23ª AG DA FMTC – MARRAQUECHE

Les participants de la 23e AG

 

23ª ASSEMBLEIA GERAL DA FEDERAÇÃO MUNDIAL DOS TRABALHADORES CIENTÍFICOS
SIMPÓSIO “A Ciência, por quem, para quem, porquê”
Marraqueche, Marrocos, 8-13 de Maio 2022

Atrasada no tempo pelas contingências do surto epidémico que afligiu, e aflige ainda, vastas regiões do planeta e ainda com a memória viva da última Assembleia Geral, acolhida em Dakar, Senegal, em Dezembro de 2017, reuniu-se agora, uma vez mais no continente africano, a 23ª Assembleia Geral da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos. A Federação, criada em 1946 pela British Association of Scientific Workers em conjunto com alguns dos mais notáveis cientistas do século passado, teve como primeiro presidente o físico francês Frédéric Joliot-Curie, Prémio Nobel da Química partilhado com Irene Joliot-Curie, sua mulher, filha de Marie Curie. Em Julho do ano passado celebrou, assim, três quartos de século de existência. A 23ª Assembleia Geral estatutária que deveria ter tido lugar em 2021, realizou-se agora por força das referidas contingências. A OTC, filiada na Federação Mundial há quase quatro décadas, esteve presente em Marraqueche, representada pelos membros da direcção, Frederico Carvalho, Joana Santos e Maria Elmina Barreira Lopes. Estiveram também presentes as duas outras associações nacionais filiadas na Federação Mundial que são a FENPROF – Federação Nacional dos Professores e a ABIC – Associação dos Bolseiros de Investigação Científica. No total estiveram representadas 30 organizações de 15 países e quatro continentes.

A representação portuguesa: OTC, ABIC, FENPROF

Em Marraqueche, pela primeira vez na história da Federação, a reunião magna que é a sua Assembleia Geral realizou-se em modo híbrido ― presencial e à distância, por vídeoconferência. Assim pôde concretizar-se a participação de associações filiadas que por razões de vária ordem não puderam deslocar-se a Marrocos, em particular, a CAST, a Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia; o Sindicato Independente dos Trabalhadores Científicos da Academia das Ciências da Rússia; a Federação Mongol dos Trabalhadores Científicos; e também a FESIDUAS – Federação de Sindicatos de Docentes Universitários da América do Sul. Esta última esteve representada pelo colega Marcelo Magnasco que é também o Presidente da Federação Latino-americana de Trabalhadores Científicos (FedLaCI), estrutura criada em 2020.

Como é, de há muito, prática habitual acontecer à margem dos trabalhos da Assembleia Geral, também em Marraqueche se realizou um Simpósio que, neste caso, teve como tema “A Ciência, por quem, para quem, porquê? ― Ciência Aberta e desafios globais”. Trata-se, como se esperaria, de um tema abrangente envolvendo um largo espectro de questões e interesses, que cabem no enunciado e suscitam o debate de problemáticas, nos nossos dias com particular relevância, que se mostram determinantes para as condições de vida e trabalho da comunidade científica, para a sociedade em geral e para a própria sustentabilidade da vida no planeta. A ciência e o trabalho científico não são alheios a esta problemática, e dela não devem alhear-se, num quadro difícil de instabilidade geopolítica, de proliferação de conflitos de natureza e gravidade diversas, em que a comunidade científica, os frutos e avanços da ciência e da técnica, estão fatalmente envolvidos. A consciência desta situação marcou, como se desejaria, debates e intervenções que tiveram lugar nas sessões do Simpósio que decorreu no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade de Marraqueche.

O Simpósio abriu com a intervenção de Ana Persic, do Sector de Ciências Naturais da UNESCO, actualmente voltada para as questões ligadas à implementação da Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta. O seu trabalho prende-se com a consolidação da interface ciência-política e a promoção do papel da ciência, da tecnologia e da inovação na implementação da Agenda 2030 das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável, designadamente, os chamados “Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”.

