História da FMTC

Reunião do primeiro Conselho Executivo da FMTC, Paris, Novembro de 1946. Joliot-Curie e John D. Bernal, 3º e 4º na primeira fila

     

 

História da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC)

15 de Julho de 2026

Ao revisitar a história da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC), este artigo regressa a uma questão mais actual do que nunca: entre a produção de conhecimento e a consciência cívica, até que ponto são os cientistas responsáveis pelas suas descobertas perante as pressões do complexo militar-industrial?

André Jaeglé
Presidente Honorário da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC)
Presidente da FMTC de 1997 a 2009

Depois de ter organizado o desembarque das forças aliadas na Normandia, em junho de 1944, Dwight David Eisenhower, Presidente dos Estados Unidos entre 1953 e 1961, foi o primeiro a denunciar o complexo militar-industrial.

Cientistas como o físico Paul Langevin, entre outros, colocaram os seus conhecimentos ao serviço da defesa durante a Primeira Guerra Mundial, contribuindo para o desenvolvimento do que viria a ser o sonar. Não foi o único. Limitou-se a cumprir o seu dever de cidadão.

Mas continuaria a ser um dever cívico permitir que prosseguissem, a um ritmo vertiginoso, as investigações sobre a radioactividade artificial, quando Frédéric Joliot-Curie, Prémio Nobel da Química em 1935, juntamente com a sua mulher, Irène Joliot-Curie, e alguns outros cientistas tomaram consciência de que daí resultaria inevitavelmente o desenvolvimento de armas de destruição maciça? Em meados da década de 1930, ele e outros, entre os quais o físico húngaro-americano Leo Szilard, ponderaram não publicar os resultados das suas investigações. A ideia revelou-se irrealista e foi rapidamente abandonada.

A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA DECLARA-SE CULPADA

Noventa anos depois, em 2025, o jornalista e historiador Nicolas Chevassus-au-Louis publicou uma pequena obra intitulada Décroiscience. «Se a ciência não é a causa de todos os males, desempenha um papel importante. Nomeadamente no crescimento económico. […] Deveremos, portanto, continuar a investigação científica? Ou, pelo contrário, considerar uma “decresciência”? Uma redução voluntária e controlada da investigação científica. A questão incomoda, mas merece ser colocada». Este tipo de preocupação não deve ser encarado de ânimo leve. A necessidade de conhecer e compreender é muito mais forte do que qualquer decisão política assente numa ideologia. A recente adopção, pela UNESCO, da Recomendação sobre Ciência Aberta (2021) resultou precisamente de uma reacção da comunidade científica e da sociedade civil aos crescentes obstáculos ao acesso à informação científica. A obra de Nicolas Chevassus-au-Louis apresenta uma descrição concreta e pormenorizada do complexo económico-científico, e não apenas do complexo militar-industrial. É esse o seu mérito.

Em 1974, a Conferência Geral da UNESCO adoptou uma «Recomendação relativa à Condição dos Investigadores Científicos» (revista em 2017). Este documento aborda a questão ao reconhecer: «a. que as descobertas científicas e as inovações e aplicações tecnológicas que lhes estão associadas abrem vastas perspectivas […] para o bem da humanidade e para contribuir para a preservação da paz e a redução das tensões internacionais, mas podem, ao mesmo tempo, apresentar determinados perigos que constituem uma ameaça, sobretudo quando os resultados da investigação científica são utilizados contra os interesses vitais da humanidade, na preparação de guerras de destruição maciça […] e, de qualquer forma, suscitar problemas éticos e jurídicos complexos; b. que a livre comunicação dos resultados, das hipóteses e das opiniões — como sugere a expressão “liberdades académicas” — está no próprio cerne do processo científico e constitui a garantia mais sólida da exatidão e da objectividade dos resultados científicos; […]».

