A transição energética necessária

 UM OLHAR SOBRE OS CAMINHOS DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NUM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO

Frederico Carvalho

Em Agosto de 2023, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período de 2024 a 2033 como “Década Internacional das Ciências para o Desenvolvimento Sustentável”. A referência ao Desenvolvimento Sustentável remete para uma agenda orientadora das acções que importa desenvolver para salvaguardar o futuro da humanidade e da própria vida sobre a terra. Trata-se de um vasto programa que se desdobra no conjunto de objectivos, ditos “Objectivos de Desenvolvimento Sustentável”, estabelecidos em 2015 pela Assembleia Geral por voto unânime de todos os países membro das Nações Unidas.[i] Os objectivos, em número de 17, reflectem uma escolha, de domínios críticos em que importa agir para resolver sérios problemas que afectam a existência e o futuro das sociedades humanas ou, no mínimo, mitigar a sua severidade: erradicar a pobreza e a fome, garantir cuidados de saúde e educação de qualidade, assegurar o acesso a água e energia. Foi assim colocada, explicitamente, a necessidade de combater desigualdades gritantes que existem hoje e se aprofundam, em vastas regiões do globo, não só entre países como no interior de cada país. Tudo isto sobre um pano de fundo em que vimos sucederem-se com crescente frequência e severidade desastres humanos e físicos associados ao fenómeno das alterações climáticas A mudança climática, considerada por muitos como a mais séria ameaça que a humanidade hoje enfrenta, poderá pôr em causa as condições de vida dos nossos filhos e netos. A preocupação é reflectida no Objectivo de Desenvolvimento Sustentável número 13: “Adoptar medidas urgentes para combater as alterações climáticas”.
No cerne da transição energética — que se impõe — coloca-se a questão do abandono dos combustíveis fósseis cuja queima é a causa principal, embora não a única, do aquecimento global que estamos a viver.
Sabemos que a própria noção de mudança climática e da sua origem antropogénica tardou a ser reconhecida como uma evidência científica e continua hoje a ser posta em dúvida por alguns e em círculos influentes, nem sempre de forma inocente.

Interessa lembrar que uma posição oficial de reconhecimento da influência humana sobre a mudança climática surge pela primeira vez nos momentos finais da Conferência do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), reunida em Madrid, em Novembro de 1995.[ii]  A formulação desse reconhecimento, por consenso, a que dificilmente se chegou, está traduzida na frase: “O conjunto das evidências sugere que existe uma influência humana notória no clima global.”
A mensagem era modesta, mas inconfundível: os humanos devem aceitar a responsabilidade pela alteração do clima do planeta.[iii]

