PELA PAZ, MUDAR DE RUMO
Frederico Carvalho
29 de Maio de 2026
Intervenção na sessão pública promovida pelo Conselho Português para a Paz e a Cooperação nos 50 anos da Constituição da República Portuguesa e da formalização daquele Conselho
Caras amigas e caros amigos,
Na nossa casa comum — o nosso planeta Terra — vive-se hoje um momento de extrema turbulência carregado de enormes riscos. Verifica-se um crescimento sem precedentes, desde os finais da segunda guerra mundial, da violência, sob diversas formas. O Instituto de Investigação da Paz, de Oslo, registava em 2024 mais de 6 dezenas de conflitos armados envolvendo 36 países: o maior número de conflitos armados entre Estados em mais de sete décadas. Hoje a situação não é melhor.
Quando se fala de violência não se trata apenas de guerra, Pensemos na violência que alimenta a crescente desigualdade na distribuição da riqueza, criada pelo trabalho humano, e a sua acumulação nas mãos de uma ínfima minoria que detém, por isso, um poder desproporcionado de influência sobre os destinos da sociedade e do mundo. Em tempos de Paz como em tempos de guerra. Um caso exemplar é o que se revela na decisão de negar ou facultar o acesso à utilização da plataforma de satélites Starlink, ao sabor dos interesses do seu proprietário, Elon Musk, que se diz ser o homem mais rico do mundo. Uma decisão que pode condicionar a evolução de um conflito militar como acontece no caso da trágica guerra que hoje se vive no leste europeu.
Ao longo da História, a guerra sempre acompanhou a humanidade. Mas muito mudou desde a concepção da metralhadora de Leonardo da Vinci, até à operação do primeiro reactor nuclear que tornou famoso Enrico Fermi.
Avaliando os resultados da desgraçada “experiência” (não estranhemos o termo) que foi a utilização da arma atómica em Hiroshima e Nagasaki, Albert Einstein escreveu, numa carta. que ficou famosa. dirigida a um grupo de personalidades norte-americanas influentes (cito): ” A libertação do poder do átomo mudou tudo, excepto as nossas formas de pensar, e assim caminhamos para uma catástrofe sem precedentes.”
Nos dias que vivemos não deve ser descurado este aviso. Pela primeira vez na História tem-se nas mãos um instrumento que, a ser usado, pode pôr em causa a própria existência da vida sobre a Terra. O holocausto nuclear é uma ameaça existencial que não deve ser ignorada, tanto mais que o desastre esteve, no passado, próximo de acontecer, por erro humano ou falência técnica. Os múltiplos conflitos em curso, activos ou latentes, a evolução da guerra dita convencional para as formas “modernas” de guerra híbrida ou assimétrica, que são claramente fruto de aplicações perversas de avanços tecnológicos que a ciência proporcionou, não contribuem para atenuar, antes aumentam, os riscos de um desvio insensato para o recurso à arma nuclear. Tanto mais — importa notá-lo — que assistimos à total desconstrução do edifício, penosamente erguido nos anos da chamada “guerra fria” e da década que se lhe seguiu, dos tratados bilaterais negociados entre as duas maiores potências nucleares, base em que assentava a chamada “dissuasão nuclear”.
Em aparte, simplesmente — dada a natureza do debate que estamos a ter aqui, em que, diria, a Paz e a acção pela Paz, são tema central — uma palavra apenas para lembrar a presença de uma outra ameaça existencial que importa sobretudo à geração mais jovem: refiro-me às alterações climáticas.
A proliferação de eventos climáticos extremos atribuíveis à actividade humana resulta em perdas significativas de vidas e importantes danos materiais. São fenómenos que têm profundas repercussões sociais, particularmente nos países mais pobres, onde levam a deslocações populacionais em grande escala, factor de perturbação de equilíbrios geopolíticos, uma questão central no dilema guerra-paz. O caminho que trilhamos aqui não é de bom augúrio. A nível global, a generalidade das potências que mais contribuem para o agravamento das condições que favorecem as alterações climáticas, não vem adoptando, em tempo útil e com a extensão necessária, as medidas de mitigação que, em muitos casos, se comprometeram a adoptar. Não falando já daqueles casos quase patológicos de negação pura e simples da origem antropogénica da mudança climática. E importa sublinhar e ter consciência do facto de que as guerras, tal como certas indústrias e outras actividades humanas, contribuem significativamente para as condições que favorecem as alterações climáticas.
