Conferência Internacional destaca o papel das artes e da educação na construção da paz
27 de Setembro de 2025 – Sob o patrocínio da Comissão Nacional Francesa para a UNESCO, o Colectivo das ONG em Parceria Oficial com a UNESCO organizou a conferência internacional “Arts, éducation et jeunesse pour la culture de paix”, dedicada à reflexão sobre o contributo das artes e da educação na promoção de uma cultura de paz. O evento decorreu em formato híbrido, com participantes reunidos em Rabat, Gaza, Lyon e Jeju, e contou com intervenções de representantes de várias organizações da sociedade civil e instituições parceiras da UNESCO.
A sessão de abertura foi moderada por Marie-Claude Machon-Honoré, coordenadora do Colectivo das ONG para a Paz, e incluiu a participação de Vithmiru Stoyanova, presidente do Comité de Ligação ONG-UNESCO, e de Nisrine Nadjil, secretária-executiva do mesmo Comité, que apresentou as prioridades do programa de trabalho 2025-2026, centradas no reforço das parcerias, na capacitação dos jovens e na colaboração com os programas da UNESCO.
Em representação da Comissão Nacional Francesa para a UNESCO, Alexandre Navarro salientou que o papel essencial das ONG na mobilização em prol da paz, dos direitos humanos e da educação, sublinhando a necessidade de uma acção coordenada entre instituições, Estados e sociedade civil.
A Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (FMTC) esteve representada por Mehdi Lahlou, professor associado na Universidade Mohammed V (Rabat, Marrocos). e Bonaventure Mvé-Ondo, Professor Emérito da Universidade Omar Bongo (Libreville, Gabão), membros da Federação, que destacaram a importância da cultura, da arte e da educação na construção da paz. Mehdi Lahlou, a partir de Rabat, sublinhou que a dança não é apenas um divertimento, mas um meio de comunicação entre comunidades diferentes, um espaço de encontro e de cura colectiva. Organizamos esta jornada para afirmar que a dança, o canto e a cultura podem ser verdadeiras armas de pacificação de massa — armas de paz pelo movimento, pelo gesto e pela palavra ( Dia da Paz e da Dança, Palavras de abertura, Mehdi Lahlou, https://otc.pt/wp/2025/11/11/dia-da-paz-e-da-danca/).
Foi também apresentado o vídeo “Danse et Paix en Partage 2024”, produzido por Claude Yvans, que ilustrou experiências culturais e artísticas promovendo a paz.
O professor Bonaventure Mvé-Ondo conduziu a reflexão académica sobre “Como repensar a paz num mundo em crise”, destacando três vias fundamentais – a verdade, a cultura e a educação – e defendeu que a paz não é apenas o silêncio das armas, mas a forma mais exigente de justiça partilhada e de dignidade restaurada.
Outros testemunhos e comunicações marcantes incluíram:
- A trupe palestiniana Al-Fursan, apresentada por Bachar El Belbezi e Sabrina Boucousselier, que descreveu a sua acção artística em contexto de guerra como um acto de resistência e esperança;
- Hussein Ngoy Ndala, presidente do Parlamento dos Jovens da República Democrática do Congo, sobre o papel da arte como instrumento de reconciliação e diálogo;
- Sophie Maréchal, da associação ATD Quart Monde, com o Festival des savoirs et des arts em Lyon;
- Matteo Corbucci, presidente da OMEP-Itália, associação de promoção social que representa o Comité Nacional da Organização Mundial para a Educação Pré-escolar (OMEP), destacando a importância da educação criativa desde a primeira infância;
- Gloria Ramirez, presidente da Associação Internacional de Educadores para a Paz (AIEP), enfatizando o papel das mulheres na consolidação da paz e na defesa dos direitos humanos.
A conferência evocou também o testemunho artístico e histórico da ilha de Jeju (Coreia do Sul), lembrando o papel das haenyeo, mergulhadoras tradicionais, e a importância da arte como meio de transmissão da memória e da reconciliação.
Apesar de alguns desafios técnicos nas ligações, o encontro decorreu num clima de cooperação e partilha, reforçando o compromisso das ONG parceiras da UNESCO — entre as quais a FMTC — com a defesa da paz, da dignidade humana e do diálogo intercultural.
O encerramento contou com uma sessão conjunta de Mehdi Lahlou, referido acima,, Marie-Claude Machon-Honoré, da International Federation of Business and Professional Women (BPW International) e Lisbeth Gouin (OMEP), sublinhando a importância da acção colectiva em prol da paz.
A Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos reafirmou o seu compromisso histórico com a promoção de uma cultura de paz, valorizando a interligação entre ciência, educação, cultura e direitos humanos — princípios que orientam a sua acção desde 1946.
Segundo Hussein Ngoy Ndala, do Parlamento Juvenil da República Democrática do Congo, investir na arte contribui diretamente para a paz e para o desenvolvimento da humanidade.
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Reunindo as conclusões do evento “Du Rôle de l’Art dans la Culture de Paix” — papel da arte na cultura da paz — salientou-se que: “a paz não se limita à ausência de guerra ou violência, mas constitui um processo contínuo de construção e diálogo, desde a infância e ao longo de toda a vida”.
Do encontro, emergem com clareza formas como deve ser olhada a arte e o seu papel instrumental na promoção de uma cultura de paz:
Sobre o papel da arte para uma cultura de paz (verbatim)
- Uma linguagem universal para quebrar barreiras culturais e linguísticas (M. Lahlou, FMTC) e exprimir o indizível de um trauma colectivo através do desenho (Incidente 4.3 na ilha de Jeju)[*].
- Um instrumento para a educação para a paz através das emoções desde a mais tenra idade (M. Corbucci, OMEP), a inclusão social (S. Marechal, ATD Quart Monde) e a igualdade de géneros (G. Ramírez, AIEP).
- Uma forma de resistência simbólica contra a opressão (M. Lahlou) e de reconstrução através da reabilitação do imaginário (B. Mvé-Ondo) com exemplos como a dança tradicional dabké da trupe «Foursan Troup for Art» nas ruínas de Gaza, e um ballet coreografado pelas operárias de uma fábrica no México, bem como os desenhos (incidente 4.3 em Jeju).
- Uma ferramenta de diálogo intergeracional e intercultural para o Viver-Juntos (Festival dos Conhecimentos e das Artes ATD Quart Monde, e ballet coreografado pelas operárias no México, AIEP) e a consolidação da igualdade de género (MC Machon-Honoré, BPW International e G Ramirez)
- Um catalisador de transformações sociais (trupe «Foursan Troup for Art», mulheres operárias no México).
Como foi sublinhado no evento,
“A arte não é apenas entretenimento: é um acto político, uma força suave e inabalável para a Cultura da Paz. Trata-se de reabilitar o nosso imaginário, reocupar as nossas memórias colectivas, recusando a colonização dos nossos futuros.”
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Artigo na página institucional da FMTS-WFSW:
EN: https://fmts-wfsw.org/2025/11/the-role-of-art-in-the-culture-of-peace/?lang=en
FR : https://fmts-wfsw.org/2025/11/du-role-de-lart-pour-la-culture-de-paix/
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[*] Nota OTC: sobre o trágico incidente na ilha de Jeju ver:
https://medium.com/noorey/one-of-the-worst-tragedies-in-south-korea-the-4-3-incident-in-jeju-9c273fb4a50e