As Políticas de Direita contra a Ciência

     

 

AS POLÍTICAS DE DIREITA CONTRA A CIÊNCIA

A intensificação dos ataques contra os cientistas e a ciência.
A ciência e os cientistas são alvo de ataques sem precedentes, sob formas novas ou agravadas. Nos últimos anos, o trabalho dos investigadores e das instituições públicas de investigação tem sido cada vez mais prejudicado por pressões políticas e económicas. A gestão de pessoal e as estruturas de financiamento são hoje fortemente influenciadas pelos interesses do mercado, dando prioridade à rentabilidade a curto prazo em detrimento da procura de conhecimento novo. A precariedade social dos jovens investigadores acentuou-se, enquanto os recursos para a investigação básica diminuíram em diversas áreas.

Na Argentina, por exemplo, os orçamentos para investigação foram drasticamente reduzidos e o pessoal da principal instituição científica foi reduzido a metade. Em vários países, a liberdade académica está sob ameaça directa. Certos debates de política geral no seio das universidades e laboratórios públicos foram sancionados. As estruturas de decisão científica tornaram-se mais autoritárias. Os poderes políticos permitiram-se combater opiniões dos investigadores, mesmo nos seus domínios de especialidade, e de os proibir de divulgar as suas ideias sob o pretexto da segurança ou da protecção dos conhecimentos.

Em França, tal como no Reino Unido, organizar o apoio à causa palestiniana é um verdadeiro desafio: cancelamentos, pressões, proibições, recusas de votação sobre moções de apoio, processos contra estudantes activistas… Já não se pode falar de colonização ou da limpeza étnica em curso, sem correr o risco de represálias. As forças políticas têm apoiado o questionamento de teorias amplamente aceites pela comunidade científica, como as alterações climáticas, a evolução biológica, a unidade da espécie humana, as questões de género e os avanços nas vacinas. Em França, o governo tentou, felizmente sem sucesso, obrigar o CNRS (Centro Nacional de Investigação Científica) a reconhecer o conceito de “islamo esquerdismo”. Uma recente lei agrícola pró-mercado restabelece a utilização de um pesticida considerado perigoso pelas agências científicas para os seres humanos e outros organismos vivos.

Nos Estados Unidos, desde a administração Trump, ocorreram quase 500 ataques documentados à ciência: despedimento de cientistas federais, supressão de dados, cortes nos orçamentos de investigação e desmantelamento de agências importantes.
Áreas inteiras de investigação e bases de dados sobre o clima, a saúde e as humanidades foram paralisadas.
Simultaneamente, nos meios de comunicação tradicionais, como a imprensa escrita, a rádio e a televisão, bem como na internet e nas redes sociais, as ideias obscurantistas, o fundamentalismo dentro das religiões maioritárias de cada país, a criação de conceitos não verificáveis ou cientificamente falsos e as mudanças semânticas no uso de determinadas palavras, têm amplificado as incertezas sobre a realidade e os factos verificáveis. A privatização do ensino superior e da formação inicial acompanhou este processo.

A ciência é reconhecida como um bem comum essencial
Apesar destas tendências, a maioria das actividades humanas foi transformada pelo conhecimento científico, e o número de investigadores, professores, engenheiros e técnicos aumentou na maioria dos países. O conhecimento científico é parte essencial do património cultural imaterial da humanidade.

A cooperação científica internacional tem produzido resultados significativos nas áreas espacial, da saúde, das tecnologias de comunicação e da ciência climática.
A abordagem científica permite também a resolução pacífica de conflitos de interesses entre países, descrevendo de forma metódica e racional as questões materiais e culturais subjacentes a estes confrontos. Todas estas razões levaram a UNESCO a adoptar duas recomendações: a primeira sobre ciência e investigadores, actualizada em 2017, e a segunda sobre ciência aberta, em 2021.

A deriva para a militarização e o autoritarismo
A intensificação dos ataques à ciência é acompanhada de um preocupante aumento do autoritarismo e da militarização. A ciência é sempre mobilizada pelas nações mais poderosas para assegurar posições dominantes, alimentando tensões geopolíticas e desigualdades económicas. Em certos domínios, o desenvolvimento experimental e a investigação de base, continuam a ser generosamente financiados, como é o caso, nomeadamente, da fusão nuclear, da informática, da inteligência artificial ou da genética— nomeadamente para fins militares ou de vigilância — muitas vezes em detrimento da investigação fundamental e das ciências sociais.
Os princípios democráticos e o direito internacional estão a ser substituídos pela lógica do confronto, da expansão colonial e da monopolização dos recursos.

Num número crescente de países, particularmente na América e na Europa, as forças políticas de extrema-direita, alinhadas com os poderes económicos e as classes abastadas, apoiam estas políticas agressivas e endossam ataques à ciência e à democracia. Os movimentos emergentes que defendem os cientistas e lhes resistem, por outro lado, defendem os valores da democracia, da solidariedade e da protecção da nossa biosfera.
Ao fazê-lo, defendem a democracia como parte essencial da actividade científica. O progresso científico e tecnológico foi possibilitado pela adopção maioritária de resultados e teorias após longos períodos de discussão, por vezes acesa, com respeito pelos pontos de vista e opiniões de todos.

Claramente, a responsabilidade social dos cientistas, para a qual a FMTC foi criada, é mais relevante do que nunca.
Defender a ciência hoje, significa defender a democracia.

O Secretariado Internacional da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos
3 de Novembro de 2025

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Artigo na página institucional da FMTS-WFSW:
EN: https://fmts-wfsw.org/2025/11/right-wing-politics-against-science/?lang=en 
FR : https://fmts-wfsw.org/2025/11/les-politiques-de-droite-contre-la-science/