Interesses poderosos opõem-se aos esforços de mitigação dessas alterações. A disrupção ecológica – uma consequência das alterações climáticas – prossegue o seu caminho. Entre os poderosos interesses que resistem à transição encontramos, sem surpresa, o lobby dos combustíveis fósseis e os complexos militar-industriais.
Pode perguntar-se se a luta pela Paz, mas também os esforços para um significativo e consequente combate ao fenómeno das alterações climáticas, podem ter sucesso no contexto de uma globalização imperialista dominada pela ditadura do grande capital. A resposta é, provavelmente: não. O grande capital precisa da guerra e lucra com ela, directa e indirectamente, neste caso pela necessidade de reconstrução dos bens materiais destruídos pela guerra. Assim, parece-nos não ser exagero afirmar que só uma profunda transformação social poderá afastar aquelas ameaças existenciais e garantir um futuro viável para a vida na Terra.
Referimo-nos atrás a formas de guerra ditas “modernas”. Fala-se correntemente de guerra híbrida ou assimétrica que se distingue da guerra dita convencional. Em todos os casos o que está em mente são as formas de combater o inimigo.
Na guerra convencional há forças e equipamentos directamente operados por humanos que se defrontam numa frente de batalha pela conquista de territórios, A guerra moderna combina a força militar convencional com métodos não convencionais e não militares — como ciberataques, desinformação, sanções económicas, interferência em processos eleitorais — procurando explorar vulnerabilidades do adversário sem recorrer a uma guerra aberta e de grande escala, muitas vezes esbatendo a linha de separação entre paz e guerra.
Uma questão particularmente séria é a da possível utilização de armas nucleares. Vários analistas credenciados admitem a possibilidade do recurso à arma nuclear por Israel, que se crê dispor de um arsenal de cerca de uma centena de ogivas nucleares incluindo armas tácticas. Em seu entender o eventual recurso à arma nuclear dependeria de uma evolução do conflito actualmente em curso no Médio Oriente que fosse considerada por Israel como pondo em causa a sua existência como Estado viável.
A guerra que hoje se vive no Médio-Oriente é razão para temer o futuro. A guerra contra ao Irão, desencadeada pelos EUA em parceria com Israel, é justamente considerada como tendo sido instigada pelo segundo. O seu desenlace e as condições em que surgirá, são hoje uma incógnita. É certo, todavia, que, nesta altura, o parceiro de além-atlântica procura desesperadamente um caminho para se retirar do palco sem perder a face. Não previra, mau grado o aconselhamento dos seus próximos, em quem não parece confiar, nomeadamente, altos responsáveis do aparelho militar estado-unidense, não previra, dizia, a extraordinária resiliência e capacidade de sofrimento do opositor e da sua aparentemente inesperada capacidade de construção de uma estratégia de resistência inteligente.
O caminho que está neste momento a ser seguido, que não é de guerra convencional, caso prossiga, levará a não muito longo prazo a uma catástrofe global nos planos económico e social. Catástrofe que como se compreenderá será, em primeiro lugar, económica, consequência dos constrangimentos impostos ao transporte entre continentes de toda uma gama de produtos industriais e produtos da terra, desde logo combustíveis fósseis e seus derivados, mas também, fertilizantes de que depende a produção de alimentos, ou, ainda, medicamentos. Acresce que a destruição insensata, total ou parcial, de um bom número infra-estruturas industriais nas regiões afectada pela guerra, levará a que, mesmo após o fim desta, a situação exija tempo. Tempo que pode não ser curto, até que a situação anterior possa ser restabelecida.
Estamos num barco, comparado por analistas de referência, ao tristemente famoso Titanic, a navegar numa rota de aproximação ao iceberg.
