A ciência cubana sob ataque:
uma entrevista com o Dr. Ernesto Estévez Rams
Numa era em que a ciência é cada vez mais mobilizada para o militarismo, a vigilância e o lucro empresarial, a União Internacional de Cientistas (IUS) procura vozes que nos lembrem o que a Ciência pode ser quando é direccionada para o florescimento humano. Nesta entrevista ouve-se uma dessas vozes.
O Dr. Ernesto Estévez Rams é físico, cristalógrafo e teórico da informação na Universidade de Havana. É também um cientista que trabalha sob condições que a maioria dos seus colegas internacionais mal consegue imaginar: décadas de bloqueio económico e o agravamento de sanções extraterritoriais.
Michael Gasser, membro do Comité de Coordenação da IUS, conversou com o Dr. Estévez Rams sobre a história da ciência cubana desde a revolução, a arquitectura da agressão dos EUA contra Cuba e o que os cientistas de todo o mundo — especialmente nos Estados Unidos — podem fazer para se solidarizar com os colegas cubanos. O que emerge não é uma história de vitimização, mas de resiliência: uma comunidade científica que organizou campanhas de alfabetização, construiu catorze universidades provinciais a partir de três instituições elitistas e manteve programas de investigação em vacinas contra o cancro e energias renováveis, tudo isto apesar da constante guerra económica dos Estados Unidos.
Para a IUS, esta entrevista não é meramente documental. É um apelo à acção. Somos cientistas que rejeitam o uso destrutivo das nossas disciplinas. Acreditamos, tal como o Dr. Estévez Rams, que a colaboração científica pode ser uma “ponte de amizade” através das barreiras políticas — e que o silêncio perante o castigo colectivo é, por si só, uma escolha política. Convidamos os nossos leitores a ouvir com atenção, a partilhar este testemunho e a juntar as suas vozes à exigência crescente: fim ao bloqueio, fim à agressão, deixem Cuba viver.
TRANSCRIÇÃO
Michael Gasser: Saúdo a todos, onde quer que se encontrem. Sou Michael Gasser, membro da Comissão Coordenadora da União Internacional de Cientistas, uma organização de cientistas que se opõe à utilização destrutiva da ciência e da tecnologia, em especial para fins militares.
Hoje temos a grande satisfação de contar com a presença do cientista cubano Dr. Ernesto Estévez Rams para falar sobre a ciência cubana e os efeitos de 65 anos de agressão económica e política dos EUA contra Cuba — efeitos na ciência, bem como na vida quotidiana do povo cubano. O Dr. Rams é professor catedrático na Universidade de Havana, onde se licenciou antes de concluir o seu doutoramento na Universidade de Tecnologia de Viena. É bolseiro da Fundação Alexander von Humboldt e membro emérito da Academia de Ciências de Cuba. Muito obrigado por se juntar a nós, Ernesto, nas actuais circunstâncias difíceis em Cuba. O nosso público é constituído principalmente por cientistas de diversas áreas que estariam interessados em conhecer um pouco do seu percurso e da sua investigação.
Ernesto Estévez Rams: Muito obrigado, Michael, e agradeço-lhe a oportunidade de falar para um público alargado nesta entrevista, e obrigado pela amável introdução. Acrescentaria ao que disse que não tem sido apenas uma agressão económica e política contra Cuba, mas tem sido também uma agressão militar contra Cuba. Tivemos uma série de episódios de sabotagem, ataques terroristas, tivemos a Baía dos Porcos, tivemos a crise de Outubro — a que em Cuba chamamos crise de Outubro e nos Estados Unidos é chamada “crise dos mísseis” — e temos outros casos de agressão militar sob diferentes formas, talvez não como uma guerra aberta, mas sob diferentes formas, dos Estados Unidos contra Cuba ao longo destes 60 anos. Portanto, o que se passa hoje não é algo novo.
E gosto da forma como enquadrou esse contexto, porque fala de agressão, não fala de embargo. Em Cuba, não dizemos embargo. Em Cuba, dizemos bloqueio. E, na verdade, o termo bloqueio é a designação oficial adoptada pela Organização das Nações Unidas, que tem vindo a aprovar resoluções ao longo dos últimos mais de 20 anos onde se pede o fim do bloqueio, e essa é a palavra usada nas resoluções. Assim, para as Nações Unidas, o termo oficial para referir a agressão contínua dos Estados Unidos contra Cuba é: bloqueio. Não é embargo, e penso que essa é uma posição importante que temos de tomar à partida. Falando sobre o meu percurso, como disse, estudei na Faculdade de Física da Universidade de Havana e licenciei-me em 1990. Depois, para ser mais específico, dois anos mais tarde, fui para a Universidade de Tecnologia de Viena e fiz lá o meu doutoramento, que terminei in 1996. De volta a Cuba, desde então e até hoje, trabalho na Faculdade de Física da Universidade de Havana. Fiz o meu doutoramento em microscopia electrónica, mais directamente, microscopia electrónica de transmissão, e foi algo interessante porque quando saí para Viena, havia vários microscópios electrónicos de transmissão a funcionar em Cuba, em diferentes instituições científicas, um deles na Faculdade de Física da Universidade de Havana. Eram de tecnologia soviética e tinham uma óptica muito boa, mas a electrónica não era tão boa. No entanto, enquanto estudava em Viena, aconteceu em Cuba aquele a que chamamos “período especial” [*], e esse foi um período que tem muitos paralelos com o que se passa agora em Cuba Foi uma situação económica muito difícil porque a União Soviética tinha acabado de colapsar e, com ela, todo o bloco soviético. Perdemos, de um dia para o outro, cerca de 80% do nosso comércio externo e, como resultado disso, ficámos numa situação muito grave; o produto interno bruto sofreu uma queda muito, muito grande, houve uma forte escassez de combustível e falhas prolongadas de electricidade. Mas, o que é importante na minha perspectiva de fazer investigação científica ao regressar a Cuba, quando saí do avião, descobri que já não havia nenhum microscópio electrónico a funcionar em Cuba. E, nesse momento, devo dizer que os meus colegas e as pessoas do instituto em Viena onde fiz o meu doutoramento foram muito simpáticos e amáveis ao doar-me um microscópio electrónico de varrimento, antigo, mas ainda funcional, que não era muito adequado para investigação, mas era suficientemente bom para o ensino. Assim, nesse sentido, ainda conseguíamos dar algumas aulas aos estudantes sobre como fazer, pelo menos, microscopia electrónica de varrimento, mas investigação não; não estava mesmo apto para investigação.