Trinta anos passados, no recente encontro dos participantes na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) — a COP30 — não foi ainda possível assentar em compromissos sólidos sobre um escalonamento temporal dos passos a dar no caminho que deverá levar ao abandono dos combustíveis fósseis bem como sobre os meios a disponibilizar, designadamente financeiros, necessários para lá chegar.
Numa entrevista recente publicada no “Bulletin of the Atomic Scientists[iv] o cientista Michael Mann, director do Center for Science, Sustainability and the Media da Universidade da Pensilvânia, autor do gráfico conhecido por “gráfico do stick de hockey”, considerou ser aceitável, ainda hoje, admitir poder atingir-se o valor de 1,5º Celsius como limite desejável do aumento da temperatura global do planeta relativo ao respectivo valor médio anterior ao período dito da Revolução Industrial (1850-1900). Trata-se de uma meta estabelecida no Acordo de Paris em 2015.[v]
Depois do que terá sido (2025) mais um ano recorde de ondas de calor, secas, incêndios florestais e furacões, Mann defende, na referida entrevista, que “os obstáculos para manter o aquecimento global abaixo de níveis catastróficos não são físicos nem tecnológicos; são quase inteiramente políticos. Consequentemente, podem ser ultrapassados se os obstáculos políticos forem ultrapassados.”
A referência aos obstáculos políticos é correcta. Há poderosos interesses envolvidos, como é conhecido. Desde logo, directamente, os representados pelo lobby dos combustíveis fósseis, mas também, de forma indirecta, os interesses próprios dos complexos militar-industriais que, mesmo em situação de paz, dão uma contribuição significativa para a emissão de gases de efeito de estufa [vi].
Mantêm-se todavia desafios tecnológicos que importaria vencer e que se admite estar ao nosso alcance fazê-lo. Será o caso, por exemplo, dos dispositivos de fusão nuclear controlada, na geração de electricidade e calor, e também de novas tecnologias de processo de matérias primas no fabrico de cimento, e também na produção de ferro e aço, sectores industriais em que o impacto de uma possível descarbonização de processos terá um impacto significativo na redução das emissões globais de CO2. Entretanto, há progressos assinaláveis. Tem interesse destacar no que toca à energia de fusão, os dispositivos de conversão directa em electricidade sem o passo intermédio da formação de vapor para accionar uma turbina [vii] . No caso do cimento é possível trabalhar com um forno aquecido por um jacto de plasma de CO2 que é depois reciclado na instalação e volta a ser usado.
Importa dizer que a qualquer destas novas tecnologias de processamento de matérias primas estão associados elevados consumos de energia eléctrica.
Assim, é razoável dizer-se que a chave da transição energética está na disponibilidade de electricidade limpa. Mesmo em domínios em que por vezes não se pensa, como seja a preparação de alimentos. De acordo com a Agência Internacional de Energia o número de pessoas sem acesso à chamada “cozinha limpa”, “clean cooking” em inglês, anda próximo de 2000 milhões. A “cozinha suja”, passe o termo, é uma fonte de fuligem ou carbono negro que é considerado o segundo maior contribuinte para o aquecimento global depois do CO2.
Cerca de 80% do consumo mundial de energia é assegurado por combustíveis fósseis, percentagem que pouco tem variado no decurso do último meio século, embora o consumo tenha crescido substancialmente.

No que respeita à energia eléctrica, o consumo mundial em 2024, o ano mais recente para o qual a Agência Internacional de Energia apresenta números, atingiu o valor de 30 850 TWh.
Em 2000 esse mesmo total fixara-se em cerca de 15 400 TWh. Uma duplicação, portanto, no último quarto de século. A electricidade gerada a partir de fontes limpas, onde se deve incluir a energia nuclear, representava no princípio do século 36% do total. Em 2024 atingiu cerca de 40% desse total. Olhando para a evolução da contribuição das várias fontes, verifica-se que, nesse quarto de século, o grande salto em termos relativos foi dado pelo solar fotovoltaico, pela eólica e pelos biocombustíveis.

Entretanto, tudo aponta para que nos anos que seguem se mantenha a tendência para um contínuo crescimento dos consumos de energia eléctrica. O aumento dos consumos deve esperar-se e ser desejado, desde logo, como factor de superação das profundas desigualdades de condições de vida, nomeadamente, educação e saúde, e, naturalmente, rendimento per capita. Desigualdades que se vão mantendo ou mesmo agravando, em diferentes países e regiões. Cerca de 800 milhões de pessoas não têm ainda acesso à electricidade, dos quais cerca de 600 milhões no continente africano. Por outro lado, a rápida ascensão de certas tecnologias particularmente ávidas de energia eléctrica mas também de água, irá contribuir para o esperado aumento dos consumos. Um exemplo actual e muito citado é o dos centros de dados que sustentam o rápido desenvolvimento da tecnologia, promissora, mas socialmente disruptiva, que é a Inteligência Artificial[ix]. A urgência é tal que várias grandes empresas multinacionais entendem ser necessário recorrer à reentrada em funcionamento de velhas centrais nucleares, procurando simultaneamente acelerar a entrada ao serviço de novas centrais.[x]
A descarbonização do sector dos transportes, em que não nos demoraremos, tenderá naturalmente a ser um dos processos com maior peso na evolução dos consumos de energia eléctrica.

ELECTRICIDADE NUCLEAR
A utilização da energia nuclear de cisão para fins pacíficos tem uma história de quase três quartos de século [xi].
Em nosso entender a cisão nuclear deve ser vista como uma fonte de energia de transição no caminho que deve levar dos combustíveis fósseis às renováveis e à fusão nuclear.

