\u201d (ou reactor), mas n\u00e3o obteve sucesso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13pt;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4724\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/German_Experimental_Pile_-_Haigerloch_-_April_1945-2.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/German_Experimental_Pile_-_Haigerloch_-_April_1945-2.jpg 650w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/German_Experimental_Pile_-_Haigerloch_-_April_1945-2-300x228.jpg 300w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/German_Experimental_Pile_-_Haigerloch_-_April_1945-2-80x60.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Abril de 1945, soldados aliados desmantelam a pilha nuclear experimental em Haigerloch, onde cientistas alem\u00e3es tentaram construir um reactor. Cr\u00e9dito: Mickey Thurgood \/ Ex\u00e9rcito dos EUA.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o do reactor: um empreendimento pol\u00edtico<\/strong>. Apesar dos escr\u00fapulos morais que o regime nazi levantava, os f\u00edsicos alem\u00e3es, em larga medida, n\u00e3o conseguiram recusar-se a trabalhar para o governo \u2014 <a href=\"https:\/\/www.atomicheritage.org\/profile\/otto-hahn\">Hahn<\/a> e <a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/pdf\/10.1098\/rsbm.1960.0028\">Max von Laue<\/a> foram excep\u00e7\u00f5es not\u00e1veis. (Hahn estava marginalmente envolvido no projecto, sendo o seu grau de envolvimento objecto de debate entre os historiadores.) Mas uma vez que os investigadores estavam concentrados na constru\u00e7\u00e3o de um reactor, n\u00e3o de uma bomba, ser\u00e1 aceit\u00e1vel desculpar as suas ac\u00e7\u00f5es como parte de um esfor\u00e7o puramente cient\u00edfico?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Uma tal justifica\u00e7\u00e3o tem algumas falhas graves. Por um lado, trabalhar no seio do sistema nazi era automaticamente um acto pol\u00edtico, porque representava um apoio ao regime. Al\u00e9m disso, os f\u00edsicos do Clube do Ur\u00e2nio estavam cientes de que o esfor\u00e7o de guerra nazi poderia lucrar com a energia fornecida por um reactor secreto. Gerlach <a href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/Operation_Epsilon.html?id=pzNjntMMq-oC\">disse aos colegas<\/a> que havia assegurado \u00e0s autoridades nazis: &#8220;Na minha opini\u00e3o, um pol\u00edtico que disponha de um tal dispositivo pode conseguir o que quiser&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Os cientistas tamb\u00e9m entenderam que o reactor produziria res\u00edduos que poderiam ser reprocessados para obter plut\u00f3nio \u2014 na estimativa de Diebner, em quantidade suficiente para produzir uma bomba nuclear dentro de dois anos. Heisenberg e Harteck j\u00e1 tinham trabalhado em projectos de bombas. Se os nazis tivessem triunfado na Segunda Guerra Mundial, provavelmente teriam tempo para construir uma arma nuclear \u2014 usando o conhecimento e os materiais produzidos pelo Clube de Ur\u00e2nio \u2014 a usar contra inimigos de Hitler num conflito posterior. O programa nuclear alem\u00e3o era, portanto, n\u00e3o apenas um empreendimento cient\u00edfico, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">O que levou esses cientistas at\u00f3micos a trabalhar na energia nuclear para um regime maldito? Os investigadores pareciam quase exclusivamente concentrados no seu objectivo cient\u00edfico \u2014 fazer avan\u00e7ar a f\u00edsica alem\u00e3. Trabalhar para os nazis deu-lhes uma oportunidade para o fazer. Esse zelo t\u00e9cnico e inovador parece t\u00ea-los cegado a considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">De facto, quando estava a tornar-se claro que a Alemanha nazi perderia a Segunda Guerra Mundial, os pesquisadores do Clube do Ur\u00e2nio n\u00e3o mostravam sinais de resigna\u00e7\u00e3o, mas, ao contr\u00e1rio, <a href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/Nazi_Science.html?id=2HXJVlGo-e8C\">trabalharam ainda mais<\/a>. Isso indica at\u00e9 que ponto esses cientistas agiram como se a sua \u00fanica responsabilidade fosse a de promover a f\u00edsica alem\u00e3.