
Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC)
Declaração
Fim às guerras no Médio Oriente: a comunidade científica deve levantar-se
Cinco semanas após a eclosão da guerra movida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro de 2026, a escalada militar atingiu um limiar crítico em todo o Médio Oriente, do Líbano aos países do Golfo. Lançada em plena fase de negociações diplomáticas e em clara violação do direito internacional, esta guerra continua a intensificar-se, alargando os seus alvos e agravando as suas consequências humanas, sociais e ambientais.
Os ataques iniciais a Teerão foram rapidamente seguidos por uma campanha de bombardeamentos indiscriminados visando não apenas alvos militares, mas também instalações energéticas essenciais, bem como infraestruturas civis, particularmente nos sectores da saúde, do ensino superior e investigação e áreas urbanas. Ao atacar as próprias condições da vida em sociedade e os locais do saber e dos cuidados, esta guerra está a mudar de natureza: está a transformar-se numa guerra contra a sociedade no seu conjunto. Constitui assim uma grave violação dos princípios fundamentais do direito internacional humanitário, em especial, os que dizem respeito à protecção das populações civis.
Nada pode justificar tal explosão de violência. O argumento da autodefesa não resiste a um escrutínio. O conflito — que envolve também Gaza, o restante território palestino e o Líbano — insere-se numa lógica de poder que visa impor uma ordem regional assente na força, na dominação e no controlo, tanto das populações como dos recursos estratégicos, entre os quais se destacam o gás e o petróleo.
Uma vez mais, rejeitar esta guerra não significa, de forma alguma, apoiar um regime, seja ele de que natureza for. Como a FMTC já afirmou anteriormente, a nossa solidariedade está com os povos iraniano, palestino e libanês, que, no primeiro caso, sofre tanto os efeitos de um regime autoritário como os de uma dupla agressão externa e, nos dois últimos casos, o expansionismo e a militarização extrema do Estado de Israel. A história tem demonstrado que as bombas não libertam os povos. Destroem infraestruturas, enfraquecem as sociedades e fecham os próprios espaços onde dinâmicas democráticas podem emergir.
O que está em jogo hoje vai muito além do contexto iraniano. A extensão dos ataques a infraestruturas vitais, os riscos de uma conflagração regional, as tensões em torno das rotas energéticas globais e as devastações sofridas pelo Líbano depois de Gaza, representam, todas elas, uma ameaça directa à estabilidade internacional. A corrida desenfreada rumo ao militarismo — incluindo a proposta assombrosa emanada da Casa Branca de aumentar o orçamento militar dos EUA para 1,5 biliões de dólares até 2027, mais de metade do PIB conjunto de todos os países africanos — desvia recursos consideráveis que deveriam, pelo contrário, ser dedicados às verdadeiras urgências do século XXI, entre as quais se destacam as alterações climáticas, a pobreza e a fome em grande parte do mundo, as desigualdades sociais e as crises globais de saúde.
Neste contexto, o silêncio não é uma opção.
A FMTC, e com ela a comunidade científica internacional, está diretamente envolvida. Quando universidades são atingidas, hospitais destruídos, infraestruturas de investigação desmanteladas, é a própria possibilidade de gerar, transmitir e partilhar o conhecimento que é atacada e destruída. Quando a guerra se torna um modo de regular as relações internacionais, a cooperação científica — baseada no intercâmbio, na confiança e na universalidade — é profundamente posta em causa.
Os cientistas não podem permanecer como observadores silenciosos. Têm uma responsabilidade particular: afirmar de forma clara e resoluta que a segurança não pode assentar na violência, que o poder militar bruto não resolve crises políticas e que os grandes desafios que a humanidade enfrenta, pelo contrário, exigem cooperação, partilha de conhecimento e solidariedade.
É, pois, urgente mobilizar-se.
Assim, a FMTC apela aos cientistas, académicos, membros de instituições de investigação e às suas redes em todo o mundo, para que tomem uma posição pública contra estas guerras — e contra todas as guerras —, apoiar toda a iniciativa que vise um cessar-fogo imediato, acompanhado do reinício de negociações diplomáticas, e a defender o respeito rigoroso pelo direito internacional, em particular a protecção das populações civis e de infraestruturas não militares.
Não se trata apenas de se opor a uma guerra. Trata-se de defender uma determinada visão da ciência e do seu papel na sociedade: uma ciência ao serviço da paz, da justiça e do progresso humano, e não uma ciência subordinada às lógicas da guerra e da dominação.
Perante a actual escalada, uma conclusão é clara: a segurança colectiva nunca pode ser assegurada pela lei do mais forte. Assenta no direito internacional, na cooperação entre os povos e na capacidade de construir soluções políticas para os conflitos.
6 de abril de 2026
Co-Presidentes da FMTC
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Documento em PDF (inglês – francês): WFSW_Israeli-US Attack – Statement EN_FR
Artigo na página institucional da FMTS-WFSW:
EN: https://fmts-wfsw.org/2026/05/stop-the-wars-in-the-middle-east/?lang=en
FR: https://fmts-wfsw.org/2026/05/halte-aux-guerres-au-moyen-orient/