Por isso, tive de desviar um pouco o foco da minha investigação, da microscopia electrónica para a difracção de raios-X, e, juntamente com isso, também intensifiquei a minha investigação em cristalografia. Como em Viena já trabalhava em desordem e defeitos em sólidos e questões afins, continuei esse caminho, mas agora utilizando maioritariamente a difracção de raios-X e fazendo trabalho matemático e teórico no domínio da desordem em cristalografia. Comecei a trabalhar no instituto da Universidade de Havana que se chama Instituto de Ciência de Materiais, e aí começámos a trabalhar nesta área, na qual tenho trabalhado desde então até hoje. Mas, enquanto trabalhava em cristalografia e fazia cada vez mais trabalho matemático e teórico, desviei um pouco o meu foco para a utilização de ferramentas da teoria da informação na cristalografia e no estudo da desordem na cristalografia, especialmente a transição da ordem para a desordem do ponto de vista da teoria da informação. Como acontece — e isto provavelmente será familiar para alguns dos cientistas que nos ouvem —, começamos a fazer algo, começamos a usar outra coisa como ferramenta de trabalho e, a dada altura, essa outra coisa torna-se o foco principal ou o tema principal da nossa investigação. Foi o que aconteceu com a teoria da informação, que associei, claro, à entropia da Física e a coisas do género, e comecei a fazer muito, muito mais trabalho nessa área. Depois, a certa altura, começámos a aplicar noutros campos o que estávamos a fazer, especialmente na investigação em saúde e também um pouco em outras áreas como a energia, e até um pouco, em colaboração com a Faculdade de Economia, no que se chama econofísica e coisas semelhantes. Isto é mais como que uma vertente secundária, mas serve para dar uma ideia de que começámos a trabalhá-la num contexto muito mais amplo. Hoje tenho um grupo que cresceu ao longo dos anos e agora temos duas vias paralelas de investigação. Uma está enraizada nestes estudos originais de ciência de materiais e defeitos e propriedades físicas em materiais, que gira em torno da difracção de raios-X e da cristalografia matemática e teórica. E depois temos outra via de investigação, dentro do grupo, que está muito mais focada na teoria da informação. Recentemente, incorporámos a inteligência artificial e a matemática da inteligência artificial. Estamos a tentar compreender o que se passa dentro destas redes neuronais e este tipo de construções matemáticas a partir do ponto de vista da teoria da informação, para ver se conseguimos esclarecer como funcionam e como podemos optimizá-las, e por aí adiante.
Mas também temos olhado para aplicações, especialmente na investigação em saúde. Temos projectos muito interessantes relacionados com o coração. Esse é um projecto muito bonito, em colaboração com um hospital muito importante em Cuba, chamado Hermanos Ameijeiras. Também temos alguma investigação em curso na área das doenças neurodegenerativas e estamos muito entusiasmados com estes dois projectos; penso que estamos a fazer progressos muito bons nesta área.
E pronto, este é mais ou menos o meu percurso e penso que será comum a muitos dos cientistas que me estão a ouvir agora: começamos com uma coisa e acabamos com outra, e a ciência é una. É assim, e nós somos cientistas. A minha formação de base é a física e tenho feito todas estas coisas ao longo dos anos.
MG: De facto. Muito bem — passámos dos cristais para a ciência da informação e para as doenças neurodegenerativas. Assim, penso que quase toda a gente no nosso público, incluindo eu próprio, terá alguma área comum com o seu trabalho. Antes de passarmos aos efeitos prejudiciais que o bloqueio dos EUA causou à ciência cubana ao longo de décadas, poderia falar um pouco sobre a história da ciência cubana e das áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), em geral, desde a revolução? Quais foram as áreas consideradas prioritárias? E quais considera serem as principais conquistas da ciência e engenharia cubanas? E de que forma a natureza do sistema político, a natureza do socialismo cubano, afectou o progresso da ciência de uma maneira que seria diferente sob o capitalismo, com a ênfase numa ciência com fins lucrativos?
EER: Muito bem. Para compreender o contexto ou para compreender a minha resposta à pergunta, tenho de explicar um pouco o contexto. Cuba, antes de 1959, era um país agrícola e tínhamos essencialmente duas culturas agrícolas. Uma, esmagadoramente mais importante, que era a produção de cana-de-açúcar, vinha do tempo em que Cuba era uma colónia espanhola. Éramos um dos produtores de cana-de-açúcar mais importantes do mundo e uma das maiores fontes de importação de açúcar para os Estados Unidos, e toda a vida económica em Cuba girava maioritariamente em torno da produção de cana-de-açúcar. A outra cultura era a do tabaco, que é bem conhecido e famoso, embora a indústria do tabaco esteja muito localizada em Cuba — na verdade, hoje estende-se a mais do que uma província, mas o tabaco que lhe deu fama vem de uma única província. A produção não é assim tão grande no sentido de que é uma produção muito especializada, baseada não na quantidade, mas na qualidade. O tabaco cubano é considerado o melhor tabaco do mundo e, para manter essa condição, tudo tem de ser feito de uma forma especial. Sem produtos químicos, sem isto, sem aquilo. Assim, a qualidade mantém o padrão elevado, mas isso significa que a produção não é muito grande. Enfim, Cuba era um país agrícola.
E isso significava muito para a estrutura social de Cuba. Tínhamos uma população rural muito grande que vivia em péssimas condições. E o analfabetismo era muito comum nessa população. Mas também no país como um todo, o analfabetismo era bastante elevado; os números em 1958 variavam um pouco consoante os estudos, mas rondavam os 40% a 50%, ou até 80% segundo outros estudos, e assim por diante. Mas estes números não dão uma ideia real de quão má era a situação, porque, mesmo que formalmente existisse uma taxa de literacia que pudesse chegar aos 80%, na prática isso significava que a maior parte ou, pelo menos, uma grande parte dessa população tinha apenas uma educação de literacia básica. Aprendiam a ler e a escrever nas primeiras etapas da escola e havia um grande abandono escolar. Muitos estudantes não terminavam os estudos básicos. Assim, do ponto de vista estatístico, sabiam ler e escrever, mas do ponto de vista funcional, eram completamente iliteratos. E também havia muitos problemas sociais no campo, e por aí adiante.
Do ponto de vista científico e universitário, tínhamos três universidades principais. A Universidade de Havana, que era a mais antiga, vinha do tempo dos espanhóis e, quando se chegou a 1959, já tinha uma história universitária em Cuba, continuando a ser a principal universidade do país. Depois, havia uma universidade no centro do país, chamada Central de Las Villas, que estava muito relacionada com a presença americana em Cuba, porque era uma universidade orientada especialmente para a base agrícola e da cana-de-açúcar. E havia também a Universidade de Oriente, no outro extremo da ilha. Estas eram as três universidades principais, universidades na altura bastante elitistas, no sentido de que muito poucas pessoas comuns conseguiam chegar à universidade. Além disso, as províncias não estavam muito representadas, os negros não tinham muito espaço na universidade (em Cuba não dizemos “Afro”, dizemos negros, e não tem um significado depreciativo). Havia maioritariamente homens brancos vindos das classes média e alta da sociedade. E nessas universidades a maior parte dos estudos focava-se nas Humanidades, muito pouca Ciência, um pouco de Agricultura, um pouco de Química, alguma Engenharia, mas não estava aí o forte dos estudos na universidade. E mesmo nessas áreas, os currículos de estudo eram bastante antigos. Como sou físico, dou um exemplo: em 1959 não havia faculdade de Física nem estudos formais de física. Estávamos inseridos nos estudos de engenharia e nos estudos químicos, éramos uma espécie de departamento e não se fazia quase nenhuma investigação em física; o currículo era de física clássica. Nada sobre relatividade, quer restrita quer geral. Nada sobre teoria quântica. Nada sobre física moderna. Era uma física que parava mais ou menos em Lagrange, e era isso. A física parava essencialmente aí, no que ensinávamos na universidade.