Não só a dimensão ética é reconhecida naquilo que se tinha tornado uma luta política, como também são formulados os direitos que lhe correspondem. O artigo 14.º estabelece: «Os Estados-Membros deverão esforçar-se por promover condições que permitam aos investigadores científicos, com o apoio dos poderes públicos, ter a responsabilidade e o direito de:

  1. trabalhar num espírito de liberdade intelectual, procurando, explicando e defendendo a verdade científica tal como a entendem;
  2. contribuir para a definição das finalidades e dos objectivos dos programas em que participam e para a determinação dos métodos a adoptar, que deverão estar em conformidade com a sua responsabilidade humana, social e ecológica;
  3. exprimir-se livremente sobre o valor humano, social ou ecológico de determinados projectos e, em última instância, deixar de neles participar, se tal lhes for ditado pela consciência;
  4. contribuir de forma positiva e construtiva para a ciência, a cultura e a educação no seu próprio país, bem como para a concretização dos objectivos nacionais, a melhoria do bem-estar dos seus concidadãos e a realização dos ideais e objectivos internacionais das Nações Unidas; entendendo-se que os Estados-Membros deverão, quando empreguem investigadores científicos, especificar da forma mais rigorosa e restrita possível as circunstâncias em que considerem necessário não respeitar os princípios enunciados nas alíneas a) e d) acima».

UMA ÉTICA CIENTÍFICA E CÍVICA

Esta Recomendação da UNESCO retoma, na linguagem dos instrumentos diplomáticos internacionais, disposições expressas em termos sindicais na Carta dos Trabalhadores Científicos, cujo texto original foi publicado em inglês pela Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, em 1948, sob o título Charter for Scientific Workers. A Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC) tinha sido fundada dois anos antes, em Julho de 1946. O preâmbulo dos seus Estatutos declara, logo na primeira frase: «O principal objectivo das organizações científicas que aderem à constituição da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos é a melhoria do bem-estar humano através da aplicação e do desenvolvimento da ciência. Os cientistas já não podem aceitar passivamente a utilização abusiva da ciência, que não só provoca sofrimento e desperdícios desnecessários, como também entrava o progresso da própria ciência».

O preâmbulo conclui: «Os membros da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos consideram que a única forma de impedir a destruição maciça resultante de uma má utilização da ciência consiste em eliminar a guerra enquanto instrumento da política nacional. A guerra, ou a ameaça de guerra, só pode ser evitada se os povos do mundo compreenderem as suas causas e forem capazes de agir, e estiverem dispostos a fazê-lo, para que essas causas sejam eliminadas. Uma ciência correctamente aplicada pode eliminar ou reduzir a pobreza, a doença e a ignorância, que, em certa medida, continuam a figurar entre as causas da guerra. As organizações internacionais criadas para combater estes flagelos contarão com o apoio total da FMTC».

A FMTC: UMA DIPLOMACIA CIENTÍFICA

A FMTC iniciou, assim, a sua existência sobre bases sólidas. Em França, o Sindicato Nacional do Ensino Superior e da Investigação (SNESR), da Federação da Educação Nacional (FEN), decidiu filiar-se na FMTC. Foi criada uma efémera Associação dos Trabalhadores Científicos (ATS). O jornal Travail & Technique (1946–1956), publicado pelo agrupamento confederal de engenheiros e quadros superiores da Confederação Geral do Trabalho (CGT), abriu as suas páginas à FMTC. A Federação assinou posteriormente um acordo de cooperação com a Federação Sindical Mundial (FSM). Contudo, a eclosão da Guerra Fria veio alterar a situação. Alguns anos depois, o Conselho Executivo da Federação decidiu suspender esse acordo. O seu Presidente, Frédéric Joliot-Curie, opôs-se energicamente a qualquer tentativa de vincular a Federação a um dos dois blocos da Guerra Fria, o socialista ou o ocidental. A CGT só aderiu à FMTC em 1961, através de uma União dos Trabalhadores Científicos (UTS), que reunia o actual Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Investigação Científica (SNTRS) e investigadores e docentes do ensino superior ligados à Federação da Educação Nacional (FEN). A União Geral dos Engenheiros, Quadros e Técnicos (UGICT-CGT) passou a envolver-se fortemente na FMTC na sequência dos movimentos de 1968. Alguns marcos históricos permitem situar o papel desta organização não governamental internacional, parceira oficial da UNESCO.