Até hoje, as centrais nucleares são utilizadas principalmente para a geração de electricidade. Em todo o mundo, à data de 1 de Janeiro de 2025, estavam operacionais 417 reactores com uma potência eléctrica líquida de 377 GW(e). Em 2024, a electricidade gerada em centrais nucleares ascendeu a cerca de 2600 TWh ou cerca de 9% da produção mundial de electricidade nesse ano, indicando assim um factor de disponibilidade de cerca de 80%. Em de Janeiro de 2025, estavam em construção 62 reactores de potência com uma potência eléctrica líquida total de 64,5 GW. Desses, 28 estavam em construção na República Popular da China (RPC), incluindo 2 reactores reprodutores rápidos (“fast breeder”) e 7 na Índia (1 reactor reprodutor rápido). O tempo médio de construção dos reactores que entraram em funcionamento após 2000 foi de 6 anos e 7 meses [xii]. Não será por aqui que a contribuição da electricidade nuclear para a descarbonização de processos nos vários sectores da actividade humana deva ser posta em causa.

Ao longo das últimas três décadas, a cisão nuclear, como fonte promissora de energia, foi geralmente mal considerada e não só não gozou do favor da opinião pública como não foi também, por várias razões, favorecida pelos decisores económicos e políticos na maior parte dos países mais desenvolvidos. Entretanto, entrou em cena, passe a expressão, o fenómeno da mudança climática e com isso o sentido da urgência de encontrar os caminhos possíveis para mitigar os seus efeitos. É assim que há dois anos reunidos na COP28, dirigentes de 22 países de quatro continentes subscrevem uma declaração que aponta para a necessidade de triplicar até 2050 a capacidade nuclear instalada, considerando que a revitalização da componente energética nuclear será fundamental para atingir o objectivo de redução das emissões de carbono para perto de zero nas próximas décadas [xiii] Foi uma mudança notável na forma de olhar para o nuclear (pacífico, naturalmente) que fora ostracizado ao longo de 28 anos. Na declaração é também feito o convite ao Banco Mundial, aos bancos regionais de desenvolvimento e às instituições financeiras internacionais para que incluam a energia nuclear nos seus programas de financiamento, ao mesmo tempo sublinhado a necessidade de contar com cadeias de abastecimento seguras para impulsionar a implantação da tecnologia de produção de electricidade nuclear [xiv].
Entretanto, uma análise da forma como têm sido levados à prática compromissos assumidos no decurso das reuniões anteriores da COP, deverá levar-nos a ser cautelosos na avaliação do futuro deste último. Sobretudo hoje quando a actual administração norte-americana sempre inspirada nas suas formulações repete à saciedade o bem achado slogan “drill, baby drill”.

Uma questão que importa levantar quando se considera o futuro da energia nuclear é a da eliminação de resíduos radioactivos e da gestão do combustível irradiado.
Em todos os casos, os resíduos devem ser mantidos em segurança em instalações concebidas para níveis adequados de contenção e isolamento, garantindo uma protecção adequada das pessoas e do ambiente contra as radiações, durante longos períodos de tempo. Até aos dias de hoje, os resíduos são mantidos em depósitos de superfície ou próximo da superfície, adjacentes ou localizados nas imediações dos reactores em funcionamento. Esta prática é considerada temporária e requer vigilância e cuidados de manutenção regulares [xv]. Previstos para deposição final permanente estão os chamados depósitos geológicos. O primeiro depósito deste tipo no mundo, no qual os resíduos nucleares seriam armazenados em segurança durante pelo menos 100 000 anos, está em fase de conclusão na Finlândia e deve receber os primeiros carregamentos no corrente ano [xvi]. Lidar com os resíduos radioactivos é sobretudo um problema social mais do que um problema técnico. O maior desafio é convencer as pessoas de que é seguro viver nas proximidades de um tal depósito[xvii].

Importa dizer que há riscos associados a uma utilização extensiva da cisão nuclear como fonte de energia. Riscos para a saúde humana e para o ambiente. Entretanto, a experiência adquirida ao longo de décadas mostra que esses riscos são negligenciáveis quando comparados com os riscos associados a uma vasta gama de outras actividades humanas, como explorações mineiras ou transportes. E são, definitivamente, insignificantes se comparados com as consequências para a humanidade e para o mundo natural dos eventos extremos associados às alterações climáticas.