E então, em 1961, uma das primeiras coisas que a revolução fez — e penso que isto é bastante demonstrativo do que aconteceu mais tarde —, uma das primeiras coisas foi inaugurar a instituição nacional de imprensa, chamada Imprensa Nacional. À frente desta instituição colocaram um intelectual cubano muito importante chamado Alejo Carpentier, que é provavelmente o escritor cubano mais conceituado — o primeiro livro que publicou foi o D. Quixote. Digo tudo isto para dar o contexto de como a revolução não se limitou a mudar a vida económica ou algo do género; estava também a mudar o significado simbólico e o significado cultural das coisas.
E começaram a publicar-se muitos livros e, em 1961, houve uma campanha contra o analfabetismo. Chamamos-lhe campanha de alfabetização, e serviu para ensinar a ler e a escrever, maioritariamente a população rural.
Depois, durante 1961, ou melhor, a partir de 1960, 1961 e 1962, enviámos milhares de jovens para as zonas rurais para ensinar a ler e a escrever. E isto foi feito no meio de uma agressão muito aguda contra Cuba. Se tivermos em atenção as datas, isto acontece em plena invasão da Baía dos Porcos, em plena crise dos mísseis. E isto no meio de uma guerra civil em Cuba, onde o remanescente das forças que estavam no país antes da revolução — aqueles que apoiavam Batista, o ditador anterior, apoiado pelos Estados Unidos, que lhes forneciam armas e muito mais — organizaram uma guerra de guerrilha em Cuba, especialmente na zona central da ilha. Assim, tudo isto estava a acontecer e, ao mesmo tempo, tentávamos ensinar as pessoas a ler e a escrever. Mas isso não foi uma acção isolada; durante e após esse período, começaram a ser criadas escolas por todo o país. Uma das primeiras coisas que se fez foi criar escolas para que aqueles que estavam a aprender a ler e a escrever pudessem continuar a estudar. Não era para os deixar dizendo: “pronto, agora já sabes ler e escrever, já podes assinar cheques”. Não, lês e escreves e agora esse é o primeiro passo: queremos dar-te a oportunidade de aprender e de te tornares profissional, se quiseres ser profissional, técnico ou intelectual, e assim por diante.
Foram criadas escolas em todo o país. Chamavam-se escolas de operários e camponeses e houve um esforço educativo muito, muito grande. E, como parte desse esforço, em 1962, começou o que se chama a reforma universitária.
A reforma universitária era uma espécie de sonho para os estudantes e professores universitários desde o final dos anos 20. Tinha sido uma longa luta de jovens e estudantes desde a década de 20 para criar uma universidade que respondesse às necessidades de desenvolvimento de Cuba, mas que também reflectisse a diversidade cubana e pudesse chegar a todos os sectores, especialmente os mais desfavorecidos. O principal objectivo da reforma universitária de 1962 era o de democratizar o acesso ao ensino superior.
Assim, as universidades foram abertas a todos. Foi dado apoio económico àqueles que queriam estudar na universidade. Foi promovido, de forma muito intensa, que aqueles que tinham aprendido a ler e a escrever, mas também aqueles que, sabendo ler e escrever, nunca tinham tido uma educação formal, pudessem progredir.
A seguir, houve programas acelerados para que atingissem o nível necessário para entrar na universidade, os currículos foram completamente transformados e começámos a abrir cursos nas áreas das ciências e engenharias. Os estudos de Física (que no início pertenciam à Faculdade de Ciências), de Química, de Matemática e muitos ramos da Engenharia, abriram de novo nas universidades. É preciso ver as duas coisas a acontecer em simultâneo: abrem-se novas disciplinas, mas ao mesmo tempo começa-se a formar uma massa de pessoas que pode aceder à universidade, e também, a par disso, há uma reforma.
Foi mais do que uma reforma. Foi a reconstrução ou a criação de uma base científica no país para formar uma rede científica; tudo isto com a ideia de que devia contribuir para o desenvolvimento sustentável de Cuba.
Nós tínhamos ciência antes de 1959, e seria errado dizer que não tínhamos. Tínhamos grandes cientistas na agricultura e na biologia. E tínhamos o cientista mais importante da história de Cuba, Carlos Finlay, que descobriu o mosquito como transmissor da febre amarela.
Tínhamos essa ciência, mas era uma ciência feita por indivíduos, por certas pessoas muito dotadas para a ciência que faziam a sua investigação, na sua maioria, de forma isolada, e que tiveram impacto em diferentes áreas, especialmente Carlos Finlay na investigação médica e da transmissão da febre amarela.
Estamos a falar agora de outra coisa. Estamos a falar do esforço social de todos a trabalhar para fazer com que Cuba criasse uma força científica que seria a força mais importante no desenvolvimento do país.
Há uma frase muito antiga de Fidel Castro, dita nesses primeiros anos num encontro com a Academia de Ciências de Cuba, que foi refundada. A Academia de Ciências de Cuba vem do tempo da colónia espanhola, mas foi refundada em 1962 e, quando o foi, criaram-se novos institutos na área da Astronomia, Biologia, Antropologia, Meteorologia, Física Nuclear — que foi muito importante um pouco mais tarde — da Oceanologia… ou seja, tínhamos toda esta febre de educação, ciência e tudo o mais a acontecer nesses primeiros anos, escassos meses após a Baía dos Porcos. Mais uma vez, o contexto é muito importante. Apenas alguns meses após uma agressão directa contra o país, Fidel Castro reuniu-se com os cientistas na Academia de Ciências de Cuba e disse: “O futuro de Cuba tem de ser um futuro de homens de ciência”. Hoje diríamos homens e mulheres. Não era a forma de falar na altura, mas significava cubanos; significava mulheres e homens, e posso demonstrar um pouco mais tarde que significava isso.
Essa era a visão dele, e foi, na altura, a visão transmitida a um grupo de pessoas, o que era um sonho muito audaz.
Tinha-se um país que era um país muito subdesenvolvido. Um país que apenas produzia cana-de-açúcar e um país onde, felizmente, a revolução pôs fim a isso. Um país que caminhava para ser uma Las Vegas; um país que caminhava para ser um paraíso da prostituição. Era isso, Cuba, e isso era Cuba durante a ditadura de Batista. E não precisam de acreditar em mim, basta verem o Padrinho Parte II para ver como isso está reflectido no filme. Essa era a visão daqueles que governavam Cuba antes de 1959, e a visão de Cuba daqueles que vieram depois, em 1959, era o completo oposto: tornar Cuba num país de ciência.
É, pois, esse, o contexto. Em 1964, foi criada uma universidade técnica ou universidade tecnológica que se chama Antonio Echeverría, e toda a Engenharia que saiu da Universidade de Havana foi para esta universidade. E o edifício que albergava os estudantes de Engenharia é hoje o edifício da Faculdade de Física.
Este edifício tornou-se uma universidade inteira depois disso. Uma grande universidade, após o que houve, bem, como já referi, a refundação da Academia de Ciências de Cuba e tudo isto a acontecer, tudo isto a acontecer e, claro, isto demora alguns anos. Quero dizer, tentar formar uma massa de pessoas, tentar formar um número de pessoas que possam aceder à universidade, que possam estudar, depois terminam os seus estudos e depois especializam-se e assim por diante, tudo isso leva vários anos. Ao mesmo tempo, começámos a enviar estudantes para o antigo bloco soviético para estudarem ciência.
Assim, milhares de estudantes foram para a União Soviética, para a RDA, para a Hungria, para a Checoslováquia da altura, e assim sucessivamente, para seguir carreiras científicas, para estudar disciplinas científicas.