Em 1954, a quarta Assembleia Geral da FMTC decidiu organizar uma Conferência Internacional da Ciência e iniciou a constituição de uma ampla comissão de patrocínio. Em 9 de Julho de 1955, Frédéric Joliot-Curie assinou o Manifesto Russell-Einstein, que denunciava os perigos criados pelas armas nucleares e apelava aos principais dirigentes mundiais para que procurassem soluções pacíficas para os conflitos internacionais. A invasão da Hungria pelas tropas da URSS, no final de 1956, provocou a desagregação da comissão de patrocínio da conferência, prevista para o início de 1957. Apesar disso, realizou-se um encontro em Julho de 1957, em Pugwash, na Nova Escócia, Canadá. Da reunião resultou um apelo assinado por onze cientistas de primeiro plano, entre os quais Cecil Powell, Prémio Nobel da Física em 1950 e futuro Presidente da FMTC. Esse apelo esteve na origem do Movimento Pugwash. Durante toda a Guerra Fria, a FMTC tornou-se um espaço de encontro entre o Leste e o Oeste, praticamente único no seu género. Organizou regularmente conferências internacionais sobre uma grande diversidade de problemas específicos relacionados com a questão geral «confrontação ou cooperação». A Federação acolheu intercâmbios discretos entre cientistas soviéticos e norte-americanos durante as negociações sobre o controlo dos ensaios nucleares subterrâneos. Em Novembro de 1971, realizou-se em Berlim um simpósio sobre armas ABC (atómicas, bacteriológicas e químicas), no qual participou Jules Moch, antigo ministro socialista francês. Uma delegação da FMTC deslocou-se ao Vietname para testemunhar os efeitos do agente laranja. Jean-Marie Legay, futuro Presidente da FMTC, integrava essa delegação.

ROBERT OPPENHEIMER E A SUPERBOMBA

Em 1942, aquando do lançamento do Projecto Manhattan, levantou-se a questão de desenvolver não apenas a bomba atómica, mas também uma bomba de fusão nuclear. A ideia não teve seguimento. Contudo, em 1947, a Comissão de Energia Atómica (AEC) voltou a colocar a questão. «Deveria ser lançado imediatamente um esforço máximo para desenvolver uma arma que libertasse uma energia cem a mil vezes superior à da bomba actual e cujo potencial destrutivo fosse vinte a cem vezes maior».

A AEC submeteu a questão ao seu Comité Consultivo Geral (General Advisory Committee, GAC), presidido por Oppenheimer, que tinha sido o director científico do Projecto Manhattan. Importa salientar que o GAC era explicitamente um comité científico. Solicitava-se a opinião de pessoas competentes em razão dos seus conhecimentos científicos.

O GAC apresentou o seu parecer em Outubro de 1949, começando por afirmar: «Recomendamos que não se empreenda tal esforço». Em seguida, expôs os fundamentos desta recomendação. O primeiro motivo era: «A convicção de que os perigos extremamente graves que esta proposta representa para a humanidade ultrapassam largamente quaisquer vantagens militares que possam resultar de tal desenvolvimento […] A razão para construir uma arma deste tipo seria dispor da capacidade de devastar uma área muito extensa com uma única bomba. A sua utilização implicaria a decisão de massacrar um grande número de civis».

Esta consideração combina uma escolha de natureza humanista com um ponto de vista pertencente ao domínio da estratégia militar. Não remete especificamente para a competência dos cientistas. Contudo, o argumento é desenvolvido da seguinte forma: «É necessário compreender que se trata de uma superarma; pertence a uma categoria inteiramente distinta da bomba atómica». Este é um parecer científico. Os membros do GAC eram os mais bem colocados para compreender este carácter fundamentalmente novo e, na época, talvez fossem os únicos capazes de o fazer.

É, no entanto, introduzida uma consideração científica em apoio do argumento anterior: «Estamos preocupados com os possíveis efeitos globais da radioactividade gerada por algumas superbombas de magnitude concebível». Cerca de vinte anos mais tarde, Andrei Sakharov pagaria um preço elevado pela sua recusa em apoiar os ensaios nucleares do seu país, devido ao aumento certo, à escala mundial, das doenças provocadas pelas radiações.

