Geopolítica da submissão: África, Médio Oriente

     

 

Geopolítica da submissão: quando os povos pagam o preço da
arrogância imperial e das alianças extremo-direitistas/teocráticas

O Médio Oriente e a África

Mehdi Lahlou

99º Conselho Executivo da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos
9 – 11 Fevereiro 2026 (on-line)
Grupo de Trabalho 1: “Paz, Desenvolvimento e Cooperação”

No Médio Oriente, as reestruturações geopolíticas em curso, incluindo o genocídio que tem vindo a ocorrer em Gaza desde Outubro de 2023 e o expansionismo israelita em toda a região, não são fruto do acaso. Obedeçam a uma lógica clara: a da submissão dos países e dos povos da Península Arábica aos interesses convergentes, nomeadamente energéticos, da potência imperial norte-americana e dos seus aliados regionais, especialmente a extrema-direita em Israel.

Algumas monarquias petrolíferas, em parte teocráticas, nomeadamente a Arábia Saudita, cujos dirigentes não hesitaram em assassinar um dos seus opositores (Jamal Khashoggi) no seu consulado em Istambul, em 2018, são hoje atores importantes neste contexto. Enquanto duas delas já assinaram os Acordos de Abraão com o governo israelita — este último estando totalmente empenhado em transformá-las em ajudantes, com o apoio diplomático, financeiro e militar de Washington —, estes regimes, estreitamente alinhados com a abordagem agressiva da administração liderada por Donald Trump, colocaram-se de facto em oposição frontal às lutas do povo palestino pela sua terra, dignidade e direitos, chegando ao ponto de pactuar com uma extrema-direita israelita abertamente hostil a qualquer perspetiva progressista ou democrática no Médio Oriente.

Essa oposição é praticamente da mesma natureza no que diz respeito ao Irão. Os seus dirigentes, igualmente imbuídos de uma religiosidade exacerbada, devem ser condenados pelas violências injustificadas que impõem aos seus cidadãos, nomeadamente, mulheres; no entanto, isso não deve, de forma alguma, justificar que sejam derrubados por intervenções militares estrangeiras, nomeadamente dos Estados Unidos e de Israel. Impor a «democracia» e a mudança de regimes pela força conduziu a catástrofes políticas e de segurança, das quais a região, e o mundo, ainda sofrem, à semelhança do que aconteceu, desde o início do século, no Iraque, no Afeganistão ou mesmo ainda na Líbia. E tal como na Venezuela, no início de Janeiro de 2026, na Coreia, nos anos 50, no Vietname nos anos 70, no Chile em 1973, ou no Afeganistão entre 2001 e 2021 – para apenas citar estes exemplos – o intervencionismo dos EUA só produziu devastação, morte e ruína.

Em África, um continente frequentemente estigmatizado pela Casa Branca, a estratégia de expansão dos Estados Unidos também se traduz em medidas brutais. Na África do Sul, a ruptura com o regime do apartheid é fortemente criticada por Donald Trump e pelo seu poderoso aliado digital, Elon Musk. Trinta anos depois de 1994, a concentração de terras e recursos continua nas mãos da minoria de origem europeia, ignorando as aspirações das populações indígenas. Ao mesmo tempo, as iniciativas internacionais do governo sul-africano são sistematicamente obstruídas, sempre que visam defender o direito internacional e os direitos do povo palestino, nomeadamente, através do recurso ao Tribunal Penal Internacional. Deste ponto de vista, aquele país tornou-se um alvo principal dos ataques políticos e comerciais dos EUA, bem como do seu aliado israelita.

A Nigéria, país da África Ocidental, parece também estar a ser pressionada. Sob o pretexto conveniente da luta contra o terrorismo — em particular o praticado pelo Boko Haram — e da proteção das populações cristãs, este país, com mais de 230 milhões de habitantes, é alvo de uma abordagem que visa, crescentemente, colocá-lo sob uma tutela securitária. Esta estratégia não reforça nem a estabilidade nem a paz: fragiliza a soberania nacional e exacerba as divisões internas.

O Sudão constitui o exemplo mais trágico desta política do caos. Uma convergência de interesses entre Estados Unidos e Israel, com o apoio de potências regionais como o Egito e os Emirados Árabes Unidos, contribui para a fragmentação do país. Há mais de dois anos que se verificam massacres em massa num silêncio internacional ensurdecedor, relegados para segundo plano pelas guerras na Ucrânia e no Médio Oriente.

Não muito longe do Sudão, no Corno de África, o reconhecimento da Somalilândia por Israel insere-se numa estratégia mais ampla que visa separar definitivamente este território da Somália histórica, de modo a ancorá-lo na esfera de influência americano-israelita.

Na verdade, o que está a ser implementado não é mais do que um novo projeto de domínio global. Fragmentação dos Estados, militarização dos territórios, instrumentalização dos conflitos identitários: as receitas do neocolonialismo são recicladas sob novas formas. Da África Austral à África Oriental, do Sudão ao Corno de África, e depois até à África Ocidental, nomeadamente na Nigéria, desenha-se uma rede destinada a estabelecer uma presença política e militar duradoura. O objetivo é assumido abertamente: marginalizar as antigas potências coloniais europeias, em primeiro lugar a França, e impor os Estados Unidos da América como potência hegemónica no continente africano, oficialmente para contrariar a presença chinesa, mas também a da Turquia e da Rússia.

Perante esta ofensiva, uma coisa é clara: são os povos que pagam o preço mais alto. O seu direito à autodeterminação, à justiça e à dignidade, é sacrificado no altar das alianças imperiais. O silêncio já não é uma opção. A solidariedade entre as lutas, desde a do povo palestino até às dos povos africanos e latino-americanos, continua a ser um dos poucos baluartes contra esta tentativa imperial de domínio, iniciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, logo na sua primeira eleição, em 2016, e retomada com uma arrogância e raiva crescentes desde o seu regresso à Casa Branca em janeiro de 2025.

5 de Fevereiro de 2026

 

Mehdi Lahlou é professor de Economia no Instituto Nacional de Estatística e Economia Aplicada (INSEA), Rabat, Marrocos, e professor associado na Universidade Mohammed V (Rabat). É membro do Conselho Executivo e do Secretariado Internacional da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos (https://fmts-wfsw.org/)

 

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Tradução do francês de Elisabete Nunes
Revisão de Frederico Carvalho

 

NOTA OTC:
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