Quando todos esses estudantes começaram a regressar nos anos 80, tivemos uma explosão da Ciência em Cuba. Criaram-se muitos institutos e, digamos, todo esse esforço começou a dar fruto.
Assim, tínhamos muitas coisas a acontecer e o impulso da ciência nunca parou. O impulso da ciência nunca parou porque, repito, recordando aquelas palavras: o futuro de Cuba teria de ser um futuro de homens e mulheres de ciência. Essa visão nunca nos abandonou.
Como podem imaginar, quando essa é a visão, aplica-se muito esforço nisso. E apenas para terminar e não prolongar mais esta resposta, devo dizer, por exemplo, e como um exemplo de que este impulso nunca terminou, o seguinte:
Tínhamos três universidades, como disse. A certa altura, passámos a ter 14 universidades, uma universidade em cada província de Cuba. Assim, de três passámos para 14 universidades e passámos para dezenas de institutos científicos. Muitos deles, na verdade quase todos, com um foco específico, com algumas excepções, especialmente na universidade que é mais orientada para a vertente académica. Foco muito específico em aplicações, na agricultura, na saúde, no desenvolvimento energético e assim por diante.
Surgiram assim muitas instituições científicas. Houve todo um esforço no ensino universitário e na educação. Criámos e iniciámos aquilo a que chamávamos escolas vocacionais de ciências, isto para os estudos de preparação para entrar na universidade.
Creio que nos Estados Unidos havia algo chamado college ou coisa parecida. E criámos em cada província um colégio interno especial para os estudantes que queriam estudar ciências, que queriam estudar ciências e engenharia. Aí os estudantes recebiam uma educação especializada em ciências, em matemática, num sentido prático que os preparava melhor para ingressar mais tarde em carreiras de ciências e engenharia.
Assim, tínhamos tudo isso em cada província, tudo isto que vos estou a contar. Também começámos a criar o que chamávamos Palácios dos Pioneiros. Chamamos pioneiros — e isso é uma espécie de tradição cubana — chamamos pioneiros às crianças. Esses são os pioneiros do futuro. Por isso, chamamos-lhe o Palácio dos Pioneiros.
Este Palácio dos Pioneiros destinava-se a actividades extracurriculares onde os estudantes iam e podiam integrar — a palavra em espanhol é para mim difícil de traduzir — os chamados círculos, significando pequenos grupos. Têm uma espécie de mentor e fazem algo em algumas áreas especializadas, como experiências escolares de física ou de química, ou fazem algumas experiências de engenharia e assim por diante. Depende do que as crianças gostam de fazer.
Portanto, se repararem, todo este esforço é um sistema completo de formação de recursos humanos em grande escala, a uma escala social, para atrair as pessoas para a ciência, para a ciência e tecnologia, na universidade.
E ia terminar dizendo que inaugurámos em 2002 a última universidade que foi construída em Cuba, a Universidade das Ciências Informáticas, que é uma universidade de âmbito nacional. Recebe estudantes de todo o país, é uma universidade que tem muitos residentes, pelo que os estudantes de fora de Havana têm um lugar para viver. Em Cuba, ao contrário de outros países, e talvez na Europa isto seja mais comum, mas certamente não é o comum nos Estados Unidos, em Cuba não se paga para estar na universidade, recebe-se para estar na universidade. Assim, os estudantes que entram na universidade recebem uma espécie de bolsa enquanto estudam, mas também os estudantes que vivem longe da universidade ou os estudantes que têm problemas económicos em casa, têm um lugar para viver perto da universidade, recebem um subsídio para alimentação, por isso têm comida todos os dias, ou seja, pequeno-almoço, almoço e jantar gratuitos; a única coisa que têm de dar em troca é estudar e licenciar-se.
A última universidade foi a universidade de ciências informáticas, e esta escola foi criada, digamos, quando estávamos a sair do chamado período especial. A escola foi criada porque tínhamos a visão de que a informática já se mostrava, naquela altura, como o futuro. Por isso criámos esta universidade de ciências informáticas e dissemos: “vamos trazer estudantes de todo o país”, e foi construída uma cidade em redor desta universidade, e vieram estudantes de todo o mundo. Uma das condições que foi imposta à universidade foi a de que tinha de ter estudantes de todos os municípios do país. Não apenas das grandes cidades das províncias, não apenas das pequenas cidades das províncias, mas de cada município do país, do município mais remoto no lugar mais isolado do país, era obrigatório ter estudantes de lá. Essa foi uma das condições: era necessário ter estudantes de todo o país a frequentar esta universidade. Foi, digamos, o último grande esforço na construção de universidades feito em Cuba, e o seu resultado mantem-se com muito sucesso.
Foi também uma visão muito audaz da forma como estes estudantes iam estudar na universidade, porque criaram um modelo em que se estuda, mas logo nos primeiros anos da universidade estuda-se integrando-se em projectos reais de produção, em projectos de produção de software. Assim, os estudantes estudavam e trabalhavam, e estavam realmente envolvidos em projectos de software reais e projectos informáticos que resultaram em soluções de software para Cuba, para a indústria cubana, para a economia cubana e assim por diante.
É, pois, essa a ideia. Espero tê-la transmitido e espero que entenda a diferença entre o antes de 1959 e o depois de 1959 no que toca à ciência e à educação em Cuba.
MG: Muito obrigado. E não apenas a diferença entre a antiga e a nova Cuba, mas a diferença entre Cuba e muitos outros países com os quais poderíamos fazer comparações, países com um tipo de sistema muito diferente. Na verdade, esta é uma perspectiva inspiradora do que a educação e a ciência poderiam ser para tantos outros países. Então, passemos aos efeitos de todos estes anos de bloqueio dos EUA e ao actual — ao que poderíamos chamar o cerco da administração Trump —, que é, obviamente, um tipo de agressão ainda pior. Os efeitos do bloqueio na ciência cubana em geral e, para lá da ciência, na vida quotidiana do povo cubano, pessoas como o senhor, os seus amigos e a sua família.
EER: Muito bem. Novamente, permita-me dar algum contexto: as sanções dos Estados Unidos contra Cuba não são novas. Surgem logo em 1960. A primeira sanção económica contra Cuba foi oficialmente assinada por Kennedy. Mas, antes disso, já tínhamos uma agressão a decorrer na frente económica. Já falei de outras frentes, da área militar e por aí fora.
Na frente económica começou-se por aplicar sanções a Cuba através da redução da quantidade de açúcar que os Estados Unidos iam comprar a Cuba. E o bloqueio, como política oficial do governo dos Estados Unidos, começou em 1960 ou 1961. Os historiadores podem corrigir-me na data exacta.
Após esta primeira lei, ao longo de todos estes anos, assistiu-se a uma acumulação de diferentes leis com diferentes sanções, todo o tipo de leis e disposições legais nos Estados Unidos.