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><strong>Uma conversa reveladora<\/strong>. Para entender as mentalidades de dez principais f\u00edsicos alem\u00e3es durante a Segunda Guerra Mundial, os historiadores podem observar as suas reac\u00e7\u00f5es \u00e0 not\u00edcia de que os Estados Unidos haviam aperfei\u00e7oado um engenho nuclear e o lan\u00e7aram sobre Hiroshima em 6 de Agosto de 1945. (Nessa altura, as for\u00e7as aliadas tinham capturado oito cientistas alem\u00e3es que trabalharam no projecto nuclear nazi, bem como Hahn e von Laue, e mantinham-nos em deten\u00e7\u00e3o numa mans\u00e3o inglesa chamada <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/00963402.1992.11460100\">Farm Hall<\/a>, onde as suas conversas eram secretamente gravadas.) Naquela noite de Agosto, chocados com o bombardeamento at\u00f3mico, os f\u00edsicos reflectiam sobre suas pr\u00f3prias decis\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Gerlach perguntou aos seus colegas: &#8220;Para que fim est\u00e1vamos a trabalhar?&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Hahn respondeu: \u201cPara construir um dispositivo, para produzir elementos, calcular o peso dos \u00e1tomos, ter um espectr\u00f3grafo de massa e elementos radioactivos que substitu\u00edssem o r\u00e1dio\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Essa troca de ideias \u00e9 impressionante por duas raz\u00f5es: primeiro, a \u00eanfase de Hahn em objectivos t\u00e9cnicos \u2014 ele n\u00e3o faz nenhuma men\u00e7\u00e3o ao Partido Nazi, ao p\u00fablico alem\u00e3o ou \u00e0 guerra \u2014 mostra-se estreitamente focado no progresso cient\u00edfico. Em segundo lugar, a pergunta de Gerlach exemplifica como, na Farm Hall, a quest\u00e3o do que era certo e do que era errado parecia emergir pela primeira vez \u2014 como se os f\u00edsicos nunca a tivessem abordado durante anos de trabalho em conjunto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4723\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/FarmHallLarge.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"627\" srcset=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/FarmHallLarge.jpg 800w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/FarmHallLarge-300x235.jpg 300w, https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/FarmHallLarge-768x602.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">A propriedade Farm Hall em Inglaterra, onde f\u00edsicos alem\u00e3es de alto n\u00edvel capturados durante a Segunda Guerra Mundial discutiram as implica\u00e7\u00f5es morais do bombardeio de Hiroshima. Cr\u00e9dito: Arquivos Nacionais<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">As palavras dos prisioneiros do Clube do Ur\u00e2nio no Farm Hall revelam o intenso desejo de sucesso cient\u00edfico. Quando o grupo ouve na r\u00e1dio um an\u00fancio oficial descrevendo o bombardeamento de Hiroshima, reage com frenesim, todos a falar ao mesmo tempo, para entender que escolhas t\u00e9cnicas permitiram que os Aliados tivessem sucesso onde eles tinham falhado. Heisenberg, Diebner, Harteck, Wirtz, Weizs\u00e4cker e outros, colocaram-se um ros\u00e1rio de perguntas: teriam os americanos usado ur\u00e2nio ou plut\u00f3nio como combust\u00edvel? Se fosse o caso do primeiro teriam enriquecido ur\u00e2nio com centr\u00edfugas? Usando difus\u00e3o gasosa? Espectr\u00f3grafos de massa? Usando processos fotoqu\u00edmicos? Quanto material foi necess\u00e1rio para desencadear uma reac\u00e7\u00e3o em cadeia explosiva? Horas mais tarde, a meio da noite, Gerlach ainda reflectia: &#8220;Realmente gostaria de saber como \u00e9 que eles o fizeram.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Os f\u00edsicos alem\u00e3es fixaram-se na ci\u00eancia por detr\u00e1s do avan\u00e7o t\u00e9cnico nuclear porque temiam que a sua pr\u00f3pria falta de criatividade pudesse explicar por que raz\u00e3o os americanos tinham avan\u00e7ado muito para al\u00e9m deles. Ao produzir ur\u00e2nio utiliz\u00e1vel em armas, Harteck ponderou: \u201cSe eles o fizeram usando espectr\u00f3grafos de massa, n\u00e3o podemos ser culpados. N\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos fazer isso. Mas se eles fizeram isso usando um qualquer estratagema, isso incomodar-me-ia.\u201d Heisenberg tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o semelhante. Observou: \u201cNo caso das inven\u00e7\u00f5es, as surpresas s\u00f3 podem realmente acontecer com pessoas que n\u00e3o tivessem tido nada a ver com o tema. \u00c9 um pouco estranho [que nos pudesse ter escapado alguma coisa] depois de termos estado a trabalhar no assunto durante cinco anos.