Disciplinando a dissidência: as universidades do Reino Unido, a indústria do armamento e os protestos
Laura Shewan, “Scientists for Global Responsibility” (UK)
A fase mais recente da relação entre a indústria do armamento e o ensino superior no Reino Unido está a ser gradualmente denunciada, juntamente com uma crescente consciencialização da cumplicidade das universidades na facilitação de conflitos globais.[1] Em resposta a esta pressão, a repressão de vozes dissidentes por parte das administrações universitárias intensificou-se, com medidas cada vez mais autoritárias a serem utilizadas para dissuadir e punir os corpos estudantis e docentes que continuam a manifestar-se contra a influência da indústria do armamento na educação.
Parcerias entre a indústria armamentista e o meio académico
A crescente comercialização do ensino superior no Reino Unido – que começou na década de 1980 e se acelerou desde a década de 2010 – trouxe à tona uma série de questões éticas e morais, forçando a reflexão sobre para quem e para que serve realmente a educação universitária. Com o aumento vertiginoso das propinas para os estudantes, aliado à elevada inflação, as universidades tornaram-se mais uma mercadoria, tratando os estudantes como consumidores e procurando proporcionar uma experiência positiva de “serviço ao cliente”. Um elemento-chave desta experiência do cliente é a necessidade de justificar e legitimar o valor do seu diploma. A maioria dos programas académicos necessita agora de demonstrar impacto tanto na investigação como no ensino, em muitos casos, mostrando indicadores directos de competências transferíveis através da transição para o mercado de trabalho, após a graduação.
Consequentemente, ficamos com um sistema universitário esvaziado, brutalizado pelas políticas nacionais e pelos processos neoliberais, que se tornou submisso às alavancas da burocracia e das agendas políticas. As universidades com dificuldades financeiras procuram reduzir custos, geralmente visando as áreas das humanidades e das ciências sociais, que são consideradas as menos transferíveis em termos de competências profissionais. Só no último mês, a Royal Geographical Society manifestou-se contra a crise de financiamento no ensino superior e o risco de encerramento de departamentos [2],enquanto departamentos inteiros de linguística foram ameaçados de encerramento nas Universidades de Nottingham e Leicester.[3] Estas decisões de economia e medidas de redução de custos não são neutras. Revelam ideologias neoliberais que contradizem questões mais amplas sobre o propósito da educação.
Nestas condições de pressão e restrições financeiras, as empresas de armamento e o sector militar em geral oferecem às universidades segurança económica e uma via profissional concreta para os potenciais estudantes. Esta situação é particularmente comum nas áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), onde são urgentemente necessárias inovações radicais e desenvolvimentos tecnológicos acelerados para o cenário de guerra em rápida transformação. Enquanto o financiamento e os subsídios para a educação nacional são reduzidos, as despesas militares do Reino Unido disparam.[4] O sector está a investir fortemente na corrida aos armamentos, e uma fonte de mão-de-obra está prontamente acessível através dos laboratórios de investigação em todas as universidades da Grã-Bretanha.[5] Empresas como a BAE Systems, a Rolls-Royce e a Raytheon estão interessadas em explorar o trabalho intelectual dos estudantes e dos colaboradores no desenvolvimento das suas tecnologias, através de estágios de investigação, bolsas de estudo, feiras de carreiras e patrocínios.[6] Impacto e receitas cruzam-se, portanto, tornando a parceria entre a indústria de armamento e o ensino superior tão perigosa quanto mutuamente benéfica.
Estudantes manifestam-se
No entanto, o declínio do ensino superior como espaço de crítica social não ocorreu sem resistência. Tradicionalmente, a universidade, enquanto instituição, orgulha-se de ser um espaço de pensamento crítico, com a exploração do conhecimento e a investigação como um fim em si mesmo. Todas as universidades no Reino Unido têm a obrigação de cumprir responsabilidades de interesse público, que o financiamento da indústria do armamento viola. Muitos esperam que, apesar das restrições e das agendas políticas que moldam a direcção administrativa do sector universitário, aqueles que vivem e trabalham na linha da frente da educação – os professores e estudantes que ainda aprendem nestes espaços – continuem a aspirar a estes ideais.
Nos últimos anos, as mobilizações nos campus universitários tornaram-se cada vez mais coordenadas em torno da cumplicidade institucional em conflitos armados e injustiças relacionadas, com uma pressão constante dirigida tanto às instituições locais como à Universities UK [7]. Houve vários sucessos. Por exemplo, em Maio deste ano, os funcionários e estudantes do King’s College da Universidade de Cambridge votaram o desinvestimento nas empresas produtoras de armas num referendo sobre o investimento universitário. [8] Posteriormente, o King’s College comprometeu-se com uma nova política de investimento responsável, com o desinvestimento total na indústria de armamento até ao final de 2025, retirando 2,2 milhões de libras investidos em empresas como a Lockheed Martin, BAE Systems e Korea Aerospace.[9]
No caso do King’s College e em muitos outros campus universitários espalhados pelo país, o movimento em direcção à desmilitarização foi acompanhado de pressões para afastar estas instituições das violações dos direitos humanos e do incumprimento do direito internacional, especialmente tendo em conta o reconhecimento do genocídio em Gaza pela ONU.[10] Os estudantes mobilizaram-se em frente a “feiras de emprego” para protestar contra a presença de empresas de armamento que tentam recrutar licenciados.