Por isso, hoje em dia, o que chamamos de bloqueio é uma teia bastante complicada de sanções que estão espalhadas pela legislação americana. Assim, mesmo que nos foquemos hoje em certas actos legislativos que são os mais prejudiciais, é preciso compreender que as sanções económicas, as sanções financeiras dos Estados Unidos contra Cuba, formam uma rede espalhada na legislação dos Estados Unidos que foi sendo construída, por vezes, de forma um pouco aleatória, no sentido em que se tem uma disposição que atribui uma sanção nesta lei que tem a ver com algo na energia, ou nesta outra lei que tem a ver com a agricultura, ou nesta outra lei que tem a ver com outra coisa qualquer, pelo que estão espalhadas por todo o lado. Antes da administração Clinton foi dado um primeiro passo no sentido de uma política mais agressiva de sanções contra Cuba após a queda da União Soviética, e isso surgiu sob a forma de uma lei dita Lei Torricelli. A Lei Torricelli continha os primeiros exemplos do alcance extraterritorial das leis americanas. A Lei Torricelli foi a primeira lei que disse a pessoas de outras empresas e governos, que não dos Estados Unidos, que se fizessem certas coisas em Cuba ou com cubanos seriam sancionadas.
Uma das coisas, por exemplo, é que qualquer navio que chegue a um porto cubano fica proibido de ir a um porto americano durante seis meses. Portanto, imaginem um país como os Estados Unidos, que tem a maior quota de comércio do mundo a dizer aos armadores que, se enviarem um navio a Cuba, esse navio fica impedido de entrar nos Estados Unidos durante seis meses.
E se olharem para o mapa do mundo e se olharem para o tamanho de Cuba, podem imaginar que um navio que, por exemplo, venha da Ásia ou da Europa para Cuba, porque é que há-de vir a Cuba recolher algo ou trazer algo? Os Estados Unidos estão apenas a 180 quilómetros de Cuba. Portanto, é muito natural dizer: “Bem, recolho algumas coisas em Cuba, recolho algumas coisas nos Estados Unidos e regresso”, ou “trago algumas coisas para Cuba e trago algumas coisas para os Estados Unidos”.
Agora, estão a dizer a esse navio: “Não, não podes fazer isso. Não apenas nesta viagem, mas nos próximos seis meses”. E isso significa que o armador dirá: “Muito bem, cubanos, enviar-vos-ei o navio, mas têm de me pagar por seis meses de trabalho deste navio, ou o que este navio me renderia se tivesse sido autorizado a ir para os Estados Unidos”. Portanto, não estamos a pagar o preço de uma viagem. Estamos a pagar seis meses por uma viagem.
E a lei começou… bem, isto veio antes, esta lei apenas agravou. Se houver qualquer produto: se estiverem noutro país, se estiverem na França e importarem açúcar cubano para fazer bolos, não podem vender esses bolos aos Estados Unidos. Qualquer produto, não importa de onde seja, que tenha mais de 5% de alguma matéria-prima cubana não pode ser vendido aos Estados Unidos. Mas não só isso. Diz também que todo o produto que inclua qualquer tipo de propriedade intelectual dos Estados Unidos, qualquer patente, qualquer tecnologia, não pode ser vendido a Cuba. Isso significa que, se eu estiver a vender um avião a Cuba, e esse avião for um avião construído na Europa, pode o motor ser europeu, o avião inteiro ser europeu. Mas se o ar condicionado, o equipamento de conforto, os bancos tiverem uma patente americana; não posso vender o avião a Cuba.
É disso que estamos a falar. Isso é o bloqueio. E isto começou — quero dizer, foi uma acumulação de sanções. Mas teve realmente um forte agravamento com a Lei Torricelli após a queda da União Soviética.
Mas depois, durante o mandato de Clinton, ficou ainda pior. Aprovaram uma lei chamada Lei Helms-Burton, que foi ainda mais drástica.
Era realmente uma lei completamente extraterritorial. Dizia que qualquer transacção financeira que se faça com Cuba será sancionada pelos Estados Unidos. Suponha que é um homem de negócios, trabalha numa empresa no Japão e o que está a fazer com Cuba é considerado contra o interesse americano: não é a empresa que é sancionada, é o senhor, enquanto pessoa: que deixa de poder entrar nos Estados Unidos.
É mais do que isso: a sua família não pode entrar nos Estados Unidos porque o senhor trabalha numa empresa que tem uma ligação económica com Cuba que é considerada ser contra o interesse dos Estados Unidos. É a esse ponto que chega a Lei Helms-Burton.
A Lei Helms-Burton também dizia o seguinte: aqueles que não sendo cidadãos americanos, vivam em Cuba e considerem que a Revolução Cubana tomou medidas que os prejudicaram economicamente — e posso falar um pouco sobre o que isso significa na realidade — podem apresentar uma reclamação num tribunal dos Estados Unidos. Quero dizer: isto é algo que está a acontecer em Cuba. Casos de pessoas que não eram sequer cidadãos americanos na altura.
Mas depois pode-se ir a um tribunal americano e processar o governo cubano num tribunal americano por algo que não teve lugar nos Estados Unidos.
Portanto, está-se a dizer que o tribunal americano tem jurisdição sobre o que acontece noutro país. E o que significava falar-se de uma medida cubana que afectava algum cidadão cubano ou de outro país que estivesse em Cuba? Significava que em Cuba a maior parte da terra estava nas mãos de muito poucas pessoas.
Entretanto, a população rural, os agricultores, passavam fome. Eles não tinham direito a obter a propriedade da terra. Havia poucas famílias que eram os barões da terra, eles eram donos da terra. Cuba fez uma reforma agrária. E a reforma agrária significou que a terra agrícola ia ser redistribuída por aqueles que trabalhavam a terra. Mas não foi feito de forma arbitrária. Foi feito com base numa lei em Cuba de 1940. Não uma lei da revolução cubana, uma lei de 1940. E essa lei tinha uma disposição estipulando que os proprietários iam ser pagos por essas terras. E Cuba começou a pagar aos proprietários dessas terras. E o mesmo se aplica a empresas. Cuba nacionalizou várias empresas com base numa lei de 1940. Foi uma nacionalização legal. E essa nacionalização tinha uma disposição de que esses proprietários tinham de ser pagos por isso. E eles foram pagos, excepto as empresas americanas. Havia empresas inglesas, francesas, japonesas e espanholas; foram todas pagas, excepto as americanas. E porquê? Porque o governo americano recusou qualquer negociação de pagamentos. Portanto, quando hoje o governo americano diz que aplica o embargo, como lhe chamam, porque Cuba confiscou propriedades americanas, nós dizemos-lhes que isso é mentira. Negociámos com todos os outros países e chegámos a acordos sobre como pagar tudo isso. Foram os senhores que recusaram isso porque pensaram que a revolução não ia durar e pensaram que podiam derrubar-nos. E também dizem, por exemplo, que estes pagamentos foram feitos subavaliando as empresas. E então nós dizemos que os pagamentos foram feitos de acordo com o valor que essas empresas declaravam perante a instituição fiscal cubana. Portanto, se dizem que a vossa empresa vale… que o valor da vossa empresa é de 10 dólares, então pagarão apenas 1 dólar de impostos. E agora eu digo-vos: “Muito bem, disseram que era de 10 dólares durante todos estes anos. Agora, aqui estão os vossos 10 dólares”. E eles dizem: “Não, a minha empresa não vale 10 dólares. A minha empresa vale 1 milhão de dólares”. Então porque é que disseram nos últimos 10 ou 20 anos que era uma empresa que valia 10 dólares? Porque isso vos permitia pagar apenas 1 dólar de impostos. Portanto, essa é a verdadeira história por trás de tudo isto. E voltando… eu falo demasiado. Mas voltando à pergunta. Tivemos então a Lei Helms-Burton e a Lei Helms-Burton foi uma lei realmente muito dura, e esta lei muito dura significou — e aqui entro na ciência novamente —, esta lei muito dura significou, por exemplo, que para nós é muito difícil, extremamente difícil comprar equipamento científico. Em primeiro lugar, os Estados Unidos são o maior produtor de equipamento científico do mundo, por isso esqueçam todo esse equipamento. E alguns desses equipamentos são únicos. Portanto, se não o comprarem a uma empresa americana, não o conseguem comprar em mais lado nenhum. Mas digam-me um equipamento científico que não tenha no seu fabrico alguma patente que seja uma patente nos Estados Unidos. Portanto, comprar esse equipamento torna-se extremamente difícil. E além de tudo isso, há a pressão de que, quando se consegue alguém que está disposto a vender-nos um equipamento, essa pessoa recebe uma ameaça directa da embaixada americana nesse país que diz “não venda esse equipamento”, e eu tenho experiência pessoal disso. Nós combinámos, por exemplo, comprar equipamento de difracção de raios X a empresas europeias e organizámos tudo; eles enviaram uma proposta. Acordámos o preço. Fomos lá. Vimos o equipamento. Tudo estava bem. Tudo parecia correr sem problemas e, de repente, a empresa deixou de comunicar connosco. Zero — nada. De repente, silêncio. Começámos a enviar-lhes, bem, hoje em dia emails, antes faxes e afins, “por favor, vamos fechar o acordo, vamos fazer o pagamento” e por aí fora… silêncio, e depois viemos a saber… isto aconteceu-me pelo menos duas vezes e, numa delas, recebi uma mensagem pessoal de uma das pessoas com quem estávamos a falar e ele disse-me: “Desculpe, não podemos dizer nada oficialmente, mas fomos instruídos a não vos vender”. Portanto, estão a falar do impacto, isso é um impacto, mas não fica por aí. Impacta os resultados da nossa investigação científica e a aplicação dos nossos resultados científicos.
