Donos das tecnológicas, com lucros recorde, despedem quase 150 000 e investem na engrenagem da IA
As Big Tech não estão a despedir trabalhadores por estarem a perder dinheiro. Estão a reduzir os seus quadros de pessoal enquanto registam lucros recorde — e a utilizar as poupanças para construir a infra-estrutura de IA da qual serão proprietárias.
A Amazon, a Microsoft, a Alphabet e a Meta preparam-se para gastar, em conjunto, 700 mil milhões de dólares em 2026 na expansão da IA. Isto traduz-se em centros de dados, chips, redes e energia — a infra-estrutura física por trás do chamado boom da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, de acordo com a TrueUp, perto de 150 000 trabalhadores tecnológicos foram despedidos até ao momento em 2026, num total de 364 processos de despedimento colectivo — uma média de 967 trabalhadores por dia.
O significado disto é claro. As Big Tech estão a canalizar o capital que outrora pagava salários e a convertê-lo em activos fixos tangíveis e propriedade: máquinas, edifícios, sistemas informáticos e contratos de fornecimento de energia controlados pelas próprias empresas.
Os cortes não estão a ocorrer devido a uma conjuntura económica desfavorável. A Meta registou receitas no primeiro trimestre de 2026 de 56,31 mil milhões de dólares e um resultado líquido de 26,8 mil milhões de dólares — o trimestre mais forte da história da empresa — e, três semanas mais tarde, rescindiu o contrato com cerca de 8000 trabalhadores, aproximadamente 10% da sua força de trabalho.
O segmento de infra-estrutura de IA da Oracle registou um crescimento de receitas de 243% no seu trimestre mais recente, com um resultado líquido de 3,7 mil milhões de dólares. De seguida, eliminou até 30 000 postos de trabalho — cerca de 18% da sua força de trabalho global — para libertar entre 8 mil milhões e 10 mil milhões de dólares em fluxo de caixa (cash flow) anual para um plano de expansão de centros de dados de 50 mil milhões de dólares.
A Amazon eliminou cerca de 16 000 funções em Janeiro, ao mesmo tempo que reportava que a AWS cresceu 28%, a sua taxa mais rápida em 15 trimestres.
A tecnologia não é neutra quando pertence às administrações. Nas suas mãos, cada nova máquina torna-se uma ferramenta de pressão na disputa sobre emprego, salários e controlo do local de trabalho.
Esta não é uma história de máquinas que, de repente, tornam os trabalhadores desnecessários. É o capitalismo a funcionar como o capitalismo funciona. Os salários compram trabalho vivo. Os centros de dados, chips e contratos de energia são trabalho morto transformado em activos da empresa. As Big Tech estão a utilizar lucros recorde e despedimentos em massa para substituir trabalhadores onde é possível, acelerar o ritmo dos trabalhadores que permanecem, reduzir salários e pressionar todo o mercado laboral em baixa.
Contudo, a maquinaria não cria mais-valia por si só. O trabalho vivo cria-a. Essa é a contradição interna na corrida à IA. Centenas de milhares de milhões de dólares estão a ser injectados em maquinaria que só gerará retorno se as empresas encontrarem novos clientes, consumirem mais energia, acumularem mais dívida, praticarem preços de monopólio e extraírem mais rendimento dos trabalhadores que restam.
Não estão apenas a adquirir máquinas para reduzir a folha salarial. Estão a construir as portagens privadas pelas quais outras empresas terão de passar para utilizar a IA.
Este império privado assenta em sistemas públicos: a legislação de imigração, o direito de patentes, a investigação universitária, os benefícios fiscais, as redes eléctricas e os contratos governamentais ajudam as Big Tech a converter o trabalho dos profissionais em propriedade corporativa.
O CEO da Cloudflare, Matthew Prince, detalhou esta lógica num artigo de opinião do Wall Street Journal publicado a 20 de Maio, com o título “How I Choose Which Cloudflare Employees to Replace With AI” (Como Escolho Quais os Colaboradores da Cloudflare a Substituir por IA). Prince dividiu os trabalhadores entre aqueles que desenvolvem produtos, os que os vendem e os que denominou de “avaliadores” (measurers) — os profissionais das áreas de auditoria, finanças, jurídico, conformidade (compliance), gestão intermédia e operações que monitorizam a actividade da empresa.
