Geopolítica do caos

     


Geopolítica do caos
Rumo ao confronto global
Frederico Carvalho

99º Conselho Executivo da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos
9 – 11 Fevereiro 2026 (on-line)
Grupo de Trabalho 1: “Paz, Desenvolvimento e Cooperação”

Não se pode ao mesmo tempo prevenir e preparar a guerra
Alberto Einstein

Assistimos quase diariamente no palco mundial a desenvolvimentos, que na maioria dos casos, dificilmente podem ser vistos pelos nossos concidadãos como bons presságios.
Na Europa, as raízes da instabilidade criada após a Segunda Guerra Mundial vieram a ter consequências trágicas no primeiro quartel do século actual. No caso da tragédia em curso na Europa de Leste, encontram-se no acordo traído pelos EUA que levou à unificação da Alemanha e, posteriormente, à expansão gradual, mas persistente, da NATO para leste. Em 1990, o então Secretário de Estado norte-americano, James Baker III, disse a Mikhail Gorbachev: “A NATO não avançará um centímetro para leste se concordar com a unificação alemã”, pondo basicamente fim à Segunda Guerra Mundial. Esta troca de palavras foi registada e é confirmada pelos documentos oficiais confidenciais divulgados em Dezembro de 2017 pelo Arquivo de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA).

A rápida e ampla expansão para leste da chamada aliança defensiva ganhou força após a dissolução da União Soviética em 1991, levando a 10 levas distintas de alargamento até 2024. Em 1994, Clinton assinou um plano para expandir a NATO até à Ucrânia. Isto foi percepcionado pela Federação Russa como a ultrapassagem de uma linha vermelha intransponível. A operação de mudança de regime liderada pelos EUA na Ucrânia em 2014 foi vista como um passo ousado para alcançar aquele objectivo.

A incitação à guerra, a promoção e o envolvimento em conflitos armados têm sido, nos últimos dois séculos, um padrão distintivo do comportamento das principais potências ocidentais, incluindo as antigas potências coloniais. Neste aspecto, o papel dos Estados Unidos da América é particularmente notável.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, houve um total de 100 intervenções bem documentadas em países estrangeiros, incluindo as chamadas operações de mudança de regime e as mais recentes “revoluções coloridas”, guerras e golpes de Estado. Setenta operações documentadas de mudança de regime lideradas pelos EUA ocorreram durante a Guerra Fria, das quais 64 foram operações secretas e 6 tentativas abertas de mudança de regime. Citando o historiador John Coatsworth [i], o professor Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, destacou que os EUA lideraram 41 mudanças de regime bem-sucedidas só na América Latina ao longo de aproximadamente um século, com uma média de um derrube a cada 28 meses.

Ao procurar compreender o estado actual do mundo, importa analisar os acontecimentos que marcaram o primeiro quartel deste século. Em Setembro de 2001, foi decidido que seriam iniciadas sete guerras ao longo de cinco anos. O General Wesley Clark, que foi Comandante Supremo da NATO de 1999 a 2000, deslocou-se ao Pentágono a 20 de Setembro de 2001, onde recebeu o documento que explicava as sete guerras. Estas eram as “Guerras Israelitas”.
De acordo com o Professor Jeffrey Sachs [ii], as nações visadas nesta estratégia de intervenção liderada pelos EUA e apoiada por Israel foram o Iraque, a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e o Irão.
Sachs defende que os EUA se envolveram em conflitos em seis destes países, frequentemente com o pretexto de promover da democracia, mas, na realidade, para destruir nações que pudessem desafiar o domínio americano e israelita na região. Nota que, para “consternação” do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a guerra com o Irão é a única da lista que ainda não foi totalmente concretizada.[iii]

É evidente que as orientações da política externa dos Estados Unidos se têm mantido essencialmente consistentes nos últimos 80 anos. Isto é assim, em larga, medida, independentemente da pessoa que ocupa o cargo de Presidente. As principais forças que determinam as políticas adoptadas permanecem em segundo plano. Devemos recordar com admiração o discurso de despedida de Dwight Eisenhower ao povo americano em 1961, quando deixou a Presidência. Eisenhower destacou os riscos da “influência indevida” do poder combinado da indústria de defesa, das forças armadas e do governo, alertando que isso poderia minar tanto a democracia americana como a estabilidade económica. Antecipou não só o complexo militar-industrial, mas também o potencial de uma “elite científico-tecnológica” para dominar as políticas públicas através do financiamento governamental.

Estas são preocupações que se mantêm válidas nos nossos dias. Poderíamos acrescentar que o impacto destes agentes “clandestinos” nos assuntos públicos nunca foi tão grande.
Não se pense, no entanto, que tal situação é peculiar aos EUA. No mundo ocidental e, em certa medida, para além dele, os interesses das grandes empresas e de um pequeno número de multibilionários exercem uma influência desproporcionada sobre os sistemas económicos e políticos globais[iv].

