Encontro Ciência e Inovação 2026

Encontro Ciência e Inovação 2026
OS “DOIS AMORES”

Em 15 e 16 de Julho corrente, teve lugar nas instalações do Centro de Congressos de Lisboa, o denominado “Encontro Ciência e Inovação 2026”. O acontecimento foi descrito como o primeiro grande evento da Agência para a Investigação e Inovação (AI2) (https://www.cienciainovacao.pt/). A sessão de abertura foi marcada pela presença de altas individualidades que têm hoje uma responsabilidade directa pelo estado do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação que é, como se sabe, em larga medida, sustentado pelo esforço e a dedicação de milhares de trabalhadores científicos precários. Infelizmente esta situação não é uma inovação lusa. A mesma situação encontra-se, nomeadamente, em um bom número de países nossos parceiros da União Europeia que connosco partilham dos chamados “valores europeus”[1]. Cá fora, em frente ao Centro de Congressos, decorria uma concentração de trabalhadores científicos que se afirmam contra a precariedade, por contratos, financiamento estável e reforçado, pela gestão democrática dos laboratórios e centros de investigação — o que envolve ter uma voz própria na gestão das instituições onde trabalham — e, naturalmente, pelo fim das bolsas.

Um tratamento adequado e soluções para estas questões, em nosso ver, determinantes para a o futuro e a vitalidade do sistema científico nacional, passaram, todavia, e sem surpresa, ao lado dos discursos e das prioridades.

Nas palavras de João Barros, Presidente da nova Agência, palavras que transcrevemos da mensagem-convite que enviou à OTC a propósito do Encontro, este teve “por mote “Preparar o futuro” e [ser] o palco de um debate nacional sobre a estratégia para o ecossistema de investigação e inovação em Portugal nos próximos anos”.

A questão é séria, sem dúvida, pois o que é dito estar em causa é “a definição de prioridades nacionais de investigação e inovação no âmbito da criação da AI2”, como refere, na mensagem de convite dirigida à OTC em fins de Março, a Coordenadora da Equipa de Avaliação Estratégica entretanto criada com o propósito de definir a metodologia a seguir com aquele objectivo. Na altura a OTC tomou posição sobre a matéria (https://otc.pt/wp/2026/04/15/a-ai2-e-agora/).

E voltou a tomar posição quando em fins de Junho foi chamada a pronunciar-se sobre o “Relatório de Focagem Estratégica”, fruto do trabalho, sem dúvida aturado, daquela mesma equipa (https://otc.pt/wp/wp-content/uploads/2026/07/SNCTI-AI2-Reflexao-OTC.pdf).

O processo continua e a sessão no Centro de Congressos foi um passo mais num já longo caminho. Onde esse caminho levará pode antever-se e é legítimo duvidar-se se vai na direcção certa. Do que se trata ou deveria tratar-se, é efectivamente da definição de uma política científica nacional, questão que no pós-25 de Abril parece nunca ter sido abordada seriamente. Entendemos que essa definição não deve caber a uma qualquer agência ou outro organismo público ou pseudo-público, mas sim ao Poder Legislativo, cuja sede é o Parlamento, devidamente assessorado, naturalmente.

Tal como se esperava e não seria preciso estar muito atento, o que se passou no Centro de Congressos veio mostrar ao mesmo tempo um lamentável entendimento do que devem ser os caminhos da investigação, o que se deve entender por inovação e qual a relação entre as duas. Foi uma exposição de conceitos e mecanismos próprios do neoliberalismo dominante, em que tudo ou quase tudo, é condicionado pelos grandes interesses económicos. Mesmo quando colidem com o interesse nacional.

Vem a propósito citar aqui uma passagem do documento intitulado “Investigação e Inovação: um ecossistema, duas lógicas”, tomada de posição tornada pública em meados de Novembro do ano transacto (https://otc.pt/wp/2025/11/25/investigacao-e-inovacao-um-ecossistema-duas-logicas/). O documento é subscrito por figuras eminentes da comunidade científica nacional, sendo primeiro subscritor o Professor Alexandre Quintanilha:

“O verdadeiro valor da investigação não é meramente económico, nem imediato, nem geograficamente localizado. O valor é vasto, profundo, multifacetado, opera em escalas temporais que transcendem calendários políticos e numa lógica global. Resultados científicos obtidos num qualquer país há décadas podem ser usados para inovação de alto impacto num outro país; há inúmeros exemplos, desde a inteligência artificial, cujas raízes têm muitas décadas e se espalham pelo mundo, até às tecnologias quânticas. Reduzir o ecossistema científico à sua função de inovação e subalternizar a investigação de base a essa lógica é um erro estratégico que pode comprometer o futuro. A investigação serve a sociedade em múltiplas frentes, sendo claro que opera numa lógica fundamentalmente diferente da inovação.