A natureza da relação entre a indústria de armamento e as maquinações burocráticas do sector universitário significa que, frequentemente, os seus acordos são feitos nos bastidores. As vozes de funcionários e estudantes activistas, fizeram luz, com sucesso, sobre os processos ocultos que impulsionam as agendas de investigação e o discurso universitário. A cumplicidade das universidades em algumas das piores crises humanitárias do mundo, foi exposta como um elemento da comercialização e militarização das instituições académicas.
Disciplinando a dissidência
O risco reputacional que aquelas acções coordenadas de mobilização aceleraram levou a uma resposta cada vez mais autoritária por parte das administrações universitárias. No caso do King’s College, a vitória alcançada no desinvestimento referido acima, ocorreu após uma tentativa da Universidade de Cambridge de obter uma interdição de protestos, de cinco anos.[11] Embora o objectivo não fosse totalmente alcançado, a Universidade conseguiu garantir uma proibição de um ano de protestos pró-Palestina em partes do campus, reflectindo a pressão nacional para silenciar as vozes dissidentes que se manifestam sobre as políticas e práticas nacionais.
Paralelamente, as administrações universitárias têm implementado medidas de controlo mais coercivas para apaziguar o complexo militar-industrial e manter a sua influência no discurso e na direcção da governação. Em Outubro, foi revelado que várias universidades consentiram na vigilância da actividade estudantil numa tentativa de mitigar a perturbação prevista nas feiras de emprego onde estariam presentes empresas de armamento.[12] As universidades de Glasgow, Loughborough e Heriot-Watt concordaram em monitorizar activamente as redes sociais das associações de estudantes, a fim de fornecer informações sobre possíveis protestos contra empresas que fornecem armamento ao exército israelita. Na Universidade de Cardiff, a feira de emprego foi transferida para o formato online a pedido da BAE Systems, numa tentativa de evitar ouvirem-se as vozes discordantes.
No entanto, igualmente preocupante tem sido a crescente securitização destes espaços e a visível ameaça de uso da força representada pela presença policial e de segurança. A Associação de Directores de Segurança Universitária (AUCSO), que tem funcionários em mais de 140 universidades do Reino Unido, destacou “agentes fixos e móveis” para monitorizar eventos de divulgação de empregos, numa repressão coordenada nos campus de todo o país.[13] Em última análise, esta escalada sem precedentes de securitização levou a uma forte presença policial e à subsequente detenção de três estudantes numa feira de empregos STEM na Universidade de Leeds, em Outubro deste ano.
As medidas autoritárias que estão a ser estrategicamente postas em prática pelas universidades do Reino Unido representam um movimento radical de afastamento dos compromissos com a liberdade de expressão que alegam defender. Estes processos de vigilância e securitização são profundamente preocupantes no âmbito de uma tendência nacional e global mais vasta visando maiores medidas de coerção e controlo. Os estudantes e o pessoal docente que ensinam e aprendem em conjunto merecem fazê-lo sem interferência do Estado ou de outros organismos que desempenham funções públicas, e manter o direito de se manifestarem contra a destruição de pessoas, de lugares e do planeta, seja qual for a forma que esta assuma.
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Laura Shewan é activista contra a militarização do ensino das ciências na organização Scientists for Global Responsibility (SGR).
Ver também…
Páginas da SGR sobre a influência militar na ciência e na tecnologia https://www.sgr.org.uk/projects/military-influence-project-main-outputs
[créditos das imagens: Gerd Altmann e Nikolayhg via Pixabay; NKTN via iStock]
Composição da imagem de topo: OTC
Agradecemos a SGR-Scientists for Global Responsibility a autorização para a republicação deste artigo no nosso site. A publicação original pode ser acedida aqui: https://www.sgr.org.uk/resources/disciplining-dissent-uk-universities-arms-industry-and-protest
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[1] Ajonye O (2024a). Weaponising Universities: Research Collaborations Between UK Universities and the Military Industrial Complex. February. Campaign Against Arms Trade and Demilitarise Education. https://caat.org.uk/publications/weaponising-universities-research-collaborations-between-uk-universities-and-the-military-industrial-complex/
[2] Royal Geographical Society (2025). Funding Crisis in Higher Education. https://www.rgs.org/about-us/governance/society-policies-and-statements/funding-crisis-in-higher-education
[3] Times Higher Education (2025). The Latest Threat to UK Modern Languages is Another Faux Pas. 14 November. https://www.timeshighereducation.com/opinion/latest-threat-uk-modern-languages-yet-another-faux-pas
[4] Ajonye (2024a). Op. cit.
[5] Wilson C (2025). King’s College Cambridge Votes to Divest from the Arms Trade. October. Demilitarise Education. https://ded1.co/what-we-do/blog/kingscollegecambridge-votetodivestfromthearmstrade
[6] Ajonye O (2024b). Sheffield University: Breaching the Moral No-Fly Zone in Military-Industrial Research and Development. October. Campaign Against Arms Trade and Demilitarise Education. https://caat.org.uk/publications/sheffield-university-breaching-the-moral-no-fly-zone-in-military-industrial-research-development/
[7] Universities UK (UUK) é o órgão representativo e a voz colectiva de 142 universidades no Reino Unido.
[8] Wilson (2025). Op. cit.
[9] Ibid.
[10] BBC News (2025). Israel has committed genocide in Gaza, UN commission of inquiry says. 16 September. https://www.bbc.co.uk/news/articles/c8641wv0n4go
[11] Wilson (2025). Op. cit.
[12] The Guardian (2025). UK Universities Offered to Monitor Students’ Social Media for Arms Firms, Emails Show. 8 October. https://www.theguardian.com/education/2025/oct/08/uk-universities-offered-to-monitor-student-social-media-for-arms-firms-emails-show
[13] Ibid.