Por exemplo, na medicina e na saúde, que é o principal campo de aplicação científica em Cuba, eles pressionam os países a não comprarem produtos farmacêuticos cubanos. Portanto, estão a tentar evitar que esses resultados científicos cubanos, que se transformam em produtos, cheguem a outros países, e isto é realmente criminoso até porque alguns desses produtos médicos farmacêuticos são únicos no mundo. Portanto, estão a dizer a países fracos, especialmente países subdesenvolvidos, países que não podem travar uma luta contra os Estados Unidos, estão a dizer-lhes: “Não comprem este medicamento que vai salvar vidas nos vossos países porque é de Cuba”. É isso que o bloqueio significa. Mas não só isso, nós temos produtos únicos no cancro, tratamentos contra o cancro. Temos produtos únicos noutras áreas: doença de Parkinson e doenças neurológicas, agora Alzheimer e assim por diante. Para as pessoas diabéticas, temos um medicamento único para salvar os membros de pessoas diabéticas, o que é um problema para os diabéticos. E muitas pessoas diabéticas sofrem amputações dos membros devido às consequências da diabetes. E nós temos um medicamento que tem sido capaz de reduzir o número de amputações em até 70 a 80%. Não se pode comprá-lo nos Estados Unidos. O bloqueio não permite que o povo americano tenha acesso a um medicamento que pode mudar a qualidade de vida, ou ter acesso a um medicamento… como nós temos vacinas contra o cancro que são únicas no mundo e o povo americano não pode ter acesso a esses medicamentos que poderiam significar uma maior esperança de vida para eles. É isso que o bloqueio significa. Não é apenas um bloqueio contra Cuba, é um bloqueio contra o mundo. E penso que também é importante transmitir isso, que é um bloqueio ao mundo e devido a uma obsessão com Cuba que o governo dos Estados Unidos tem contra Cuba, e não é apenas esta administração, se olharmos para os últimos 60 anos.
O que aconteceu com esta administração foi que esta tem sido a mais agressiva administração americana na história de Cuba, e eles agora dispensam todo o discurso político que tentava, de alguma forma, ocultar a verdadeira intenção do bloqueio. E vêm de uma forma bastante directa dizer “vamos inclusive fazer uma agressão militar contra Cuba e vamos tentar sufocar o povo cubano porque queremos que eles mudem para um governo de que nós gostemos, porque queremos que obedeçam às nossas regras” — e pronto. E fazemo-lo porque podemos, e Trump disse-o muito claramente, não apenas no caso de Cuba, mas em geral: “Eu faço-o e a minha única limitação é a minha moralidade”, o que não é uma limitação muito forte no caso de Trump. Portanto, esta é a situação neste momento e, claro, neste ano começaram em Janeiro com algo criminoso — porque o bloqueio é criminoso, isto é genocida. Disseram: “Nenhum combustível para Cuba…” Cuba é uma ilha. Cuba é uma pequena ilha. É uma pequena ilha próxima dos Estados Unidos. Então, agora têm navios de guerra a circular em redor de Cuba para evitar que navios que transportam petróleo entrem em Cuba, e Cuba importa a maior parte do petróleo de que necessita porque não temos campos de petróleo muito grandes. Temos alguns… não temos campos de petróleo muito grandes e agora estamos apenas dependentes do que conseguimos produzir, e isso significa apagões, apagões de 20, 30 horas, isso significa quase nenhum transporte, isso significa combustível e electricidade.