A vasta maioria dos 1100 trabalhadores da Cloudflare despedidos no mês passado, escreveu Prince, eram avaliadores.
Estes profissionais não eram auditores externos. Faziam parte do próprio aparelho de gestão, jurídico e de reporte da empresa. No entanto, mesmo estas camadas humanas internas podem abrandar decisões, levantar objecções, documentar riscos ou expor contradições dentro da organização.
Prince afirmou que a IA pode monitorizar e reportar sobre a organização com maior consistência do que os recursos humanos. Na prática, isto significa substituir a revisão humana dentro da empresa por sistemas automatizados treinados, configurados e avaliados pela própria administração.
A narrativa da IA também mascara uma operação de supressão salarial. Muitos dos despedimentos atribuídos à IA não significam o desaparecimento do trabalho. As mesmas funções podem ser deslocalizadas (offshoring), subcontratadas ou reintroduzidas mais tarde com salários inferiores.
A Oracle torna isto evidente. A empresa rescindiu contratos com até 30 000 trabalhadores baseados nos EUA a partir de 31 de Março. Os colaboradores receberam e-mails às 6h00 da manhã informando que o seu vínculo laboral tinha terminado de imediato. Paralelamente, a Oracle detinha 3126 petições pendentes para vistos de trabalhadores convidados H-1B ao longo dos anos fiscais de 2025 e 2026.
A questão não é que os trabalhadores com visto H-1B estejam a substituir os trabalhadores nacionais numa proporção directa de um para um. O ponto fulcral é que as Big Tech utilizam todas as formas de precariedade laboral disponíveis — despedimentos, deslocalização, subcontratação, sistemas de avaliação comparativa forçada (forced ranking) e a vulnerabilidade associada à imigração — para empurrar os salários para baixo em toda a força de trabalho.
Essa pressão incide de forma mais severa sobre os próprios trabalhadores com visto H-1B. Os serviços de cidadania e imigração dos EUA (USCIS) descrevem o H-1B como um programa de emprego temporário para ocupações especializadas. O direito do trabalhador de permanecer nos EUA está indexado ao seu emprego. O Economic Policy Institute alertou em 2026 que as regras salariais propostas continuariam a permitir que as entidades empregadoras pagassem aos trabalhadores H-1B taxas abaixo do valor de mercado.
Quando um trabalhador H-1B é despedido, a contagem decrescente começa imediatamente. Dispõe geralmente de 60 dias para encontrar outra entidade patronal que o patrocine ou terá de abandonar o país. Um despedimento que representa uma crise financeira para um trabalhador pode significar a partida forçada para outro. As entidades empregadoras utilizam essa ameaça para subremunerar os trabalhadores e mantê-los silenciados.
A ofensiva atinge também as gerações mais jovens. De acordo com o 2026 AI Index do Stanford Human-Centered Artificial Intelligence Institute, o emprego entre engenheiros de software com idades compreendidas entre os 22 e os 25 anos caiu quase 20% face aos níveis de 2024, mesmo com o número de profissionais em posições mais seniores a continuar a crescer.
O emprego tecnológico de nível de entrada (entry-level) — outrora uma rampa de acesso à classe média para uma geração de profissionais técnicos — está a ser vedado antes que os jovens trabalhadores consigam acumular a antiguidade que protege os profissionais mais velhos. O canal de renovação de talentos está a ser cortado.
No topo dessas mesmas empresas, a remuneração de um estrato reduzido de contratações de IA move-se no sentido oposto. A Meta reduziu as atribuições anuais de acções (stock awards) para a maioria dos colaboradores em cerca de 5% em Fevereiro de 2026, após um corte de 10% no ano anterior. Simultaneamente, a campanha de recrutamento de IA de Zuckerberg terá oferecido pacotes remuneratórios extraordinários a um punhado de profissionais de IA altamente pagos. A remuneração total mediana na Meta caiu de 417 400 dólares em 2024 para 388 200 dólares em 2025.