Um aspecto particularmente preocupante do estado actual das coisas é a crescente influência de interesses políticos e privados sobre a actividade científica. Tal condiciona o progresso da ciência, obstrui o seu caminho e põe em risco o controlo ético da inovação. Alguns aspectos merecem especial atenção. Um deles é a crescente presença militar em instituições académicas e de investigação. Um caso bem documentado é o do Reino Unido, graças à análise aprofundada realizada pela associação nossa parceira ““Scientists for Global Responsibility”, que destaca a relação cada vez mais estreita entre o complexo militar-industrial e o sector académico britânico. Nos EUA, segue-se uma política, que, embora claramente em prejuízo do interesse nacional desse país, impõe severos cortes orçamentais, afectando tanto universidades de investigação de prestígio como diversas agências governamentais activas em áreas críticas da vida social [v]. É o caso dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), da Agência de Protecção Ambiental (EPA), da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) ou da NASA, a Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço. O caso da IA — uma tecnologia socialmente disruptiva [vi] — é particularmente relevante. Em síntese, a administração Trump reduziu os financiamentos público, fundacional, e com foco na regulamentação da IA, ao mesmo tempo que deu prioridade ao desenvolvimento de infra-estruturas liderado pelo sector privado e aliviou as restrições regulamentares às empresas de IA. Os ataques ao sector público são claramente selectivos e seguem orientações políticas gerais, como a negação das alterações climáticas.

Outra questão importante que deve ser trazida à atenção são as restrições que ocorrem em diferentes países à liberdade académica e, de um modo mais geral, à liberdade de expressão, com relatórios recentes a indicar um declínio global destes direitos. Os dados de 2024 e 2025 do Índice de Liberdade Académica (AFI, na sigla em inglês) mostram que a liberdade académica está a deteriorar-se não só nos regimes autoritários, mas também nas democracias ditas “consolidadas”. Na Europa, os casos da Alemanha e do Reino Unido são efectivamente relevantes a este respeito.

Como é geralmente aceite. e com razão, o trabalho científico só pode prosperar globalmente num contexto que favoreça a livre cooperação e o intercâmbio a nível internacional. Estão a ser erguidos obstáculos severos a ambos como consequência de uma corrida armamentista acelerada, combinada com a crescente concorrência económica. Isto anuncia um futuro sombrio para o mundo, contrariamente ao que seria necessário para levar por diante os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

É difícil aceitar que a situação possa por muito mais tempo continuar a evoluir no caminho que está a seguir actualmente.
Há razões para acreditar que ou o estado actual das coisas muda profundamente ou este caminho conduzirá ao desastre. Na véspera da expiração do último tratado de redução de armas nucleares ainda em vigor — o NOVO START — o espectro da guerra nuclear não pode ser descartado [vii]. A questão é saber se as potências dominantes reconhecerão os perigos e a necessidade de restaurar definitivamente um ambiente que permita uma melhoria minimamente sensata do entendimento mútuo, que ponha fim a conflitos intermináveis.

29 de Janeiro de 2026

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Crédito: Albert Eintein — Orren Jack Tu
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[i]United States Interventions. What For?”, John Coatsworth, May 15, 2005 (https://revista.drclas.harvard.edu/united-states-interventions/ ), ver também “Covert Regime Change: America’s Secret Cold War”,  David Foglesong,  Rutgers, The State University of New Jersey, December 2019, Journal of American History 106(3):818-819
(https://www.researchgate.net/publication/345387553_Covert_Regime_Change_America’s_Secret_Cold_War )
[ii] Jeffrey Sachs, economista e analista político, leccionou em Harvard durante dezanove anos. Actualmente, na Universidade de Columbia, dirige o Centro para o Desenvolvimento Sustentável. Jeffrey Sachs é também um dos 17 “Advocates for the Sustainable Development Goals (SDGs) of the United Nations” nomeados pelo Secretário-Geral António Guterres.
(https://www.youtube.com/watch?v=yxcumWif6E0)
[iii] A guerra, actualmente acesa, teve início já depois desta intervenção ter sido feita.
[iv] No início de 2026, o mundo testemunhou um aumento recorde no número de multimilionários, com o total a ultrapassar os 3.000 pela primeira vez. A concentração de extrema riqueza levou a discussões sobre o surgimento de uma “oligarquia global”.
[v] Nos EUA, os cortes propostos para o Ano Fiscal de 2026 representam uma redução de mais de um terço das despesas do governo, tanto em ciência básica como aplicada
(https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20250718232924845#:~:text=The%20Defense%20Agencies%2C%20which%20include,environment%2C%20or%20clinical%20setting%E2%80%9D).
[vi] A IA é uma das tecnologias que foi recentemente considerada como tal pelo Comité Científico do Relógio do Apocalipse, que decidiu no passado dia 27 de Janeiro adiantar em 4 segundos o ponteiro dos minutos do Relógio, que marca agora 85 segundos para a meia-noite.
[vii] A 4 de Fevereiro de 2026, expira o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Novo START). Se tal acontecer, será a primeira vez desde o início da década de 1970 que não haverá limites legalmente vinculativos para as forças nucleares estratégicas dos EUA e da Rússia, a menos que outro acordo esteja em negociação.
(https://www.chathamhouse.org/2026/01/us-and-russias-nuclear-weapons-treaty-set-expire-heres-whats-stake)

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Documento em PDF (inglês – francês): WFSW99EC-WG1-Paper 2-FC_ML_2026-En-Fr
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