Não estamos a falar da economia, que está destruída. Estamos a falar de hospitais. Estamos a falar de escolas. Estamos a falar do transporte de alimentos. Estamos a falar da produção agrícola e por aí fora. Tudo isso está em risco devido a esta agressão extrema contra o nosso país. E eles dizem… “Não, estamos a sancionar o governo cubano”. Isso é mentira. Estão a sancionar o povo cubano. Estão a fazer uma sanção colectiva e uma agressão colectiva contra 10 milhões de cubanos, não contra o governo cubano. Porque quando sofremos os apagões, somos nós que sofremos os apagões, os 10 milhões de cubanos. Portanto, nessas condições — e também tenho de enfatizar isso porque se lê agora nas notícias: “Cuba está à beira de uma crise humanitária”, “Cuba está a colapsar” e assim por diante. E eu tenho de dizer que a vida em Cuba neste momento é extremamente difícil. A vida em Cuba, agora mesmo, está em modo de sobrevivência. Mas não estamos a colapsar. A universidade continua aberta. Estamos a dar aulas. Agora não temos os estudantes na sala de aula, mas estamos a usar a mesma tecnologia que estamos a usar para esta entrevista para manter as palestras a decorrer. Distribuímos o ensino universitário por todos os municípios de Cuba. Assim, os estudantes podem ir a um espaço que chamamos de espaço universitário municipal e assistem aí a algumas palestras e, por exemplo, para a física isso não é muito difícil porque somos uma faculdade pequena, por isso temos apenas um par de centenas de estudantes e para nós organizar isso não é assim tão difícil; noutras disciplinas é mais difícil, claro, e continuamos a dar-lhes aulas, continuamos a dar as palestras. Acabei de terminar a minha palestra semestral de electrodinâmica. Fizemo-lo de forma virtual e fazemos tudo virtualmente, e os estudantes tiveram acesso a todos os materiais e, tal como nesta entrevista, tínhamos encontros periodicamente e tínhamos intercâmbio e assim por diante, e os estudantes tinham… por computador e afins podiam ter algumas plataformas onde podíamos interagir e eles podiam fazer-me perguntas e eu podia responder-lhes e assim sucessivamente. Claro que estas não são as condições ideais, mas a principal decisão que tomámos é que não vamos desistir. Portanto, a universidade está aberta. Continuamos a trabalhar e, neste momento, por exemplo, nas últimas semanas, quatro estudantes meus defenderam as suas dissertações de licenciatura e defenderam a sua dissertação de licenciatura com nota máxima, e tenho vários estudantes a fazer o mestrado e eles continuam a trabalhar no mestrado, e tenho vários estudantes a fazer o doutoramento e eles continuam a trabalhar no doutoramento e continuam a licenciar-se e assim por diante, e esse não é apenas o meu caso, esse é o caso de quase todos os professores da universidade. Portanto, estamos em modo de sobrevivência. Não estamos a colapsar. Fizemos, estamos a fazer, uma revolução silenciosa na transformação da infra-estrutura energética de Cuba rumo à energia solar e rumo a outras energias renováveis. Estamos a aumentar a produção de petróleo em Cuba. Cuba é há muito conhecida pela sua agricultura sustentável, que utiliza muito menos produtos químicos — para ser cientificamente correcto, químicos agressivos —, utilizando produtos de tipo mais orgânico para a agricultura e assim por diante. Estamos a intensificar isso para podermos continuar a produzir culturas agrícolas e afins. Quer dizer que a produção não diminuiu? Claro que diminuiu. A produção de produtos agrícolas diminuiu drasticamente. Se não houver petróleo, não há como transportar comida para os animais. Não há como transportar fertilizantes para a agricultura. Cuba não tem grandes rios. Portanto, a irrigação dos campos de cultivo tem de ser feita artificialmente, e isso significa petróleo; há um problema com isso. Mas apesar disso, estamos a encontrar soluções para cada problema e hoje estamos em modo de sobrevivência, mas vamos vencer. O que temos de evitar é a agressão militar contra Cuba. Deixem-nos em paz. Nós orientamo-nos. Dizemos aos Estados Unidos: deixem-nos em paz. Nós conseguiremos vencer e vamos vencer. E isso é um pouco o que me perguntou sobre a situação em Cuba. Essa é a situação em Cuba. Não estamos a colapsar. Estamos a sobreviver e estamos a lutar. É duro. Pode ficar ainda mais duro. Mas não vamos desistir. Vamos vencer.
MG: Obrigado por isso. Isto realmente complementa muito, como diz, as notícias que temos ouvido de que Cuba está à beira do colapso, e aqueles de nós que já estiveram em Cuba e conhecem a história sabem que os cubanos aprenderam a sobreviver sob circunstâncias muito duras, como descreveu, neste período especial, e a encontrar soluções, como diz. Bem, penso que os nossos espectadores estariam interessados em saber o que podem fazer para ajudar a parar esta agressão, o cerco contra Cuba. Quero dizer, enquanto cientistas, enquanto comunidade científica, haverá um papel especial que possamos desempenhar não apenas no apoio à ciência cubana, mas no apoio ao povo cubano, ao povo cubano em geral? Haverá algum tipo de influência especial que os cientistas possam ter a este respeito?
EER: Bem, a colaboração científica é essencial para a ciência cubana, por todas as coisas que mencionei anteriormente, por exemplo, o acesso a equipamento de última geração — não o temos no país, fazemo-lo através de colaboração: enviar jovens para estudar no estrangeiro é muito importante para nós neste momento; tenho seis estudantes meus na Alemanha, por exemplo, alguns deles já a terminar o doutoramento e alguns deles a estudar e por aí fora, e isso acontece com quase todos os professores, enviamos os nossos estudantes para o estrangeiro para que possam entrar em contacto com equipamento de última geração, mas também com um ambiente científico, um ambiente científico que é muito difícil de encontrar em Cuba devido a todas estas lacunas de que estamos a falar agora. Portanto, lá eles podem ter intercâmbio com outros estudantes.
Podem ter um intercâmbio, podem ir a conferências e assim por diante, o que a partir de Cuba é bastante difícil porque não podemos enviar pessoas a conferências científicas internacionais.
Não temos dinheiro para isso, para pagar a inscrição, para pagar a estadia lá fora e o mais. Assim, tudo o que fomente, tudo o que melhore a colaboração, para nós é muito importante, para a ciência cubana é muito importante. Tudo o que tenha a ver com projectos conjuntos, com ajudar-nos a continuar a fazer ciência e a continuar a formar recursos humanos e a trazer jovens para a ciência através da colaboração, para nós é extremamente importante. Isto tem a ver com algo que perguntou antes, mas estou a ver alguns números aqui e tinha-os no computador e não os mencionei. E quero mencioná-los agora e também dar algum contexto sobre o que estamos a fazer. Tem a ver com a sua pergunta. Em Cuba, há cerca de 90 000 pessoas a trabalhar na ciência. Isso significa técnicos e todas as pessoas — cada pessoa envolvida na ciência. Para um país de 10 milhões de pessoas, isso é muito. É muito. Mas deixem-me dizer-vos que 56% dessas pessoas que trabalham na ciência são mulheres, e a UNESCO reconheceu que Cuba está entre os sete países do mundo que alcançaram a melhor paridade de género na ciência. Por isso, gostaria de vos dar esse contexto: temos cerca de… os números variam um pouco, mas cerca de 50 000 mulheres na ciência em Cuba, e 38,4% — não falando de mulheres a trabalhar na ciência em Cuba em geral, mas de mulheres como líderes científicas — 38,4% dos líderes científicos em Cuba são mulheres, e eu queria dar-vos essa perspectiva também para compreenderem que, de certa forma, é isto que podem estar a apoiar quando fazem algo a favor de uma colaboração, que é muito, muito importante, as doações são muito importantes, a doação de equipamento é muito importante — aquelas peças de equipamento desactivadas porque compraram equipamento novo e afins, mas que ainda estão funcionais, fazer chegar esses equipamentos a Cuba poderia ser importante não apenas para a investigação mas também para o estudo; houve uma revolução na instrumentação nos últimos 20 anos, e todos sabemos que em todos os campos da ciência temos equipamentos novos e melhores. Nos últimos 20 anos, houve realmente uma revolução no lado instrumental da ciência. Nós perdemos quase toda essa revolução. Não tivemos realmente uma grande entrada de equipamento nos últimos 20 ou 30 anos.
E isso significa que os nossos estudantes têm falta de formação em certas áreas. No meu campo, a microscopia, por exemplo, e toda a revolução que tem vindo a acontecer na microscopia, os nossos estudantes perderam-na. Portanto, temos de enviá-los para o estrangeiro para aprender e, claro, só podemos enviar alguns para o estrangeiro para o fazer. Não se pode enviar dezenas ou mesmo centenas de estudantes para o estrangeiro. Portanto, envia-se o que se pode enviar. Assim, os nossos estudantes carecem desta formação experimental. Embora continuemos a dar-lhes, digamos, o conhecimento teórico, eles não podem pôr as mãos no equipamento. Portanto, as doações para nós são muito importantes, não apenas para a investigação, mas também para o estudo.
E, claro, tudo… quero dizer, a colaboração na ciência tem sido algo muito importante na história cubana de 59 até agora, mesmo num sentido político durante a guerra fria, e durante todo o período especial após o fim da União Soviética.
