O Mundo Tem um Plano — e há que executá-lo

     

 

O MUNDO TEM UM PLANO — E HÁ QUE EXECUTÁ-LO
Elies Molins
Co-presidente da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos

O mundo tem já um plano — os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pelas Nações Unidas há 10 anos [1]. O plano é valioso porque é o resultado de amplas contribuições e de um consenso global. Vai além do curto prazo, oferecendo uma visão mais profunda para a humanidade. A missão e a visão são claras: os ODS não são apenas um roteiro para o progresso, mas sim um plano de emergência para a sobrevivência da nossa civilização. A alternativa é catastrófica: a provável perda de cerca de 90% das vidas humanas em condições dramáticas, deixando para trás um planeta inabitável para os sobreviventes.

Os riscos são já evidentes. Nos oceanos, atingimos recentemente um novo limiar; milhões de pessoas enfrentam perigos imediatos: inundações costeiras, secas prolongadas, escassez de água potável e de alimentos, fenómenos meteorológicos extremos, acidificação dos mares, incêndios florestais devastadores, a propagação alarmante de incêndios em turfeiras, e outras crises imprevisíveis. A estes desastres ambientais seguir-se-ão inevitavelmente profundos conflitos sociais.

Reconhecendo esta realidade, o passo seguinte tem que ser: levar à prática aquele plano. Compreender as profundas implicações dos ODS significa aceitar mudanças radicais a todos os níveis: do consumo à produção, da agricultura ao transporte, da indústria às tecnologias digitais, incluindo a Inteligência Artificial (IA), da exploração da natureza à sua protecção, etc. Nada disto será possível sem uma profunda transformação da ordenação política e do sistema económico, que devem garantir uma mais equitativa distribuição da riqueza. As Nações Unidas são a única organização capaz de coordenar as acções necessárias e recomendar a todos os países que as adoptem.

Infelizmente, o impulso inicial positivo em direção aos ODS estagnou. O progresso social e económico alcançado na segunda metade do século XX está, na melhor das hipóteses, congelado. Governos progressistas, apesar dos esforços de muitos deles, têm sido incapazes de superar a multiplicidade de problemas que se colocam, porque as medidas aplicadas assentam numa lógica de mercado e no liberalismo prevalecente. As recentes tendências internacionais que conduzem a confrontos e à apropriação de novos territórios, dificultarão ainda mais a implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

Pior ainda, a manipulação através das redes sociais está a desviar a opinião pública para narrativas de extrema-direita. Estas oferecem soluções triviais, baseadas em inimigos inventados, protegendo interesses oligárquicos e ignorando os verdadeiros desafios. Os ataques à ciência e aos cientistas fazem parte desta estratégia, silenciando aqueles que revelam verdades incómodas. Esta visão superficial, cega à complexidade, apenas conduz ao caos. Por exemplo, a imigração é apresentada como um “problema”, quando na realidade vários países estão a prosperar graças à força de trabalho trazida pelos imigrantes.

Por outro lado, o sofrimento desumano do povo palestino (ou do Sudão do Sul, entre outros) está a levar a um despertar de consciência global. Isto recorda-nos que a consciencialização e a solidariedade podem abrir caminho a soluções. A lição é clara: os grandes desafios que enfrentamos — seja o poder oligárquico ou as alterações climáticas — só podem ser superados por uma pressão massiva de baixo para cima. Cada contribuição conta. Rosa Parks [2] iniciou uma revolução com um único acto de resistência. Mesmo iniciativas consideradas apenas simbólicas — como a flotilha para Gaza — têm um papel importante na consciencialização.

A Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos deve tornar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável como uma questão prioritária da sua agenda e trabalhar para o seu desenvolvimento, avanço e implementação. Os cientistas são particularmente visados nos ODS, pois o sucesso destes depende em larga medida de novas contribuições científicas e tecnológicas.

A FMTC apela ao pensamento crítico e à acção colectiva. Questione a informação que recebe. Verifique as suas fontes. Use a razão. Forme opiniões, confronte-as com as dos outros e organize-se para avançar no caminho traçado no nosso plano comum — os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. Cada contributo é essencial.

Barcelona, 2 de Outubro de 2025
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Artigo na página institucional da FMTS-WFSW:
EN: https://fmts-wfsw.org/2025/12/the-world-has-a-plan-and-it-must-be-carried-out/?lang=en
FR : https://fmts-wfsw.org/2025/12/le-monde-a-un-plan-qui-doit-etre-mis-en-oeuvre/
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[1] https://www.un.org/sustainabledevelopment/
[2] Nota OTC: Rosa Parks (1913-2005), activista negra norte-americana, entrou na História da luta pelos direitos civis. É mais conhecida pela recusa em ceder o seu lugar num autocarro em Montgomery, no Alabama, em desafio às leis de segregação racial de Jim Crow, em 1955, o que desencadeou o boicote aos autocarros de Montgomery.