A segunda consideração do GAC era: «A existência de uma arma deste tipo no nosso arsenal teria consequências importantes para a opinião mundial: as pessoas responsáveis em todo o mundo compreenderiam que a existência de uma arma desta natureza, cujo poder destrutivo é essencialmente ilimitado, representa uma ameaça intolerável para o futuro da espécie humana. Consideramos, portanto, que o efeito psicológico desta arma seria contrário aos nossos interesses». Trata-se de uma opinião política (aquilo que é ou não contrário aos nossos interesses), associada a um aviso de natureza científica (poder destrutivo essencialmente ilimitado) e acompanhada de uma convicção humanista (ameaça intolerável para o futuro da humanidade). Já não são apenas especialistas que se exprimem, mas cidadãos cujo conhecimento e a longa experiência de debate sobre estas questões os tornam mais conscientes do que outros cidadãos de determinadas implicações. Estes cientistas recusam limitar-se ao papel de especialistas. De resto, tal posição não teria sido aceite: em 31 de Janeiro de 1950, três meses depois de terem assinado e apresentado o parecer que estamos a analisar, o Secretário de Estado Dean Acheson pediu aos membros do GAC que não se demitissem nem fizessem declarações públicas. Um conselho de amigo.

A terceira consideração afirmava: «Consideramos que a superbomba nunca deveria ser fabricada. A humanidade estaria muito melhor se não houvesse qualquer demonstração da viabilidade de uma arma deste tipo, até que o actual clima da opinião mundial se alterasse.» O alcance desta consideração deve ser relacionado com os debates então em curso sobre contenção limitada ou dissuasão.

A quarta consideração apresenta-nos, finalmente, uma apreciação puramente científica. Contudo, revelou-se errada: «Não é de modo algum certo que esta arma possa ser desenvolvida, nem que os russos venham a produzir uma durante esta década».

O parecer conclui: «Ao considerarmos que não devemos avançar com a superbomba, pensamos que temos aqui uma oportunidade única de estabelecer, de forma exemplar, um limite ao princípio da guerra total e, assim, reduzir os receios e suscitar esperança para a humanidade».

Deste modo, o GAC e Oppenheimer consideraram que era seu dever, enquanto cidadãos norte-americanos, emitir um parecer global e não apenas uma opinião técnica especializada. Provavelmente, nada os poderia ter levado a conceber outro tipo de parecer. Não só o parecer não teve o peso esperado, como as posições assumidas acabariam por ser utilizadas contra Oppenheimer durante a audiência a que foi submetido[1].

Nada é simples. Já o sabíamos. O desafio que se coloca às organizações sindicais e ao movimento associativo é unirem-se em torno de objectivos comuns para recuperar o controlo sobre a política científica.


Artigo originalmente publicado no n.º 445 da revista La Vie de la Recherche Scientifique (VRS) e posteriormente reproduzido no site do SNCS-FSU [2], em 15 de Julho de 2026.


André Jaeglé, 98.º Conselho Executivo da FMTS-WFSW

Sobre o autor

André Jaeglé, Presidente Emérito da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC), presidiu à Federação entre 1997 e 2009 e continua a contribuir activamente para os seus trabalhos.

Desempenhou igualmente um papel importante nas relações entre a FMTC e a UNESCO, particularmente nos domínios da ética científica e da bioética. Presidiu à Comissão de Bioética do Comité de Ligação ONG–UNESCO.

O seu empenho de longa data na responsabilidade social dos cientistas, na paz e na cooperação internacional reflecte os valores fundamentais da FMTC.



[1] NOTA OTC: A audição foi conduzida pelo Personnel Security Board da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos (AEC). Em pleno macarthismo e sob o impulso do seu rival político Lewis Strauss, Oppenheimer foi acusado de ser um risco para a segurança nacional devido às suas antigas simpatias comunistas e à sua oposição ao desenvolvimento da bomba de hidrogénio (bomba H).

[2] A sigla SNCS-FSU refere-se ao Syndicat National des Chercheurs Scientifiques (Sindicato Nacional dos Investigadores Científicos), que está filiado na Fédération Syndicale Unitaire (FSU).