A ciência foi uma ilha de colaboração entre Cuba e os Estados Unidos. Provou que podíamos trabalhar juntos. Provou que há laços e que há pontes que podem ser construídas com base na boa fé, com base em objectivos comuns e, no fim, baseadas na aspiração de que a ciência é para a humanidade.
A ciência não serve uma postura política, não serve uma ideologia particular; a ciência serve para a melhoria de todos e esse tem sido, diria eu, o sinal da colaboração científica entre Cuba e o mundo, especialmente entre os cientistas cubanos e os cientistas americanos, e neste momento, por exemplo, há um projecto conjunto muito importante entre o Centro Oncológico Roswell Park, em Buffalo, e o Centro de Imunologia de Cuba numa vacina contra o cancro que está a ser testada clinicamente nos Estados Unidos.
É uma vacina muito promissora para o cancro do pulmão e este projecto já decorre há vários anos. É um ensaio clínico e os resultados são impressionantes, podendo beneficiar não apenas os cubanos, não apenas o povo dos Estados Unidos, mas sim o mundo inteiro numa questão tão delicada como o tratamento do cancro.
Por isso, este tipo de projecto demonstra de forma prática as coisas que podem ser feitas. Também tenho falado sobre a colaboração científica a propósito deste projecto, mas penso que a ciência também pode ser um estímulo, uma ponte para a amizade e uma ponte para os valores humanos. Isso também pode ser alcançado por quantos, especialmente os cientistas americanos, levantarem a voz contra esta punição colectiva, levantarem a vossa voz contra esta ideia de que a força é o caminho para avançar nas relações entre países. Como é óbvio, Cuba não é um país perfeito e os Estados Unidos também não são um país perfeito. Temos muitas coisas a melhorar em Cuba, tal como os Estados Unidos têm muitas coisas a melhorar, e temos coisas de que não nos orgulhamos, assim como os Estados Unidos têm coisas de que não se orgulham. No entanto, nós não nos dirigimos ao governo americano para dizer: “se não fizerem isto, isto e aquilo, vamos punir-vos, vamos sancionar-vos e, se continuarem, vamos invadir-vos ou fazer um ataque terrorista ou algo do género” — não nos façam o mesmo. Penso que é importante transmitir este tipo de discurso. Não estamos a dizer que somos um país perfeito. Estamos a dizer: deixem-nos em paz. Deixem-nos — governo americano, deixem-nos em paz. Deixem-nos resolver os nossos problemas por nós próprios. E nós vamos resolver muitos problemas sozinhos. Temos resolvido problemas nos últimos 60 anos porque, apesar de toda esta narrativa sobre Cuba ser um país falhado, se olharmos para os números, Cuba está longe de ser um país falhado. No contexto da América Latina, Cuba é um país bem-sucedido. Não existem os números de educação que temos em Cuba em nenhum outro país da América Latina. Não existem os números de saúde que temos em Cuba em nenhum outro país da América Latina. Não existe o acesso das mulheres às áreas de STEM e à educação em geral que existe em Cuba em nenhum outro país do mundo e na região da América Latina. Não existe a segurança social que temos em Cuba em nenhum outro país da América Latina. Portanto, Cuba está muito longe de ser um país falhado, apesar desta narrativa que é reproduzida repetidamente pela comunicação social americana e pelo governo americano de que Cuba é um país falhado. Estamos muito longe de ser um país falhado e até os nossos fracassos económicos não nos podem ser assacados. Culpem a vossa agressão. Deixem-nos em paz. Se somos um fracasso económico tão grande, deixem-nos em paz. Nós, ou provaremos que somos incompetentes ou provaremos que conseguimos sair deste buraco. Se somos um fracasso, porque é que nos punem economicamente? Deixem-nos falhar. Deixem-nos falhar. E sempre que lhes perguntamos isso, eles calam-se.
Por isso, sendo um cientista americano, pergunte à sua universidade, fale com os seus colegas, com a sua sociedade ou organização científica, digamos, independentemente da posição ideológica, independentemente da posição política, independentemente da sua própria ideia sobre se isto poderia ser melhor ou pior em Cuba, ou se isto poderia ser melhorado ou poderia ser feito de outra forma. Se o sistema político poderia mudar nesta ou naquela direcção. Independentemente de tudo isso, apenas do ponto de vista dos valores humanos que a ciência promove.
Falar sobre deixar Cuba em paz é uma mensagem importante. Se puder transmitir essa mensagem ao seu representante no Congresso, se puder transmitir essa mensagem ao governo americano, colocar essa pressão sobre o vosso governo, não estaremos a pedir nada de especial.
Não estamos a pedir um tratamento especial. Estamos apenas a pedir: acabem com o bloqueio, parem a agressão, deixem-nos avançar. E eu diria que essa é a maior contribuição — especialmente a que os cientistas americanos podem dar neste momento para ajudar a evitar uma agressão militar contra nós, porque quando as bombas começam a cair, elas não distinguem posições políticas. Não distinguem militares de civis. Não distinguem crianças de idosos, comunistas, ou seja, lá o que se lhes queiram chamar. Simplesmente caem e matam.
Parem a agressão. Parem a agressão contra Cuba. E o discurso do governo americano neste momento é de que vão atacar Cuba. E essa é a primeira coisa que temos de parar. Essa é a primeira coisa que temos de evitar.
Nós não nos vamos render. E posso dizer-vos que isso é um facto. Não nos vamos render. Mesmo que haja uma agressão militar contra Cuba, não nos vamos render.
E se também transmitir essa ideia, e se evitarmos o derramamento de sangue, creio que essa será a maior contribuição que podemos dar para a ciência cubana neste momento.
Muito obrigado. Sei que quem nos ouve terá aprendido muito e penso que, tal como disse, é muito importante que as pessoas ouçam o lado das pessoas em Cuba, e que isto possa desfazer um pouco da propaganda que recebem de grande parte da comunicação social ocidental de que falou. Por isso, gostei muito da nossa conversa e, como digo, espero que muitos dos nossos colegas, e outros, assistam a isto, apreendam a situação e possam agir no sentido que apontou.
MG: Muito obrigado por estar aqui, boa sorte para o seu trabalho e esperemos que os Estados Unidos escolham deixar Cuba viver, tal como disse.
EER: Obrigado a si, e obrigado por esta oportunidade de — pelo menos — dar a minha perspectiva sobre a situação e tenho a certeza de que é a perspectiva de alguns — pelo menos alguns — dos nossos colegas, e diria da maioria dos colegas que me rodeiam. E obrigado mais uma vez. Espero que da próxima vez que nos encontrarmos seja numa situação melhor, e mesmo que dessa próxima vez nos possamos encontrar pessoalmente, possamos falar mais sobre ciência e sobre como avançar nas áreas científicas que são, afinal de contas, a nossa paixão e aquilo para que vivemos. Por isso, obrigado novamente, muito obrigado.
MG: Obrigado também.
21 de Maio de 2026
Nota OTC: tradução editada para maior clareza
Acknowledgement:
OTC thanks Professor Michael Gasser and IUS-International Union of Scientists (https://www.iuscientists.org/) for the permission to translate into Portuguese and republish on our website the transcript of the interview with Dr. Ernesto Estévez Rams “Cuban Science Under Siege”
(https://www.iuscientists.org/cuban-science-under-siege-an-interview-with-dr-ernesto-estevez-rams/ )