Tratamento indigno de professor jubilado – Universidade dos Açores

COMUNICADO CONJUNTO OTC-FENPROF

 

Aos órgãos da Comunicação Social

Face ao comportamento indigno por parte da Universidade dos Açores em relação a um seu professor catedrático jubilado, despejado do gabinete que mantinha naquela universidade, no próprio dia em que recebeu a comunicação para o esvaziar até essa data, a Organização dos Trabalhadores Científicos – OTC e a Federação Nacional dos Professores – FENPROF, emitiram o seguinte comunicado:

 

O Homem, a Instituição e o respeito pela dignidade

Victor-Hugo Forjaz, professor e investigador, ingressou em 1981 na Universidade dos Açores, na qual durante 15 anos dirigiu o departamento de Geociências, tendo mantido vínculo à universidade até 2010, ano em que se jubilou na categoria de professor catedrático, ao atingir a idade de 70 anos. Desde então, permaneceu ativo e cientificamente produtivo com trabalho reconhecido no nosso país, onde dirige o Observatório Vulcanológico dos Açores, e no estrangeiro.

Manteve um gabinete próprio que acolhe um espólio científico considerável de interesse geral, onde se destacam livros especializados (alguns raros), estudos e relatórios, amostras estudadas e em estudo, muitas recolhidas no decurso de missões científicas, textos em preparação para publicação no país e no estrangeiro. É um vasto espólio resultado de dezenas de anos de investigação e ensino, em parte com a confidencialidade própria de uma atividade científica e técnica muito específica.

A 27 de Setembro último, Victor-Hugo Forjaz recebe da Administração da Universidade um ofício datado de uma semana antes, que o intima a retirar do interior do seu gabinete “algum material que poderá ser do seu interesse reaver”, fixando como data limite para o despejo o mesmo dia 27 de Setembro. Após essa data ― acrescenta-se no referido ofício ―, não se verificando a retirada do “material”, a Administração removê-lo-á para lugar apropriado onde permanecerá até final do ano “devidamente acondicionado”. Depois não se sabe. O futuro a Deus pertence ou, melhor, à Administração.

No mesmo dia segue a resposta do Professor Victor-Hugo Forjaz que refere ter sido a determinação do “despejo unilateral do (seu) gabinete de trabalho na Universidade dos Açores tomada sem qualquer diálogo com o próprio como seria da “mais elementar justiça”, concedendo ao interessado um prazo de retirada viável do espólio em questão, tanto mais que a idade e as condições físicas ― doença crónica com múltiplas complicações do foro cardiovascular ― clinicamente atestadas, desaconselham mesmo pequenos esforços físicos mas também situações perturbadoras do equilíbrio emocional da pessoa.

Victor-Hugo Forjaz não se arroga o direito ao espaço que lhe fora atribuído há mais de uma década e não se opõe ao “despejo”. Considera sim, como nós, que deve ser tratado com o respeito devido a qualquer cidadão. Respeito e consideração pela dignidade da pessoa que é, além disso, alguém com um passado de longos anos de serviço público de mérito excecional.

A resposta da Administração fez-se esperar e só foi recebida a 2 de Novembro, na forma de um curto ofício datado… de 20 de Outubro. O Ofício limitava-se a informar que o material em causa “ficará à guarda da Universidade dos Açores até que V. Ex.a possa providenciar no sentido do mesmo ser levantado”. Entretanto, no próprio dia 27 de Setembro, o “material” terá sido retirado, “encaixotado” e levado para parte incerta. A 26 de Novembro corrente, Victor-Hugo Forjaz informa-nos de que continua sem saber ”para onde levaram o meu espólio de arquivo e o que escrevia”! A justa indignação que o assalta leva-o a ponderar dirigir-se à autoridade policial apresentando “queixa de roubo”.

A indignação é de todo justificada e inqualificável o tratamento a que o Prof. Victor-Hugo Forjaz é sujeito.

Lisboa, 5 de Dezembro de 2017

O Secretariado Nacional da FENPROF
A Direção da Organização dos Trabalhadores Científicos
Em tempo: a situação acima denunciada mantinha-se sem alteração em 30 de Dezembro, último

QUEM É VICTOR-HUGO FORJAZ

Victor Hugo Forjaz nasceu na Horta, Açores, em 1940. Vulcanólogo e Professor-Catedrático do Departamento de Geociências da Universidade dos Açores. É licenciado em Ciências Geológicas, pela Faculdade de Ciências de Lisboa, doutorado em Vulcanologia de Engenharia e Agregado em Geotermia pela Universidade dos Açores (UAç). Tirou as especialidades em Riscos Geológicos e Vulcanológicos (US Geological Survey) e em Ciências Geotérmicas (Pisa, Itália).

Em 1976, fixa-se na Ilha de São Miguel, a convite da Junta Governativa, ali instalando laboratórios modernos de investigação científica. Colaborou na instalação do Instituto Universitário, depois Universidade dos Açores, a qual integrou em 1981. Foi Diretor do Programa Geotérmico dos Açores durante 15 anos. Foi diretor do Projeto Geotérmico do Vulcão do Fogo (Universidade dos Açores), Coordenador do Projeto “Furnas – Vulcão Laboratório Europeu” e da RUVS – Rede Universitária de Vigilância Vulcânica e Sísmica, base do sistema de vigilância Geológica do Arquipélago. É o atual presidente da Direcção do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (sigla OVGA).

Co-fundador da International Society of Planetology e fundador do Instituto de Geociências dos Açores. Em 1985, foi co-fundador do Centro de Vulcanologia do INIC (Instituto Nacional de Investigação Científica). Co-representante nacional na Rede Europeia de Vulcanologia da European Science Foundation).

Como bolseiro e congressista, ao longo dos anos, efetuou missões científicas aos vulcões na Europa continental, Islândia, América do Norte, América Central continental, Antilhas, Havai, Indonésia, Filipinas, Japão, etc. Foi e é um estudioso apaixonado da erupção submarina do Vulcão dos Capelinhos, na Ilha do Faial, e da Serreta, na Ilha Terceira.

Victor Forjaz é autor e co-autor de 150 publicações sendo refere de editoras europeias. É sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia de Marinha. É laureado pela Academia de Ciências de Moscovo e pelo Laboratório de Vulcanologia da Universidade de Paris. Foi-lhe atribuída a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (Descoberta e Inovação).