Interveio em seguida Nahdia Gazzali, vice-presidente da INWES – International Network of Women Engineers and Scientists, uma ONG em parceria oficial com a UNESCO. Canadiana de origem marroquina, nascida em Casablanca, Nadia Gazzali é professora no Departamento de Matemática e Ciências Computacionais da Universidade de Quebeque. A INWES estabeleceu em 2021 relações de amizade e cooperação com a Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos. A intervenção de Nadia Gazzali enquadrou-se naquele que é o lema da sua organização: “construir, um futuro melhor para o mundo pela participação efectiva e abrangente das mulheres e raparigas em todos os aspectos da Ciência, da Tecnologia, da Engenharia e das Matemáticas”.

Seguiu-se a intervenção de Lan Xue, da já referida Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST). Lan Xue, professor na Universidade Tsinghua, em Pequim, é Vice-Presidente Executivo da denominada “Academia de Investigação para o Desenvolvimento do Século XXI” e Director do Instituto Chinês para a Política de Ciência e Tecnologia, daquela Universidade.

Interveio depois Elies Molins, Presidente da Associação do Pessoal Investigador do CSIC, de Espanha, professor-investigador do Instituto de Ciência dos Materiais, em Barcelona. Elies Molins é membro do Conselho Executivo da Federação Mundial e um dos coordenadores do Grupo de Trabalho da Federação que se ocupa da questão da transição energética no contexto das alterações climáticas.

Lan Xue-Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia-Intervenção convidada

A última intervenção convidada coube a Xiqiu Han, professora na Escola de Oceanografia da Universidade Jiaotong, de Xangai, tutelada pelo Ministério dos Recursos Naturais da República Popular da China. Xiqiu Han investiga a temática dos recursos minerais nos fundos oceânicos em ligação com os sistemas geológicos associados.
Importa referir que os vários oradores procuraram conciliar a abordagem dos temas tratados com os objectivos para que aponta o próprio título do Simpósio ―  “A Ciência, por quem, para quem, porquê? ― Ciência Aberta e desafios globais”.

A segunda parte dos trabalhos foi preenchida com duas Mesas-Redondas envolvendo debate com a assistência, presencial e por vídeoconferência.

Mesa-Redonda 1-Intervenção de Luís Moniz Pereira (FCT-UNL, OTC)

A primeira Mesa-Redonda teve por tema “Ciência Aberta e Ética da Inteligência Artificial”. Luís Moniz Pereira, membro dos órgãos sociais da OTC, foi um dos quatro oradores convidados pelos organizadores. [1] A seu lado estiveram Marcel Magnasco, já referido, da Federação do pessoal docente das universidades públicas da Argentina (FEDUN); a professora Nozha Ibnlkhayat, da Escola de Ciências da Informação, da Universidade de Rabat, Marrocos, e Chaimaa Haoufazane, da Faculdade de Ciências da mesma universidade.
A segunda Mesa-Redonda foi dedicada a um tema de particular interesse para o continente africano que está aliás no cerne do Projecto de Criação de um Fundo para o Desenvolvimento da Ciência em África [2], lançado e animado pela Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos ― “Os desafios actuais da Ciência em África”. Participaram, como oradores convidados: Salma Sylla Mbaye, doutoranda no Instituto de Tecnologia Nuclear Aplicada da Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, Senegal, que aspira tornar-se a primeira astrofísica do seu país. Salma Mbaye é membro do Programa da UNESCO para “A Mulher na Ciência no Mundo em Desenvolvimento”; Malick Fall, Secretário-Geral do SAES-Sindicato Autónomo do Ensino Superior, Senegal; Tayeb Hamdi, médico e investigador no domínio da política e sistemas de saúde, Vice-presidente da Federação Nacional de Saúde de Marrocos;.Magda Moner-Girona, investigadora sénior do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia (JRC-EC).

Mesa-Redonda 2- Intervenção de Magda Moner- Centro Comum de Investigação (UE)

Magda Moner possui um vasto curriculum no domínio do estudo de soluções técnicas que possam dar resposta às necessidades energéticas do continente africano, em particular na África Sub-sahariana.