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><strong>Confus\u00e3o moral<\/strong>. Na Farm Hall, a primeira reac\u00e7\u00e3o dos f\u00edsicos \u00e0 reportagem de Hiroshima foi uma discuss\u00e3o cient\u00edfica, mas a sua segunda resposta foi pol\u00edtica. Os cientistas at\u00f3micos alem\u00e3es pareciam perceber, talvez pela primeira vez, que uma grande confus\u00e3o moral envolvia o seu trabalho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">\u00c0 medida que a noite avan\u00e7ava, mais e mais perguntas sobre justi\u00e7a e \u00e9tica ocorreram aos f\u00edsicos: as armas at\u00f3micas s\u00e3o inerentemente desumanas e nunca deveriam ser usadas? Se os alem\u00e3es tivessem adquirido tais armas, qual seria o destino do mundo? O que significa o verdadeiro patriotismo na Alemanha nazi \u2014 trabalhar para o sucesso do regime ou para a sua derrota? Os cientistas exprimiram surpresa e perplexidade com as opini\u00f5es de colegas seus, e as suas pr\u00f3prias opini\u00f5es evolu\u00edram por vezes de um momento para o outro. As opini\u00f5es dispersas e vol\u00faveis registadas nas transcri\u00e7\u00f5es da Farm Hall mostram que, nos cinco anos do programa nuclear nazi, os f\u00edsicos alem\u00e3es provavelmente n\u00e3o conseguiram dar uma resposta satisfat\u00f3ria a essas quest\u00f5es cr\u00edticas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Ao fugirem a pensar para al\u00e9m do projecto que tinham \u00e0 sua frente, esses investigadores agiram como se a lealdade a uma disciplina cient\u00edfica tornasse irrelevante a sua lealdade aos nazis. Se, em 1939, se tivessem preocupado seriamente com as quest\u00f5es que acabaram por debater em Farm Hall, esses f\u00edsicos poderiam ter tomado decis\u00f5es diferentes. Talvez muitos se tivessem afastado completamente do projecto nuclear, como fez Hahn, ou pronunciado abertamente contra ele, como fez von Laue.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><strong>Enfrentando as consequ\u00eancias da investiga\u00e7\u00e3o hoje.<\/strong> Hoje, olhar para o Clube do Ur\u00e2nio serve para nos lembrar a n\u00f3s cientistas de como \u00e9 f\u00e1cil concentrar-se em quest\u00f5es t\u00e9cnicas e evitar considerar aspectos morais. Isto \u00e9 especialmente verdadeiro quando as quest\u00f5es morais s\u00e3o desconcertantes, quando qualquer impacto negativo parece distante, e quando a ci\u00eancia \u00e9 apaixonante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Tradicionalmente espera-se dos cientistas um papel limitado: realizar trabalho de investiga\u00e7\u00e3o e desenvolvimento, dar aconselhamento sobre problemas t\u00e9cnicos e ignorar a pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Quase todos os f\u00edsicos nucleares alem\u00e3es optaram por assumir esse papel. Mas, como a hist\u00f3ria nos lembra, os investigadores n\u00e3o podem divorciar das implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de seu trabalho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">O caso dos f\u00edsicos alem\u00e3es revela at\u00e9 onde a tend\u00eancia para dar prioridade \u00e0 ci\u00eancia nos pode levar. Sugere que esse tipo de cumplicidade pode acontecer novamente \u2014 e sem d\u00favida acontece, em alguma medida, constantemente. Por exemplo, engenheiros que desenvolvem sistemas de rastreio ou de reconhecimento facial podem estar a criar ferramentas que regimes repressivos venham a adquirir com a inten\u00e7\u00e3o de espiar e suprimir dissidentes. Consequentemente, esses investigadores t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o certa de ponderar o seu papel e o impacto do seu trabalho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">O meu recente estudo pessoal das transcri\u00e7\u00f5es de Farm Hall levou-me a considerar essa quest\u00e3o ao ponderar as minhas pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es de carreira. Ao ler an\u00fancios de emprego para jovens f\u00edsicos, notei que em muitos casos se poderiam levantar quest\u00f5es \u00e9ticas (embora haja que fazer um debate sobre se sim ou n\u00e3o se dever\u00e3o rejeitar tais trabalhos). Est\u00e3o nesse caso ofertas de emprego que incluam, por exemplo, trabalhar como engenheiro desenvolvendo tecnologia para drones militares ou trabalhar na manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do arsenal nuclear dos EUA.