  • A investigação (até hoje o domínio da FCT) é movida essencialmente pela curiosidade. É paciente, imprevisível e inevitavelmente incerta e arriscada, mas com alto retorno potencial. O seu objectivo é o conhecimento, e o seu retorno pode demorar décadas.
  • A Inovação (o domínio da ANI) é movida por necessidades. É focada, rápida e orientada para o mercado. O seu objectivo é um produto ou serviço, e o seu retorno é (idealmente) económico, a curto prazo e menos incerto.

Fundir as duas agências numa só, força estas duas lógicas a competir. É inevitável que a urgência do retorno económico da inovação sufoque a paciência necessária à ciência fundamental”.

Assim, a Ciência tem razões que a Economia desconhece, e importa reconhecer que o objectivo e a mais-valia do trabalho científico aturado que leva ao doutoramento não está na resolução de problemas empresariais imediatos, mas sim no desenvolvimento de capacidades de investigação na fronteira do conhecimento, abordando desafios que a humanidade ainda não resolveu.

Voltando à sessão no Centro de Congressos. Dela não parece transparecer algo que mostre uma preocupação séria com as duas chagas maiores de que padece o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, a que se colou “Inovação”: precariedade endémica, subfinanciamento crónico. Ouve-se recentemente falar do objectivo político de alcançar a meta de 3% do PIB nacional para a despesa intramuros com I&D, da qual caberia 1% ao sector público, actualmente de cerca de 0,7% (https://eco.sapo.pt/entrevista/nao-queremos-que-a-ai%C2%B2-tenha-os-mesmos-problemas-que-a-fct/ ). Seria um aumento significativo. Mas não esquecer, ao olhar estes números, que a despesa militar, segundo anúncio recente, terá atingido 2% do PIB.

A comunicação social, como lhe compete, deu eco aos eventos de que falamos: o Encontro e a concentração de trabalhadores científicos precários referida acima. O Jornal “Público” sempre muito atento às questões da Ciência e do trabalho científico em Portugal, publicou na sua edição de 15 de Julho o artigo com o título: “O encontro da ciência e da inovação trouxe “dois amores”, mas há um de que se gosta mais(https://www.publico.pt/2026/07/15/ciencia/noticia/encontro-ciencia-inovacao-trouxe-dois-amores-ha-gosta-2181749 ).

É uma boa leitura do que lá se passou.

João Barros, já referido atrás, deixa claro ao que vem, ao afirmar na intervenção proferida no Encontro:

 “A pergunta para esta década não é apenas quanto deve o estado investir em ciência e inovação, mas quanto investimento privado conseguimos mobilizar a partir de cada euro público”.  

E refere como exemplo o percurso profissional do norte-americano Claude Shannon (1916-2001), matemático que se distinguiu pelos seus trabalhos no domínio da teoria da informação, como bom exemplo de alguém em quem, no seu entender, conviviam harmoniosamente “os dois amores”: investigação e inovação.

Esta referência mereceu um comentário que pode ler-se no jornal, comentário esclarecedor e pertinente de Luís Moniz Pereira, membro dos órgãos sociais da OTC[2], que transcrevemos:

Shannon trabalhou durante a WWII na Bell Telephone Labs num contrato desta com o Governo USA. João Barros, ao dar o exemplo de Shannon, vai promover em Portugal o aparecimento duma gigantesca empresa como a Bell Labs? Sabe bem que não, e o exemplo é deliberadamente hipócrita[3].

A definição de áreas estratégicas e prioridades nacionais de investigação e inovação continua por fazer. Aponta-se como meta o final do corrente ano. No que respeita à investigação fundamental, aquela cujo valor “não é meramente económico, nem imediato, nem geograficamente localizado”, não faz qualquer sentido falar em prioridades. Em qualquer caso, muito dependerá, não só do montante global fixado para a despesa pública em investigação, mas, em boa parte também, da forma como esse montante será distribuído pela partes interessadas às quais caberá executá-la. Convirá estar atento àquilo a que se vem assistindo com indesejável frequência, a saber, a contradição entre o discurso e a prática.

20 de Julho de 2026

_________________________________________

[1] As situações variam de país para país. Em particular, a Suécia destaca-se do conjunto por ser simultaneamente o país membro que, em percentagem do PIB, mais investe em I&D (cerca de 3,4%, em 2024) e um daqueles em que a percentagem de contratos precários (a termo) entre os investigadores activos é mais baixa: cerca de 10%. Os outros, são a Finlândia e a Dinamarca. (https://otc.pt/wp/wp-content/uploads/2026/07/Da-FCT-a-AI2.pdf
[2] https://otc.pt/wp/wp-content/uploads/2026/07/Luis-Moniz-Pereira.jpg
[3] Claude Shannon trabalhou na Bell Telephone Labs durante a segunda Guerra Mundial, num contrato a pedido do governo dos EUA, para resolver problemas de criptografia essenciais à guerra em curso. Encontrou-se com o britânico Alan Turing, considerado o pai da ciência de computação teórica, sobre aquela temática. Mudou-se para a CIA a partir de 1951 e foi professor no MIT de 1956 a 1978 (https://en.wikipedia.org/wiki/Claude_Shannon)