Mesa-Redonda 2- Intervenção de Elena Haritonova, Instituto da África, Academia das Ciências da Rússia

Interveio, por último, Elena Kharitonova, Professora associada e Investigadora sénior do Centro de Estudos Civilizacionais e Regionais, do Instituto da África, da Academia das Ciências da Rússia (RAS).

OS TRABALHOS DA ASSEMBLEIA GERAL
Os trabalhos da Assembleia Geral da Federação decorreram, naturalmente, de acordo com as disposições estatutárias em vigor. Entretanto como acontece quando a Assembleia se reúne, não em França mas sim em outro país, fora, portanto, da sede da Federação em Paris, os trabalhos são precedidos de uma sessão inaugural em que as autoridades locais e a associação filiada co-organizadora do encontro, dão as boas vindas aos participantes. Em Marraqueche, a sessão de abertura foi preenchida com as intervenções de Jamal Sabbani, professor do Departamento de Física da Universidade Mohamed V de Rabat, Secretário-Geral do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup Maroc) ― a organização filiada da FMTC co-organizadora local do encontro ―, seguindo-se o reitor da Universidade de Marraqueche, em nome da Universidade e em representação do Ministro do Ensino Superior, Investigação Científica e Inovação, de Marrocos; por último, dirigiu-se aos presentes, por vídeoconferência, Shamila Nair-Bedouelle, Directora-Adjunta da UNESCO. A encerrar a sessão, o Presidente da Federação Mundial, Jean-Paul Lainé, apresentou o relatório da actividade desenvolvida desde a última Assembleia Geral, e as perspectivas de acção futura da Federação, no contexto da situação actual, no seio da Federação e do mundo. O Relatório do Presidente, que pode ser lido aqui, é, em nosso entender, um documento de grande importância, extremamente bem construído, uma síntese do que foi possível realizar no período que mediou entre a última e a presente Assembleia Geral, e ao mesmo tempo, um guia para orientação futura no contexto difícil que se atravessa, de geral incerteza, com sérios impactos nas condições de vida e trabalho dos trabalhadores em geral, dos trabalhadores científicos em particular, e da própria Ciência. 
Entretanto, deve sublinhar-se o facto de se verificar um alargamento da influência da Federação Mundial e um rejuvenescimento de quadros que lhe dão colaboração activa, o que é particularmente importante num momento em que se entendeu, correctamente, chegada a altura de renovar os órgãos dirigentes da Federação: o seu “Congresso” que é a Assembleia Geral, o seu “Parlamento” que é o Conselho Executivo, onde estão representadas todas as associações filiadas, e o seu “Governo” que é o Secretariado Internacional. Deve mencionar-se ainda a Comissão Independente de Controlo de Finanças que corresponde, no essencial, ao órgão entre nós designado por Conselho Fiscal.
Em Marraqueche procedeu-se à eleição dos membros destes vários órgãos e é com satisfação que sublinhamos a presença da OTC em todos eles. Assim a OTC conta agora com três membros da sua Direcção no Conselho Executivo da Federação Mundial ― Joana Santos, Maria Elmina Lopes, em representação da OTC, e Frederico Carvalho, Vice-Presidente do mesmo Conselho. No Secretariado Internacional tem agora assento a Joana Santos. Mário Diniz, também da Direcção da OTC, mantém-se como membro da Comissão de Controlo de Finanças. A FENPROF e a ABIC estão representadas no Conselho Executivo da Federação Mundial por André Carmo, responsável do Departamento de Ensino Superior e Investigação, e Rita Reis, respectivamente. André Carmo integra também o Secretariado Internacional. A composição dos dois órgãos referidos pode ser vista aqui

AG- Abertura dos trabalhos-Mesa da Presidência

Os trabalhos da Assembleia Geral desdobraram-se em 5 sessões ao longo da semana. A presidência da sessão de abertura dos trabalhos da AG  foi atribuída a Frederico Carvalho; Maria Elmina Lopes presidiu à 4ª sessão.
Na sessão de encerramento em que se procedeu à eleição dos novos corpos sociais a Assembleia aprovou por unanimidade um vibrante apelo à Paz e a um imediato cessar-fogo em todos os conflitos que neste momento estão em curso em várias partes do mundo. A este “Apelo de Paz de Marraqueche” daremos o devido relevo em outro local.

