Dia da Paz e da Dança
Escritório da UNESCO, Rabat, Marrocos
Mehdi Lahlou[*]
Palavras de abertura
Bem-vindos a Marrocos, caros amigos e caras amigas, de França, da Palestina e de outros lugares.
Os meus agradecimentos à representação da UNESCO no Magrebe, bem como ao pessoal do seu Escritório, que nos acolhe esta manhã em Rabat, assim como à Comissão Nacional Francesa da UNESCO, que, pelo segundo ano consecutivo, nos honra com o seu patrocínio.
Minhas senhoras e meus senhores,
A dança ocupa, em muitas sociedades, um lugar central como forma de expressão simbólica. Mas, longe de ser unicamente um divertimento, constitui uma linguagem universal capaz – nas suas diversas variações – de traduzir emoções, transmitir valores e criar múltiplos espaços de encontro.
Ao contrário das palavras, frequentemente sujeitas a barreiras linguísticas, por vezes intransponíveis, o movimento do corpo fala a todos. Expressa sentimentos individuais e relatos colectivos de forma sensível e imediata. Isto faz da dança um veículo privilegiado de comunicação entre comunidades diferentes, particularmente em contextos de diversidade cultural.
Cada tradição coreográfica carrega consigo a história, a memória e os valores de um grupo social. As danças rituais, por exemplo, inserem os indivíduos numa continuidade entre passado e presente, ligando a comunidade aos seus antepassados. Ao partilhar estas práticas em encontros ou festivais, os povos expõem e valorizam a sua diversidade, criando um terreno favorável ao reconhecimento mútuo. Este processo contribui para a consolidação de uma cultura de paz, baseada no respeito e na aceitação do outro (como sustenta a UNESCO, 2001). E quando práticas coreográficas diferentes colocam em contacto indivíduos ou grupos de origens variadas e os envolvem em experiências colectivas, a dança transforma-se num espaço de diálogo corporal, onde cada um aprende a «negociar» com o outro, a harmonizar ritmos comuns e a co-criar uma obra partilhada.
Nas sociedades marcadas pela guerra, pelo exílio e pelo medo – como é o caso actualmente da Ucrânia ou da Palestina, e como nos prova a Trupe palestina presente hoje – a dança, tal como o canto, desempenha um papel terapêutico importante.
A dança incorpora uma dimensão festiva e alegre, essencial à paz interior e à paz em geral. Transforma tensões em energia criativa, medos em movimento colectivo, divisões em ritmos partilhados. Neste sentido, não é apenas um instrumento de prevenção ou resolução de conflitos, mas também uma forma de cultivar a paz como estado interior individual e como experiência vivida em comunidade.
Caras e caros participantes,
Dança, cultura e paz, não pertencem a esferas distintas, e muito menos a esferas opostas. Na realidade, entrelaçam-se numa postura de descontração e numa dinâmica comum de alegria partilhada. Uma alegria extraída das profundezas do desespero. Enquanto linguagem universal, a dança favorece a comunicação e o diálogo intercultural. Enquanto prática cultural, permite a troca de memórias colectivas e valoriza a diversidade. Enquanto experiência partilhada, abre caminhos de cura e reconciliação. Constitui assim um instrumento precioso para construir uma cultura de paz baseada no respeito e no reconhecimento mútuo dos direitos à justiça, à igualdade e à dignidade.
No entanto, «(e)ntrámos agora numa era de perturbações irreflectidas e de sofrimento humano impiedoso. Olhem à vossa volta. Os princípios das Nações Unidas que vocês estabeleceram assentados por vós estão cercados ameaçados. Os pilares da paz e do progresso desmoronam-se sob o peso da impunidade, da desigualdade e da indiferença. Nações soberanas invadidas. A fome é utilizada como arma. A verdade reduzida ao silêncio. A fumaça O fumo que se eleva de cidades bombardeadas. A raiva crescente de sociedades fracturadas fragmentadas.»
«A paz é a nossa primeira obrigação. Mas hoje, as guerras prosseguem com uma barbárie que jurámos nunca mais permitir. Em todo o mundo, vemos países agir como se as regras não se aplicassem a eles. Vemos humanos tratados como menos que humanos. E devemos denunciar isso. A impunidade é mãe do caos, e deu origem aos conflitos mais atrozes do nosso tempo.»
Gaza entrará num «terceiro ano monstruoso», «resultado de decisões que desafiam a mais humanidade elementar humanidade». «A impunidade predomina. A anarquia espalha-se. Isto conduz à desordem, acelera o terror e gera o risco de um conflito nuclear generalizado. Quando não se se deixa de prestar contas, os cemitérios enchem-se», alertou António Guterres.[†]
E isto tem que acabar, queremos que acabe. Tal como outros, que há quase um mês se uniram à flotilha da paz chamada «Somoud-Resistência», para ir em auxílio de ajudar Gaza, organizámos este dia para mostrar quanto a dança, o canto e a cultura podem ser armas de pacificação em massa. Armas de paz pelo movimento, pelo gesto, pela palavra, visando o retorno à sabedoria.
A sabedoria dos corajosos. Aquela que constrói a paz pelo Direito, pelo direito internacional, e não a paz fictícia pela força. Que é, em última análise definitivamente, o reflexo supremo da incultura e da desumanidade.
27 de Setembro de 2025
Tradução do francês: Joana Santos
Revisão: Frederico Carvalho
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Artigo na página institucional da FMTS-WFSW:
FR : https://fmts-wfsw.org/2025/11/journee-paix-et-danse/
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[*] NOTA OTC: Mehdi Lahlou é doutorado em economia pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), obtido em 1982. É professor no Instituto Nacional de Estatística e Economia Aplicada (INSEA – Rabat) e investigador associado na Universidade Mohammed V, em Rabat, Marrocos. É membro do Secretariado Internacional da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, responsável pela parceria UNESCO-ONGs. É também presidente honorário da Associação para um Contrato Global da Água, que ajudou a fundar em 2006, e secretário-geral da Rede Académica sobre a Migração no Norte de África (NAMAN) – Marrocos, uma rede do Magrebe fundada em Julho de 2019.
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[†] Propósitos do Secretário-Geral da ONU, no seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 23 de Setembro de 2025.