Uma nota, ainda, para dizer que, entretanto, não parece ser tanto essa a questão que leva ao desespero do Presidente dos Estados Unidos da América, mas sobretudo o seu futuro político.
Parece-nos, neste quadro sobre o qual nos debruçamos, que o perigo principal pode estar em Israel. O comportamento de Israel na sua perseguição ao ideal de construir o Grande Israel, sem olhar a meios, é condenável para além de qualquer limite
O armamento nuclear na posse de Israel, inclui, de acordo com a informação disponível, explosivos de diversos tipos: armas tácticas, estratégicas, bombas de neutrões, e os meios para as lançar do ar ou por mísseis. O número de explosivos é estimado em, pelo menos, uma centena.
De acordo com a informação disponível a República Islâmica do Irão, dispõe de cerca de 450 t de urânio enriquecido a 60%. O enriquecimento deste urânio a pelo menos 90% em Urânio 235, dito urânio de qualidade militar, pode ser feito em poucas semanas. Dispõe também de cerca de 210 t de combustível nuclear usado, do qual podem ser extraídas cerca de 2 t de plutónio. O bastante para obter 200 explosivos nucleares (a homba de Nagasaki continha 6,2 kg de Plutónio).
Acredita-se que, ao contrário do que foi repetidamente afirmado pela administração norte-americana, o Irão mantem capacidade de enriquecimento bastante para obter urânio de qualidade militar. Se esta se mantiver após um eventual acordo de paz que os EUA relutantemente considerem ser do seu interesse aceitar, Israel pode decidir recorrer ao arsenal nuclear de que dispõe. Se o fizer o resultado seria desastroso e não se limitaria ao Irão já que a contaminação radioactiva que provocaria poderá espalhar-se por uma vasta região do Médio-Oriente, dependendo dos ventos dominantes.
Há cerca de uma semana, em 23 de Abril, O Ministro da Defesa de Israel, na esteira de um comentário análogo de Donald Trump, declarou estar pronto para “devolver o Irão e o seu povo à idade da pedra” apenas aguardando “luz verde” do Presidente dos Estrados Unidos[1].
Mesmo assim, acrescentamos, não será uma garantia definitiva de sucesso pois todos nós incluindo o ministro da defesa de Israel somos descendentes daqueles nossos semelhantes que nesses tempos remotos habitavam o planeta.
Gostaria de terminar com duas citações.
A primeira, é de um discurso público do Ministro israelita da Defesa Yoav Gallant, e foi proferida a seguir ao 7 de Outubro de 2023, no início da campanha genocida contra o povo Palestino. Disse então:
“Estamos a impor um cerco total a Gaza. Não haverá electricidade, comida, água ou combustível. Tudo estará fechado. Estamos a combater animais humanos e estamos a agir de acordo com isso”. [2]
A segunda citação é de Lula da Silva, no encerramento da 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global, em Barcelona, em 18 de Abril último. Disse ele, a propósito do passar dos anos:
“Hoje eu tenho 80, o ano que vem vou ter 81. Mas isso não é o que envelhece as pessoas.
O que envelhece as pessoas são as pessoas perderem a motivação, perderem uma causa. Se todos nós levantarmos de manhã com uma causa, para defender uma causa, a gente não fica velho. Eu digo para vocês que eu me sinto hoje igual quando eu tinha 50 anos de idade, porque eu tenho uma causa.
A minha causa é a democracia. A minha causa é a liberdade. A minha causa é a igualdade”[3].
Permitam-me acrescentar: “A minha causa é a Paz e pela Paz todos não somos demais”
Obrigado pela vossa atenção.
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Imagem gerada por IA (Google Gemini).
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[1] https://executivedigest.sapo.pt/israel-diz-que-esta-pronto-para-devolver-irao-a-idade-da-pedra-e-espera-luz-verde-dos-eua/
[2] https://www.youtube.com/watch?v=ReZEJPwrM1k
[3] https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos-e-pronunciamentos/pronunciamento-do-presidente-lula-no-encerramento-da-1a-reuniao-da-mobilizacao-progressista-global