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Alguns cientistas, especialmente aqueles cujo peso profissional \u00e9 limitado, podem objectar: \u201cSe eu n\u00e3o aceitar esse trabalho, algu\u00e9m o far\u00e1 \u2014 ent\u00e3o a minha decis\u00e3o n\u00e3o tem nenhum impacto moral real\u201d. A meu ver, uma reflex\u00e3o s\u00e9ria sobre o contexto social de um posto de trabalho como investigador pode levar um ou uma cientista a aceitar o lugar \u2014 <em>mas<\/em> chamando a si a responsabilidade de ajudar a restringir inova\u00e7\u00f5es impensadas no trabalho, levantando quest\u00f5es sobre se cada caracter\u00edstica t\u00e9cnica que possa ser acrescentada deve, de facto, ser implementada. (O mesmo \u00e9 v\u00e1lido para saber se certas linhas de investiga\u00e7\u00e3o devem ser prosseguidas e certos resultados publicados.) Acresce que, em casos em que para um grupo de investigadores a melhor atitude possa ser a de recusar liminarmente um dom\u00ednio de investiga\u00e7\u00e3o ou um empregador, uma decis\u00e3o pessoal de n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o moralmente duvidosa pode levar amigos e colegas a reavaliar a natureza das suas pr\u00f3prias responsabilidades. Escolhas individuais podem propagar-se como uma onda. Uma pergunta que cada um de n\u00f3s cientistas deve colocar-se \u00e9: &#8220;Quero contribuir para uma cultura de complac\u00eancia ou de questionamento?&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\">Olhando para o futuro, os cientistas n\u00e3o deveriam ter que esperar por algum cataclismo de origem humana (mesmo um muito menos devastador do que os bombardeamentos at\u00f3micos de 1945) para interiorizar e confrontar-se com as implica\u00e7\u00f5es morais do nosso trabalho. O desafio para cada um de n\u00f3s, ao avan\u00e7ar, \u00e9 perguntarmo-nos e perguntar uns aos outros: &#8220;Para que fim estamos a trabalhar?&#8221; desejavelmente muito mais cedo no decurso de um processo de pesquisa do que o fez o alem\u00e3o Walther Gerlach.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><strong>Palavras-chave<\/strong>: <a href=\"https:\/\/thebulletin.org\/tag\/nazi-germany\/\">Alemanha nazi<\/a>, <a href=\"https:\/\/thebulletin.org\/tag\/world-war-ii\/\">Segunda Guerra Mundial<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><strong>T\u00f3picos<\/strong>: <a href=\"https:\/\/thebulletin.org\/nuclear-risk\/\">Risco Nuclear<\/a>, <a href=\"https:\/\/thebulletin.org\/nuclear-risk\/nuclear-weapons\/\">Armas Nucleares<\/a>, <a href=\"https:\/\/thebulletin.org\/voices-of-tomorrow\/\">Vozes do Amanh\u00e3<\/a><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><em>O presente artigo foi originalmente publicado no Bulletin of the Atomic Scientists, em 3 de Julho de 2019<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">(<a href=\"https:\/\/thebulletin.org\/2019\/07\/scientific-blinders\/#sf_form_salesforce_w2l_lead_1\"><strong>https:\/\/thebulletin.org\/2019\/07\/scientific-blinders\/#sf_form_salesforce_w2l_lead_1<\/strong><\/a>)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13pt;\"><em>A OTC agradece ao Bulletin of the Atomic Scientists a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o para esta republica\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas (tradu\u00e7\u00e3o OTC)<\/em><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"width: 20.7296%; text-align: justify; border-style: none;\">\u00a0<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"border-style: none; width: 35%; height: 225px; text-align: left; vertical-align: top;\" colspan=\"2\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/?p=4943\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4744 aligncenter\" src=\"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Talia_p.png\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"248\" \/><\/a><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":4722,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"template-full.php","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,15,33],"tags":[77,57,75],"class_list":{"0":"post-4929","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-sc-soc","8":"category-etica","9":"category-problema","10":"tag-ciencia-e-sociedade","11":"tag-portugues","12":"tag-valores-eticos"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4929"}],"version-history":[{"count":49,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4929\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5310,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4929\/revisions\/5310"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/otc.pt\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}