OS GRUPOS DE TRABALHO
Um outro importante documento saído desta Assembleia Geral é o Plano de Acção para os próximos anos. Este Plano de Acção que pode ser lido aqui, condensa em breves linhas as propostas oriundas das reuniões dos quatro Grupos de Trabalho temáticos constituídos no seio da Federação, que são sede e instrumento privilegiado de debate das questões que em cada momento se colocam à comunidade científica, à sociedade e ao mundo.

Relatos dos coordenadores dos Grupos de Trabalho

Os Grupos de Trabalho (GT) hoje activos são os seguintes:
GT1 – “Paz, Desarmamento e Cooperação”; GT2 – “Energia, Clima, Ambiente”; GT3 – “Situação da investigação e dos investigadores”: e GT4 – ”Fundo de Investigação para a África”.[3]

A ORGANIZAÇÃO DO ENCONTRO
O sucesso do Encontro de Marraqueche deve-se em boa parte ao aturado e inteligente trabalho de organização levado a cabo pela associação hospedeira, o Sindicato Independente do Ensino Superior de Marrocos, em parceria com os colegas da sede da Federação, em Paris. Entre outros aspectos, interessa referir que a organização proporcionou tradução bilingue, em francês e inglês, durante os trabalhos do Simpósio e durante a Assembleia Geral, bem como o dispositivo técnico que permitiu a participação à distância de um número importante de delegados e outros participantes. As sessões do Simpósio foram públicas bem como parte das sessões da Assembleia Geral. O bom acolhimento das autoridades marroquinas foi determinante para o sucesso do encontro ao facultar a utilização do excelente auditório e outras dependências da Faculdade de Medicina da Universidade de Marraqueche onde teve lugar a sessão inaugural e a abertura dos trabalhos da Assembleia Geral bem como o Simpósio e as duas Mesas-Redondas. Parte dos trabalhos teve ainda lugar num agradável complexo hoteleiro daquela cidade.

Os participantes na 23ª AG

Terminados os trabalhos foi proporcionado aos participantes um jantar de encerramento num complexo turístico vizinho que deixou as mais agradáveis recordações.

Recanto do Jardim Botânico                                                  Museu da Água-Transição de fase-modelo didáctico

No dia seguinte foi ainda proporcionada aos participantes a visita guiada a um jardim botânico extremamente belo, no centro de Marraqueche, e ainda, receber, na visita a um extraordinário Museu da Água, uma lição do engenho secular que permitiu aos povos magrebinos satisfazer as necessidades de abastecimento de água às populações, mais ou menos dispersas numa vasta área sujeita a longos período de seca extrema, desenvolvendo e pondo em prática soluções tecnológicas elaboradas e tornando assim possível a sua subsistência.

O vibrante mercado de rua

26 de Maio de 2022

Texto: Frederico Carvalho; rev Joana Santos e Elmina Lopes
Imagens: Joana Santos; Frederico Carvalho; André Carmo; Organização local
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[1] L. M. Pereira, UNESCO Ethics of AI, Invited participation, Symposium at the 23rd General Assembly of the World Federation of Scientific Workers (WFSW), Marrakech, Morocco, 10 May 2022. Audio: 10 mins (first few words in French, then English).
[2] Ver no site da OTC  “Projecto África” ( https://otc.pt/wp/2021/11/26/projecto-africa/).
[3] O Grupo 1 é coordenado por Frederico Carvalho e, em Marraqueche, teve como relator Mehdi Lahlou, professor da Universidade de Rabat. Um trabalho elaborado por Frederico Carvalho que se insere na domínio de interesses deste Grupo é publicado noutro local.

 

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