A indústria tecnológica foi, durante muito tempo, difícil de sindicalizar porque as empresas se esforçaram por convencer os profissionais de tecnologia de que estes não eram operários. Salários elevados, subvenções de acções, títulos de funções e uma cultura empresarial “focada na missão” foram utilizados para esbater a fronteira de classe — a velha tentativa de disfarçar assalariados como uma “classe média” separada do resto da classe trabalhadora. Mas os profissionais de tecnologia vivem da venda da sua força de trabalho. Não são proprietários das plataformas, dos centros de dados, das patentes ou dos produtos que o seu trabalho cria. Quando os lucros o exigem, são despedidos como quaisquer outros trabalhadores.
A 29 de Maio, 2100 trabalhadores de tecnologias de informação da Universidade da Califórnia votaram esmagadoramente a favor da adesão ao sindicato University Professional and Technical Employees-Communications Workers of America Local 9119. Combinado com a unidade de negociação existente, o voto eleva a filiação total para 8400 membros — o maior sindicato de trabalhadores tecnológicos do país.
Os trabalhadores apresentaram três exigências: protecção contra despedimentos, salários mais elevados e poder de decisão sobre a forma como a IA é utilizada no trabalho. Esta última exigência toca no cerne da questão. Em todos os sectores, as administrações reclamam o direito exclusivo de decidir sobre os métodos, processos e velocidade de produção. Nas Big Tech, fazem a mesma reivindicação sobre a IA: o que é automatizado, quem é monitorizado, qual o posto de trabalho que desaparece e quão rápido o trabalho deve avançar. Os trabalhadores afirmam que essas decisões devem ser negociadas e combatidas, e não entregues às administrações.
O sindicato Alphabet Workers Union-CWA Local 9009, reagindo aos despedimentos de 20 de Maio da Meta, associou a sua organização directamente a este padrão: “À medida que as empresas de Big Tech tentam ultrapassar-se mutuamente na corrida à IA, as nossas rotinas diárias de trabalho estão a transformar-se.”
A campanha do sindicato “Googlers for Job Security” organizou-se em torno de quatro exigências: indemnização por despedimento garantida, planos de rescisão amigável por mútuo acordo antes de despedimentos obrigatórios, o fim das quotas forçadas de avaliação de desempenho (forced ranking) e a opção de receber a indemnização sob a forma de licença. O sindicato atribui à pressão da organização a conquista de pacotes de saída voluntária oferecidos a mais de 70 000 colaboradores da Google.
A expansão de 700 mil milhões de dólares em IA e os quase 150 000 trabalhadores despedidos este ano não são histórias distintas. São duas faces da mesma reestruturação. As Big Tech estão a cortar postos de trabalho, a redefinir o preço da mão de obra e a utilizar as poupanças para construir uma infra-estrutura privada de IA que lhes conferirá um maior controlo sobre o processo de trabalho.
Prince expressou em voz alta o que as administrações estão a fazer. Os trabalhadores não podem responder a isto pedindo às chefias que sejam céleres ou justas. Necessitam de uma organização suficientemente forte para combater os despedimentos, os sistemas de avaliação comparativa forçada (forced ranking), as reduções salariais, a deslocalização (offshoring), a coacção associada aos vistos e a reivindicação das administrações de que apenas estas podem decidir como a IA é utilizada.
A questão não é saber se a IA entrará no local de trabalho. Já entrou. A questão fulcral é se os trabalhadores terão o poder de controlar a forma como esta é utilizada — ou se as Big Tech a utilizarão para aprofundar a exploração sob a bandeira do progresso.
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Acknowledgement:
OTC thanks Struggle-La Lucha (www.struggle-la-lucha.org) for the permission to translate into Portuguese and republish on our website the original article “Tech bosses cut nearly 150,000 workers as profits pour into AI machinery” (https://www.struggle-la-lucha.org/2026/06/05/tech-bosses-cut-nearly-150000-workers-as-profits-pour-into-ai-machinery/ )