14 de Janeiro de 2026

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NOTA OTC: O presente artigo reproduz a intervenção do Autor na Mesa Redonda “A necessária transição energética: do fóssil, às renováveis, passando pelo nuclear civil. Realidades e ficção”, seguida de debate, que teve lugar em 14 de Janeiro de 2026 no Anfiteatro Professor Abreu Faro, sito no campus da Alameda do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa. A OTC agradece as facilidades concedidas pelo Presidente daquele Instituto, Professor Rogério Colaço.
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[i] https://ods.pt/
[ii] O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas é uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU) por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM)
[iii] https://ncse.ngo/madrid-1995-sentence-change-world
[iv] “Michael Mann, on how the second US withdrawal from the Paris Agreement may alter the world’s climate change landscape”, Dan Drollette Jr, September 4, 2025 https://thebulletin.org/premium/2025-09/michael-mann-on-how-the-second-us-withdrawal-from-the-paris-agreement-may-alter-the-worlds-climate-change-landscape/#post-heading
[v] O Acordo de Paris é um tratado internacional juridicamente vinculativo, adoptado em 2015, para combater as alterações climáticas, limitando o aquecimento global a bem menos de 2 °C, com uma meta de 1,5 °C, em comparação com os níveis pré-industriais. Para atingir este objectivo, os países signatários apresentam as suas próprias metas de redução de gases com efeito de estufa, ou Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), e aumentam periodicamente a sua ambição para alcançar um mundo neutro em termos climáticos até meados do século. O acordo inclui ainda disposições relativas à adaptação, ao financiamento climático e à mitigação de perdas e danos decorrentes dos impactos climáticos.
[vi] Ver, por exemplo: “Estimating the Military’s Global Greenhouse Gas Emissions”, Dr Stuart Parkinson with Linsey Cottrell, Scientists for Global Responsibility, Novembro 2022 https://www.sgr.org.uk/publications/estimating-military-s-global-greenhouse-gas-emissions
[vii] Trata-se de dispositivos de confinamento de plasma do tipo FRC-Field Reversed Configuration; ver, por exemplo, https://www.helionenergy.com/faq/ . Ver também;
[viii] “Reducing Black Carbon May Be the Fastest Strategy for Slowing Climate Change”
https://igsd.org/docs/IGSD%20BC%20Climate%20Briefing%20Note_clean.pdf .
[ix] Segundo Bernie Sanders, membro do Senado norte-americano, a multinacional Meta está a construir um centro de dados na Louisiana, ocupando uma área comparável a de Manhattan (59km2), que terá um consumo de energia eléctrica equivalente ao de um milhão e duzentas mil habitações familiares. https://www.youtube.com/watch?v=K3qS345gAWI
[x] “A crise energética ameaça as ambições americanas em IA. As grandes empresas tecnológicas estão a investir milhares de milhões em centros de dados nos EUA para impulsionar o desenvolvimento da inteligência artificial. Mas estes planos ambiciosos enfrentam um problema: o acesso à energia”  https://ig.ft.com/ai-power/ .
[xi] Em Junho de 1954, Obninsk, na então URSS, foi a primeira central nuclear no mundo a ser ligada à rede eléctrica.
[xii] https://www.iaea.org/publications/15943/nuclear-power-reactors-in-the-world
[xiii] https://www.energy.gov/articles/cop28-countries-launch-declaration-triple-nuclear-energy-capacity-2050-recognizing-key
[xiv] https://www.iaea.org/newscenter/news/nuclear-power-finally-has-its-moment-at-un-climate-summit
[xv] Nos Estados Unidos existem nesta data 85 depósitos temporários onde se guardam cerca de 86 kt de resíduos. https://thebulletin.org/2024/07/the-thorny-social-problem-of-permanent-nuclear-waste-storage/
[xvi] https://www.nucnet.org/news/finland-completes-key-trial-for-world-s-first-deep-geological-nuclear-waste-repository-3-2-2025?utm
[xvii] https://thebulletin.org/2024/07/the-thorny-social-problem-of-permanent-nuclear-waste-storage/